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22.4.08

Ain't No Sunshine...

Ouvi esta musica há uns poucos dias na tv. Depois de tanto decreto apeteceu-me...

... is a song by Bill Withers from his 1971 album Just As I Am. (...)

27.2.08

USS Saratoga no Porto Praya em 1843 e mais...

Ainda na linha dos posts anteriores, e porque é sempre interessante ler o que outros escrevem sobre estas ilhas, fica o início de um artigo, enviado pela minha amiga Gilda, de J. Peter Pham, Ph.D., intitulado "Cape Verde: A Rare African Success".
"On July 22, 1843, the 22-gun first class sloop-of-war USS Saratoga sailed into Porto Praya (modern-day Praia), the chief town in what was then the Portuguese-held Cape Verde Islands. Under the command of the 49-year-old Captain Matthew Calbraith Perry, the Saratoga was one of four ships (...) which constituted America’s first-ever standing military commitment to Africa, the United States Navy’s Africa Squadron. Under the provisions of the Webster-Ashburton Treaty, ratified one year earlier, the United States committed itself to maintaining a naval presence with an aggregate of at least 80 guns off the coast of Africa to help enforce the international ban on the transatlantic slave trade against American-flagged vessels. Acting under orders from Secretary of the Navy (...) Perry, the squadron’s flag officer, negotiated with the colonial authorities and established what would, for the next two decades, be the Navy’s only permanent squadron. Thus began America’s relations with what eventually emerged as quite an exceptional African nation, the Republic of Cape Verde. (...)".
Imagem do USS Saratoga retirada da Wikipedia/USS Saratoga/1842.
O artigo, de 2008, continua, fazendo um breve resumo da história de Cabo Verde e uma análise aprofundada à estratégia político-económica do país na actualidade. Vale a pena "perder" uns minutos e ler.

11.2.08

A Batalha Naval do Porto da Praia

"The Battle of Porto Praya was a naval battle which took place during the American Revolutionary War on April 16, 1781 between a British squadron under Commodore George Johnstone and a French squadron under the Bailli de Suffren. Both squadrons were en route to the Cape of Good Hope, the British to take it from the Dutch, the French aiming to help defend it and French possessions in the Indian Ocean. The British convoy and its escorting squadron had anchored at Porto Praya in the Cape Verde Islands to take on water, when the French squadron arrived and attacked them at anchor. Tactically the battle was a British victory, since some of the French ships were not ready for action, forcing Suffren to withdraw. Strategically however, the French had won the day. Suffren beat Johnstone to the Cape and managed to warn the Dutch, before continuing on his journey to the Ile de France (now Mauritius)." Na Wikipedia. E aqui a gravura acima (a preto e branco e numa escala maior) com a seguinte legenda: Combat Naval de la Praya 16 Avril 1781. Galrie Histque de Versailles.
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Num outro site, e sobre a mesma batalha, há mais dados...
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Le combat de La Praya - Tableau du marquis de Rossel
"Un raid à La Praya: En 1781, le bailli de Suffren recevait le commandement d'une division chargée de transporter des troupes au cap de Bonne-Espérance et composée de: 1 frégate, 1 corvette et 5 vaisseaux (2 de 74, le Héros, avec Suffren, et l'Annibal) et 3 de 64 canons. Aux îles du Cap-Vert, le vaisseau de 64 l'Artésien, contraint de faire aiguade, partit en reconnaissance et aperçut une flotte anglaise ; il dénombra 4 vaisseaux, 4 frégates, 10 vaisseaux (armés) de la Compagnie des Indes, ainsi que 16 transports.
(...) Ce fut un raid violent et les Anglais subirent des avaries telles que Suffren leur échappa et parvint avant eux au Cap, où il put débarquer les troupes destinées à la défense de la colonie. Quinze jours plus tard, les Anglais étaient en vue, mais il leur fallut renoncer à débarquer ; l'audace de Suffren avait été payante."

15.10.07

Guiné... Do Séc. XIII a princípios do Séc. XX

O texto e as ilustrações que seguem são a primeira parte de um post que se encontra no blog Guiné, Ir e Voltar.

"No século XIII, chegam a esta região da costa ocidental de África os povos naulu e landurna, na sequência do declínio do império do Ghana. É já no século XIV que esta zona passa a integrar o vasto império do Mali, vindo os primeiros navegadores portugueses a estabelecer contacto com ela em 1446-47.Inicia-se então um longo processo de implantação do monopólio comercial na região, incluindo ouro e escravos, o qual vai ser, durante muito tempo, frequentemente e sobretudo contestado por corsários e traficantes franceses, holandeses e ingleses. Em 1588 os portugueses fundam, junto à costa, em Cacheu, a primeira povoação criada de raiz, a qual será sede dos capitães-mores, nomeados pelo rei de Portugal, embora sob jurisdição de Cabo Verde. Seguir-se-á a criação da localidade de Geba, bem no interior do continente. Em 1642, os portugueses fundam Farim e Ziguinchor, a partir da deslocação de habitantes de Geba, dando início a uma ocupação das margens dos rios Casamança, Cacheu, Geba e Buba, a qual se torna efectiva em 1700, passando então a zona a ser designada por Rios da Guiné. Amura, século XIV (Travassos Valdez, África Ocidental).
Entre 1753 e 1775 inicia-se a construção da fortaleza de Bissau, a partir do trabalho de cabo-verdianos vindos especialmente das Ilhas de Cabo Verde para o efeito. Em 1800 a Inglaterra começa a fazer sentir a sua influência na Guiné, iniciando a sua reivindicação pela tutela da ilha de Bolama, arquipélago dos Bijagós, Buba e todo o litoral em frente. Com a abolição da escravatura no século XIX, sobrevém uma crise económica que tem como consequência o início da produção de novas culturas, como a mancarra (amendoim) e a borracha. Em 1870, por arbitragem do presidente dos EUA, Ulysses Grant, a Inglaterra desiste das suas pretensões sobre Bolama e zonas adjacentes. Com a vitória militar dos felupes de Djufunco, em 1879, no que ficou a ser conhecido na história como o “desastre de Bolol”, onde os militares portugueses sofreram a mais dura derrota no confronto com as populações locais, a coroa portuguesa decide a separação administrativa de Cabo Verde e a criação da “Província da Guiné Portuguesa”, com capital em Bolama. Numa tentativa de afirmação da soberania portuguesa, verifica-se então o início de acções militares punitivas contra os papeis em Bissau e no Biombo (1882-84), os balantas em Nhacra (1882-84), os manjacos em Caió (1883) e os beafadas em Djabadá (1882). A estratégia colonial passa igualmente por uma segunda vertente: o apoio sistemático com tropas e armamento a uma das partes dos conflitos indígenas. É o que se passa em 1881-82, com o apoio aos fulas-pretos do Forreá na sua luta com os fulas-forros. Os focos de contestação e a rebelião permanente e consequente dos diversos grupos étnicos fez com que o poder colonial se limitasse ao controlo de algumas praças e presídios (Bissau, Bolama, Cacheu Farim e Geba). Paralelamente, começa a instalação de propriedade de colonos ou de luso-africanos, em várias explorações agrícolas de grande dimensão (pontas) inicialmente dedicadas ao cultivo da mancarra. Em Maio de 1886, são delimitadas as fronteiras entre a Guiné Portuguesa e a África Ocidental Francesa, passando a região de Casamança para o controlo da França, por troca com a região de Quitafine (Cacine), no sul do país. A população desencadeia a partir do final do século XIX uma decidida vaga insurreccional em Oio (1897 e 1902), no Chão dos Felupes (1905), Badora e Cuor (1907-08) e a Guerra de Bissau (1908) que juntou Papeis e Balantas do Cumeré.
Fotografia em cima: Estatua de Ulisses Grant em Bafatá.
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O resumo continua... A meio desta página do Tantas Vidas está a parte que diz respeito à Historia da Guiné-Bissau no Séc. XX

5.6.07

A morte de Marcus Lopius

"(Em Agosto de 1788) o diário da chalupa Washington, de Boston, regista a morte de Marcus Lopius, um tripulante admitido em Cabo Verde. Lopius (Lopes) foi morto por índios Tilamook na costa do Oregão (...). O local da morte seria chamado mais tarde Murderer's Cove (Angra do Assassino). O navio fazia parte da expedição que "descobriu" o rio Columbia e abriu o comércio de peles naquela região. Este é o primeiro registo de um africano na região do Nordeste Pacífico." Parágrafo retirado daqui e imagem ilustrativa aqui. Existe um número razoável de sites na net que relatam a morte de Marcus Lopius. Uns contam que ele, ao perseguir um índio que tinha roubado um objecto da tripulação ou do barco, caíu numa emboscada traiçoeira e foi assassinado (ler mais em "comentários" do post), outros afirmam que o objecto roubado lhe pertencia, como nesta versão aqui: "... at first the Americans had no trouble with the natives but on August 16, the Indians made a murderous assault and killed Gray's cabin boy, Marcus Lopius, the first person of African decent to reach Oregon. Lopius, who joined Gray's 1788 trip to the Northwest native Cape Verde Islands, was exploring near present-day Bayview, on the northern edge of Tillamook Bay, when he realized an Indian had stolen his knife. When the young sailor tried to recover his property, he was murdered." Face ao que aconteceu, não resisto a pôr a exclamação da pessoa que me enviou a estória e alguns dos links, afinal... "Eis a prova de que o homem era caboverdeano. Crioulo não leva desaforo para casa mesmo... (...) foi morto pelos índios porque lhe roubaram a navalha e não quis deixar em branco!!!."

22.5.07

Links a descobrir

E como o tempo não é muito, deixo aqui 3 links com informações interessantes sobre comunidades caboverdeanas na Inglaterra, Estados Unidos e Senegal, respectivamente: "Remembering Slavery: Cape Verde to Cardiff", "Cape Verdean Heritage on Nantucket" (com muitas fotografias) e "The French Speaking Creoles of Cape Verde". O artigo sobre o Senegal sabe a pouco. Gostava de poder encontrar mais informações sobre comunidades de caboverdeanos noutras partes de Africa.
Obs: Gostei tanto desta fotografia que a "roubei" daqui. Ela chamava-se Celestina Andrade, nasceu em 1893 na ilha da Boavista e emigrou para os EUA em 1915.

26.3.07

George S. Lima - a Tuskegee Airman

Existem inúmeros casos de adaptação bem sucedida entre descendentes de caboverdeanos na América. De vez em quando, nas minhas navegações e “esgrovets”, descubro alguns. A história da vida de George S. Lima é um desses exemplos. Filho de Anna Morais Silva e de Manuel Duarte Lima, naturais, respectivamente, das ilhas da Boavista e de São Nicolau, vem a nascer, em 1919, já na América, em Massachusetts mais precisamente. Tem um percurso de vida extraordinario, o qual destaco aqui (e apenas) o facto de ter pertencido a uma elite de pilotos afro-americanos que participou, com distinção, na II Guerra Mundial. E porque não tenho tempo para desenvolver mais, deixo uns links sobre: o documentário (que deu origem á imagem que ilustra o post); um artigo alargado sobre a vida dele; uma pequena biografia; algumas fotografias; o site oficial dos Tuskegee Airman, ao qual pertenceu, e outras informações da Wiki. Por vossa conta fica a descoberta da faceta de "Civil Rights activist" e o empenho demonstrado, num trabalho de anos, pela boa integração da comunidade caboverdeana radicada nos Estados Unidos. Inspirador!

17.1.07

"Compelling portrait of two former slaves."

Entre a vontade cada vez maior de acabar com o blog e a pesquisa que ando a fazer sobre a escravatura... entrou-me pelo ecrã adentro este retrato. Fiquei siderada! São dois ex escravos (no dito outono ou inverno literário da vida) que nos olham lá dos confins do Texas do século passado. O link para descobrir mais sobre o assunto está título do post. Face a uma imagem destas... Como ficar de mau humor? Hum???

13.9.06

Port Praya, Cape Verde 1838


Acreditem ou não, só reparei que as duas imagens eram iguais depois de as colocar uma em cima da outra. Contudo, a primeira é um desenho a tinta (fabuloso tom de sépia que ganhou com os anos) e a segunda é uma gravura (detalhes mais claros) feita a partir do desenho. A autoria é atribuída a Charles Wilkes e a data é 1838.

Charles Wilkes foi o homem que comandou uma expedição de seis navios dos Estados Unidos que, em Agosto de 1838 deixaram Norfolk, na Virgínia para uma expedição no Pacifico Sul. A missão era para explorar as ilhas dessa região, investigar o potencial em termos de comércio e enfatizar o poder da América. Passaram por estas ilhas logo no início da viagem. Para descobrir mais é só clicar no título do post.

1.9.06

Salah Matteos

Não há dia em que eu não faça uma pesquisa na net que não descortine coisas interessantes. Sobre o mundo, sobre Cabo Verde e, principalmente, sobre a visão que as pessoas têm sobre determinados assuntos. Nem sempre concordo, mas é absolutamente fascinante descobrir essas opiniões. Hoje encontrei este site: http://www.multiculturas.com/vb-salah.htm e deparei-me com Mr. Salah Matteos. Um americano descendente de caboverdeanos com um percurso de vida extraordinário. A ler e a reflectir, concordando-se ou não. Deixo aqui um pequeno trecho, a título de curiosidade e também, para lançar uma acha à fogueira.

“I would like to bring something else to your attention; one of the ancient names of the archipelago called Cabo Verde was called by many of the elders AZIJAH that is in part African Arab tongue. AZIJAH means the mighty Power of God. The prefix Aziz means Power or the Precious of God. The Djah or Jah or Dia means God or Allah or Deus all are the same. Jah is the suffix. The two words together form AZIJAH, which again is to say The Mighty Power Of God or the PRECIOUS of God. The Creole (pidgin) is Guinea Arab Africa, Portuguese and other variables in terms of other languages. For example the late Dr. Amílcar Lopes Cabral (aka) was ABEL-Djassi or Djhassi, which meant the servant or God, Abel meaning servant and Jah in its variables meaning God or Deus or Allah as you wish.”

14.8.06

Descobrir II

Queria deixar duas sugestões de leitura de sites que já se encontram na link list: Cranberry People e Palhabote Ernestina.

1. Aqui, Querino Kenneth Joseph Semedo relata, na primeira pessoa, as memórias da infância e juventude, resgatando do esquecimento o contributo de muitos caboverdianos anónimos que emigraram para os Estados Unidos, no principio do século passado, e que, trabalhando em condições sub humanas, ajudaram a construir, com a força das mãos, as plantações de arando* (cranberry). Uma narração tocante sobre a vida de pessoas que, apesar de chamarem a Cabo Verde “old coutry”, mantiveram as suas raízes e ajudaram familiares nas ilhas mesmo debaixo de muitas dificuldades. Uma lição do passado de quem, em terra estranha celebrou o “Mastro de St. Johns”, “Canta Reis”, mas ainda assim, sobreviveu e integrou-se.
(*: A tradução de cranberry para português é arando. É uma fruta pequenina, vermelha, de sabor acido e da mesma família que o mirtilo e a groselha. É comercializada sob diversas formas, fresca, em sumo, xaropes, cristalizada e passada e nas diversas variedades de doce.)

2. O Palhabote Ernestina… O nosso Ernestina, veleiro que ainda navega no imaginário fantástico de muitos, não é Paulino? Construído em Massachussetts e baptizado com o nome de Effie M. Morrisey, é lançado ao mar no dia 1 Fevereiro de 1894. Foi dos últimos veleiros a levar emigrantes para a América, já sob o nome de Ernestinana e é oferecido aos Estados Unidos por Cabo Verde em 1982. Um veleiro cheio de historia e estórias a descobrir e que antes de ser comprado por Henrique Mendes, desempenhou o seu papel na II grande guerra, esteve ao serviço da Smithsonian em missão expedicionária, quebrou recordes de velocidade e efectuou viagens de exploração ao ártico. Quando se tornou Ernestina, em 1947, fez ligações regulares entre Cabo Verde e os Estados Unidos até 1965, ano em que passou a navegar somente entre as ilhas. O resto, a saga dos que comandaram e viajaram nele, deixo à vossa descoberta. Um site magnifico, completo e com fotografias fabulosas.

23.7.06

Daddy Grace - Fim


Já tinha ouvido falar de Daddy Grace, mas o que me surpreendeu quando fiz a pesquisa na internet, foi o facto de ele ter ido para os Estados Unidos já homem feito. Apesar das datas não serem certas, teria no mínimo 18 e no máximo uns 22 anos. Cresceu na Brava! Deve ter feito pelo menos a 4ª Classe, falava português, crioulo e acredito que devia saber uma palavra ou outra de Francês. Chega a New Bedford e absorve uma cultura totalmente diferente, separa-se da comunidade caboverdena, sobrevive e constrói o sonho americano baseado na palavra e na fé que proclama. Independentemente de ter utilizado caminhos bastante questionáveis, achei um percurso de vida muito interessante. Mas… ainda hoje, se se perguntar aos mais velhos da sua ilha natal quem foi ele é se capaz de ouvir algo semelhante a “... um aldrabãozinho qui inganá um data di preto lá na Merca”. Eu ouvi.
Sweet Daddy Grace, que declarou que Deus tinha ido para a América no corpo dele e que se Moisés viesse á terra novamente teria seguir a ele, foi audacioso em muitos aspectos. Foi o primeiro a introduzir uma orquestra de sopro nos cultos, orquestra essa que existe até hoje – Sweet Heaven Kings – e numa época em que o máximo que os Yankees poderiam conhecer sobre os caboverdianos era o de serem bons serviçais, comprou, em plena zona aristocrática de New Bedford, uma velha mansão de um magnata da pesca da baleia e mandou pinta-la de Vermelho, Branco e Azul, como as unhas.

Por tudo isso e pelo muito, mas muito mesmo, que ficou por dizer sobre os rituais da igreja que fundou, as implicações sociais, a fortuna (e as dividas) que deixou e o lugar que ocupa na historia recente da América, junto a outros grandes lideres espirituais afro-americanos... por tudo isso, é uma figura que merece ser conhecida. Tanto mais que, da primeira parte do percurso dele, a vida em Cabo Verde, pouco ou nada se sabe (nos documentos on line).

Para quem quiser consultar a bibliografia e outros documentos com informações sobre os rituais, influências e estrutura da United House of Prayer for All People é só clicar em comentários, estão lá todos os links.

8.7.06

Gentes de um lugar chamado New Bedford

Já sabem da minha paixão por fotografias antigas... enquanto pesquisava imagens de Daddy Grace encontrei estas fotos no site: http://www.s-t.com/daily/02-97/02-02-97/a11lo052.htm. Vale a pena "clicar" e ler as legendas das fotografias.

Sweet Daddy - II

Marcelino Manoel da Graça, natural da Ilha Brava, era um cabo-verdiano e como tal, descendente de africanos e europeus. Não era negro mas também não era branco. Era um “light skin” como os americanos dizem. Isso é importante de se registar se se tiver em conta que o seu aspecto era atraente aos negros americanos que tinham interiorizado o sistema de castas. Também é relevante realçar que, apesar de a grande maioria dos seus seguidores terem sido oriundos dos guetos, onde a segregação racial e a miséria imperavam, o que ele defendia não era uma filosofia africana nacionalista ou mesmo pregava qualquer tipo de doutrina baseada no orgulho de ser africano.
Daddy Grace apelou antes a uma satisfação mais imediata… o estado de euforia, algo que preencheu o vazio emocional dos seus seguidores e lhes permitiu fugir à realidade de uma vida monótona e sem esperança. Auto intitulou-se Bispo e levou os seus fiéis a acreditarem que podia curar doenças e ressuscitar pessoas. Anunciou que era a “Graça do Mundo” e que só ele tinha o poder divino de lhes lavar os pecados… É alias famosa a frase que diz “Daddy Grace has given God a vacation. If you sin against God, Grace can save you, but if you sin against Grace, God can't save you."(!!!)
Apesar de o sucesso de Sweet Daddy Grace se ter apoiado nas necessidades emocionais dos seus seguidores, na ilusão de os encher de “Graça”, a religião, para ele, era baseada na sua própria pessoa. Por isso investiu na sua própria imagem tendo mesmo cultivado um lado excêntrico. Uns dizem que usava um bigode verde, outros duvidam, mas o que é correcto é que a determinada altura usava casacos verdes e púrpura (lembrem-se do ambiente que havia inicio do filme Malcom X e não vai parecer tão estranho) e pintava as unhas (enormes) de azul, vermelho e branco, o que para os fiéis não era mais do que uma prova da sua santidade, uma vez que a bíblia fala de um profeta com cornos crescendo-lhe nas mãos.
Sweet Daddy foi mais longe… criou o sabonete “Daddy Grace” que limpava o corpo, reduzia a gordura ou curava, de acordo com a necessidade de quem usava. Lançou a “Grace Magazine” que quando colocada no peito de uma pessoa que sofria de gripe ou tuberculose, curava. Lançou outros produtos "DG" como café, chá, brilhantina, pó de arroz, biscoitos, etc. Conseguiu implementar uma venda de sucesso com produtos de fé (bandeiras, uniformes elaborados, espadas, bastões de peregrinos, emblemas).
(continua na próxima semana, em 1 ou 2 posts e no fim ponho a bibliografia)

Sweet Daddy Grace - I

Hoje (e em futuros posts) vou tentar contar a história e as muitas estórias de Marcelino Manoel da Graça. Um homem que nasceu nestas ilhas, emigrou para os Estados Unidos e aí criou o seu “American Dream”. Uma figura fantástica!
Charles Manoel Grace, mais conhecido por “Sweet Daddy Grace”, nasceu a 25 de Janeiro de 1881 [1] na ilha Brava. Em 1903 [2] mudou-se, juntamente com a família, para New Bedford, nos Estados Unidos da América, onde trabalhou como merceeiro, vendedor e cozinheiro nos caminhos-de-ferro antes de, em 1919 (mais uma vez, as datas variam), ter fundado o culto/seita chamado “United House of Prayer for All People”. Na América, pouco sabem sobre as suas origens, como muitos líderes religiosos negros da época, Daddy Grace, preferiu manter o passado em águas turvas. Certo é que em 1960, quando faleceu, era um dos negros mais ricos e poderosos da América, dono (só para dar alguns exemplos) de uma mansão de 85 quartos em Los Angeles e de uma frota de Cadillac’s; criador e detentor dos lucros de uma linha de produtos “Daddy Grace” que iam desde cafés, chás, sabonetes, cremes, etc. e líder espiritual, conselheiro e “pai” de cinco milhões e meio de fiéis (dados da própria Igreja). Apesar dos muitos críticos que diziam que ele não passava de uma fraude colossal, no período entre 1940 e 1960, Sweet Daddy foi uma figura de proa entre os negros americanos… um chefe religioso, capaz de arrastar multidões eufóricas e movimentar influencias consideráveis.
O estilo Sweet Daddy foi grandemente influenciado pelos pastores do “sul profundo” da América, que baseavam os seus cultos em ritos pentecostais (do tipo IURD). É interessante de se notar que o apelo “doce” de Daddy Grace não tocou os caboverdeanos-americanos. Com efeito, devia parecer muito estranho à comunidade das ilhas na altura, conhecida por ser tradicionalmente Católica e adversa a cultos religiosos, a maneira evangelista de pregar, baseado na experiência Afro-Americana e a aparência “flamboyante” de Daddy. Mas foi justamente esse estilo e aparência que foi apelativo aos Afro-Americanos.
(continua...)
[1] Outras datas são indicadas nos documentos on line que consultei. Normalmente abrangem os anos 1880 a 1884.
[2] Também aqui as datas variam, havendo documentos que indicam 1900 e outros que dizem início de 1900.