Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens

11.3.07

A chuva do dia 28 de Agosto de 2001

Caboverdeano que se preze e goste de escrever tem de "botar" algo sobre a chuva… É sina. Vem isto a propósito de me ter apanhado a pensar no que não daria por uma boa chuva, miudinha, para limpar este tempo feio di pó di terra que nos assombra faz meses. E lembrei-me de uma crónica que escrevi sobre o tema. Saiu no Terra Nova de Agosto/Setembro de 2001. Transcrevo pela "originalidade", por ser totalmente extemporâneo, porque os problemas persistem, pela ironia q.b. e porque não me estou a ver a escrever algo do tipo quando a chuva vier, se bem que... como diz a Marisa, "inda Agost câ dà!". Chamava-se…

Manhã de Azagua
Chove lá fora… a Azagua começou. Sinto-me contente até ao momento em que uma pontada de ansiedade me atinge. Santa Barbara! Este vai ser um daqueles dias. Vou estar meio perdida a conviver com pensamentos dúbios aliados aos velhos sentimentos “chuvais” que nós, cabo-verdianos, carinhosamente cultivamos e que, as vozes da comunicação social, melhor do que ninguém, dão alma.
Sintonizo, no rádio, o programa “… a voz da alma creola – directamente da cidade do planalto…”, onde mais uma revelação da nossa constelação musical canta “camponês ca bô tchora, ca bô desespera… qui um dia tchuba ta bem”. Um sentimento de medo invade-me. Começou… Eu sei que isto é maso, mas é o lado sado que vence. Questiono-me se o locutor vai ler outro texto fresco e campestre da, habitual colaboradora, Cláudia V., mas logo a seguir venho a mim, se só ontem, a crónica da passagem da Assomada a cidade foi lida, tenho ainda alguns dias de ansiosa espera.
Prosseguindo… a voz de Bius encanta, com mais um tema musical sobre chuva, quando, mentalmente, me preparo, para à noite, na televisão, ver as batidas e rebatidas imagens dos meninos brincando nas poças de agua lamacenta, correndo barquinhos, molhando os pezinhos, prontos para mais uma desinteriazinha, enquanto nós, telespectadores, assistimos, alegremente descansados, com tanta incongruenciazinha. Desta vez sim, o Mamãe Velha (...) será bem encaixado. Tenho a certeza que a TCV vais começar o Telejornal com o poema musicado. Não, não sou adivinha, é o que vem acontecendo ano após ano. (...)
Mas temos chuva. Não importa que nas encostas, todos os anos as águas corram para o mar, engolindo mais punhados de terra arável. Que nas cidades, ruas se tornem intransitáveis, casas sejam inundadas e transeuntes se façam acrobatas. Temos chuva!
Sentimo-nos aliviados. O camponês está feliz! Uma vez mais, cumprirá o ritual da monda, mesmo que, tal como anteriormente, este ano, também não adiante muito. Ritos são ritos, ad eternun! E nós pensamos, reconfortados, que até temos um bom motivo para faltar ao emprego, mas isso dura, apenas, até ao momento em que nos lembramos que as nossas empregadas também o farão. Mas relevamos, pelo menos por alguns dias, relevamos. Estamos todos unidos no sentimento de sermos 100% cabo-verdianos e vivermos num país de amor e solidariedade.
A emissão prossegue. O programa “Voz Solidária” leiloa percentagens simbólicas de historias de miséria, para que, no aconchego dos nossos gabinetes climatizados, nas nossas casas estanques ou mesmo na rua, abrigados nos nossos carros, falando no terceiro telemóvel em dois anos, tenhamos motivos para nos condoer e comprar, publicamente, uma fracção dessa desgraça de não poder e não ter. Mas, logo de seguida, todo o sentimento é varrido, A voz eufórica do locutor, até há momentos sensibilizada, anuncia que “os agricultores estão felizes e prontos para o trabalho, com a magnífica chuva que cai…” e nós, apaziguados, damos graças a Deus. É tempo de Azagua!
Clara Vales
Mindelo, 28.08.01

6.9.06

Mindelo há cinco anos - II

Transcrevo outro texto de "Clara Vales" porque penso que é um tema actual. O meu único reparo vai para o tamanho da crónica. Se fosse hoje diria tudo com metade das palavras.

Nem capitães nem segurança

Há dias, dois meninos da “praia d’bote” surripiaram-me o porta moedas. Nada de mais a acrescentar, apenas mais um que foi à vida. O problema, propriamente dito, não está no roubo, o busílis da questão esta no facto de, os piratinhas terem sabido como agir. Enquanto um me distraía, esmolando para um pão, o outro subtraia-me a carteira. Pois é, temos bando, temos organização e temos esquema!
Uma senhora que, no local, presenciou a minha estupefacção, confidenciou-me que os dois fazem parte de um grupo conhecido, cerca de dez, que ciclicamente, percorrem a Rua da Praia, fazendo pequenos furtos, desaparecendo estrategicamente até ao dia seguinte. Informou-me que são conhecidos da Policia e aconselhou-me a pedir-lhes auxílio.
Esperançosa, dirigi-me ao Comando, onde fui prontamente ouvida com todo o profissionalismo. Os polícias presentes, estiveram atentos até ao momento em que perceberam que a minha “estória” era apenas mais uma a acrescentar a tantas outras, se calhar, ouvidas quotidianamente. Pacientemente, fui convidada, por um dos agentes, a ver uma série de fotografias a preto e branco, guardadas cuidadosamente, dentro de uma pequena caixa de papelão, e proceder à identificação do par.
Examinei cerca de cinquenta fotos, divididas, basicamente, em três idades. A dos adolescentes, com olhar revoltado e queixo tenso, a dos “aborrecentes”, fazendo cara de não me importa e a dos mais pequenos, em poses ingénuas e semblante malandro. Reconheci imediatamente quatro ou cinco rapazes, do bando que ronda as imediações de um supermercado que frequento e onde, na maior parte das vezes, pedem uma moeda a troco de nada. Quase todas as fotografias estavam manuscritas no verso com um ou dois nomes, apelidos de pai e mãe e os respectivos nominhas, como “Springuintin” ou “Coxim”.
No meio dessas fotos, mais parecendo pertencer a uma caixa de uma década anterior, havia uma “carinha” muito particular. A fotografia, bastante amarelada, exibia um homem que fixava a câmara passivamente e cujo penteado “black” aliado a um sulco que lhe dividia copiosamente a melena, quase me fez sorrir. No verso lia-se “Rob d’ Jula” a duas letras e tintas distintas. Alguma mão mais ciosa corrigira após a primeira identificação, o nome mal escrito, pois que um A despudorado cobria o IA feito pelo primeiro punho e dois EE tinham sido mascarados por uma borracha de tinta. Nada de enganos, Rob d’ Jula e não Robe de Júlia! O que faria essa figura “lendária” no meio das outras? Deduzi que talvez, alguém menos atento, no momento de a guardar novamente, após alguma identificação apressada, se tivesse enganado na caixa. Não acredito que tenha pensado que bandidos são bandidos, e piratinhas serão ladrões, pelo que o melhor é estarem bem acompanhados e terem no meio deles uma figura mais paterna, mesmo que, isso signifique acabar por confundi-los a todos e aos seus crimes, pois quem de pequeno, faz furto, quando crescer, cometerá roubos, arrombamentos, desvios e violações, que isto de crimes é sempre a subir.
Acabei por identificar apenas um dos rapazes, mas ainda assim com pouca certeza, afinal, não me tinha dado ao trabalho de fixar os traços do meu “pedinte”. Segui o conselho do agente, fui-me embora, ficando de regressar no fim do expediente para saber como estava o andamento do caso.
De regresso à minha rotina habitual, se sem saber como, veio-me à mente o livro “Capitães de Areia”. As hipóteses de recuperar o porta moedas eram quase nulas e deve ter sido essa a forma que o meu inconsciente encontrou para, tranquilamente, pôr uma pedra sobre o assunto, e fugir às implicações reais do acontecido.
Mas confesso… não Há Jorge Amado ou actos vistos à luz de um prisma mais poético que mascare o atordoamento que ainda sinto quando recordo o meu regresso ao Comando da POP.
Devido ao adiantado da hora, foi na rua que falei com o agente à paisana encarregue do meu caso. O policia, ao volante do carro das diligências e, ao mesmo tempo que ia fazendo mil e um malabarismos para estacionar, mesmo colado à parede lateral do comando, com o fito de barrar o acesso de uma das portas da viatura com o vidro escangalhado, informava-me que não, não havia novidades, que regressasse amanhã porque eles, quando roubavam, subiam a Ribeira Bote de onde não desciam até terem comido, bebido e fumado todo o dinheiro. Eu, sem nenhuma esperança no que toca a porta moedas mas, ainda assim, admirada com tanta perícia, perguntei o porquê de tantas manobras, se ele não era policia, se não estávamos nas imediações do Comando da ilha, ao que o agente respondeu a meio tom… “mais ou menos”.
Se a policia que é Policia, tem de defender o património com que trabalha, neste caso, um carro sovado e maltratado, como nos pode defender a nós, cidadãos que procuramos e esperamos protecção em situações idênticas?
Quem responde por esses menores que, pela lei, não podem ser responsabilizados pelos actos que cometem? Se eles têm nomes e apelidos, foram registados, têm pai e mãe. Os pais ou encarregados de educação que sejam responsabilizados. É fácil cair no erro de os transformar em Capitães da Praia de Bote, mas o que é certo é que eles vão crescer.
Quanto a mim, tenho-me esforçado, mas até agora, não me vem à memória nenhum livro de Jorge Amado ou outro autor, que me faça pôr uma pedra sobre o assunto e dormir tranquila com a visão romântica de bandos de Rob d’ Jula a pulular estas ilhas.
Clara Vales
Outubro de 2001

Pois é… eles cresceram e já não há poesia ou desprendimento que aguente tanta afronta!

29.8.06

Mindelo há cinco anos

O ano de 2001 era para ser o ano em que eu me tornaria empresária! Bom… dona de butik para ser mais exacta. Deu tudo errado! Claro que, para quem me conhece bem, isso não foi novidade nenhuma. Na altura, apesar dos avisos resolvi embarcar na aventura. Para cúmulo dos cúmulos, abri o Balão Mágico, loja de roupas infantis, quando o boom das lojas chinesas estava a rebentar em São Vicente. Resumindo… pouca venda e falência em 11 meses! No fim restou-me a consolação de saber que não nasci para ser dona de butik. Na mesma altura, e sob o nome de Clara Vales, assinei, durante uns poucos meses, uma coluna no Jornal Terra Nova. É uma dessas pequenas crónicas que vou aqui transcrever. Penso que, apesar de se terem passado cinco anos, o tema é actual e, ao mesmo tempo, fala dessa cidade onde eu vivi muitos anos, o Mindelo. A crónica chamava-se…

Desenrascado ou Desonesto?
Sol a pique. O homem está atrasado. Dou-lhe desconto, é hora da ponta. No alcatrão da Baltazar Lopes da Silva, carros cruzam-se em situação de semi tráfego. Condutores e acompanhantes, olham-me com curiosidade fugidia, enquanto rumam a casa, à hora do almoço. Na esquina, aguento mais cinco minutos, antes de agarrar o telemóvel e saber o motivo do atraso. Do outro lado, a senhora explica que se esqueceu de o avisar, mas que fique tranquila, ele já se encontra a caminho. Preparo-me para mais um quarto de hora de espera e aproveito para observar o movimento dos estabelecimentos debaixo do calor do meio dia. Mesmo em frente, uma das inúmeras lojas chinesas (…) mostra sinal de muita movimentação, nas outras lojas, nem por isso. Contudo, todos os estabelecimentos tem algo em comum, grades nas portas e janelas. Infelizmente, é esse o Mindelo dos nossos dias. Grades e mais grades, umas mais discretas, de ferro fino e bem pintadas, outras com ar de terem sido postas à pressa, sem pintura e mal soldadas, devido, talvez, a algum assalto inesperado e outras com desenhos quase barrocos de tão rebuscadas. Mas todas com a mesma intenção, barrar “visitas” indesejáveis. O homem, responsável pela execução das protecções aproxima-se e dirigimo-nos ao estabelecimento vazio. Fico a saber que existem dois tipos de maneiras de fixar grades, “chumbando-as”, ou seja, incrustando-as nas paredes do local, método mais seguro, uma vez que a outra alternativa, com parafusos, não oferece tanta segurança, porque os ladrões fazem o obvio, desaparafusam-nas. Mas há mais, aprendo que a desonestidade, infelizmente, pode estar a tomar lugar do “desenrascar” a vida, algo até há pouco tempo, muito característico desta cidade. No embalo da troca de impressões, pergunto se o prazo de entrega, segunda-feira, pode ser mantido, apesar da pequena modificação solicitada no local e ele responde que não sabe como podem dar um prazo de cinco dias, pois está cheio de outros trabalhos para terminar. Digo-lhe que a pessoa que me atendeu, na empresa, me assegurou que o prazo se cumpriria, tendo sido esse o motivo porque não procurei outras alternativas ou sequer discuti preços. O homem rebate que será bastante difícil e acrescenta que se fosse ele, na sua oficina particular, trabalharia durante o fim de semana e cumpriria o prazo, mas sendo assim, não garante nada, respondo-lhe, quase exaltada, que não garante ele, mas garante a empresa. Segundos de silêncio acontecem, enquanto tento perceber o que se está a passar. Para evitar qualquer tipo de pressão, adianto-lhe que já paguei cinquenta por cento do valor e que me certificarei que o prazo é cumprido. O homem, mais ponderado, ainda pergunta se não estou interessada em fazer prateleiras ou outros moveis interiores, respondo-lhe que só desejo as grades, mas ele insiste e consegue que eu escreva o contacto dele num talão de supermercado, se, por acaso, mudar de ideias. Despedimo-nos friamente e afasto-me reflectindo se será verdade o que se passou ou se terei exagerado a dimensão do facto, depois de tanto sol e espera. Por via das duvidas, telefono para a empresa onde me asseguram que o dia de entrega se mantém, não tendo o operário em questão, nada a haver com o cumprimento de prazos.
Clara Vales
Mindelo, 16 de Novembro de 2001

Obs: As grades estiveram prontas nessa segunda feira, mas a esquadria foi mal feita. Não encaixaram. Devolvi-as, pedi os cinquenta por cento de volta e contactei um particular, não esse, outro.

1.8.06

Flôr da Revolução

Costumo dizer que nada como um bom “sgrovêt” na net para se aprender e descobrir (a minha vénia aos motores de busca… a meu ver, uma das maiores invenções desta era). Gosto de historia e gosto ainda mais de descobrir e saber sobre Cabo Verde. Eu não nasci cá assim como os meus pais. Mas os meus avós são destas ilhas, saíram do Fogo, da Praia e São Vicente no fim da década de quarenta. O meu regresso a casa e ao passado tem sido feito desde 1990, ano em que vim morar para Cabo Verde, e acreditem, não tenho parado de chegar… Eu sou da Guine Bissau, nasci “papel” e aos cinco anos aprendi que era uma flor da nossa revolução. Andei no Jardim Nhima Sanhá onde a professora Júlia me ensinou que os tugas pretos mataram Cabral, para resmunguice do meu avô Lindorff e risota dos meus pais. Ensinaram-me as doidas doidas doidas andam as galinhas ao mesmo tempo que aprendia a desenhar o P, o A, o I, o G e o C. Picotei muito sapo verde e bandeira de Guiné Cabo Verde em papel de lustro. Só comecei a sentir que alguma coisa não estava bem quando, depois do golpe de 1980, me disseram “brumedju ríba bu téra”. Que terra? Foi somente aí que compreendi que afinal éramos caboverdeanos… Eu que comi muito doce Titina Silá, bebi leite Blufo, eu que visitei a Cicer, a Granja e gritava Nhaeee quando os citroen passavam, afinal eu não era de lá! Apesar do esmero da minha educação revolucionária (á medida da Guiné de setenta) conforme os anos foram passando eu fui desconfiando… alguma coisa não batia. Passei a adolescência em Portugal, sempre desenraizada e quando cheguei a Cabo Verde... foi uma descoberta! Havia uma nova revolução, o homem novo dava lugar ao homem democrático ao mesmo tempo que eu me apercebia que havia toda uma história de um povo que existia para lá do ano de 1975… e desde aí não tenho parado de perguntar e perguntar. Afinal há muitas gerações que deixamos de ser descendentes de escravos e da arraia europeia. Tornamo-nos caboverdeanos nas secas, quando as classes compreenderam que não sobreviveriam nestas ilhas perdidas no meio do mar sem entreajuda... e estamos só de passagem, outras gerações virão.

28.6.06

Decada de Noventa na Praia

Estava aqui a lembrar-me do início da década de noventa na Praia. Sabem… quando não havia Internet, telemóveis e até um simples telefonema para São Vicente nos tirava tara… Naquele tempo, não existia RTP ou RDP Africa, para não falar em TV por satélite. Não havia SporTV e não se assistia facilmente os grandes jogos de futebol. Os CD’s começavam a ser de uso corrente, ter um discman… nem tanto e MP3 ou IPOD era coisa por inventar. O sistema operativo mais comum utilizado nos PC´s era o MSDos e as diskettes tinham que ser formatadas. O Palácio do Governo da Várzea ainda estava em construção, serviços eram concentrados no Plateau e toda a gente tinha o hábito de passar pela praça antes de ir para casa. Não existia o Palmarejo e o Meio da Achada era um caos, sem ruas calcetadas mas com muitas casas construídas. Não havia Chinês... Não havia lojas de chineses porta sim, porta sim e o Sucupira imperava. Existia rotura de stocks, a farinha acabava, o pão faltava e fruta importada era quase um “San Jon/Corp d’Deus”. Carro não era para todos, Starlets e Micras não rodavam nas estradas de paralelo. As festas ainda eram feitas com multas e “Zero Horas” era um sabura só! Não havia os Caçu Body mas lembro-me do bando dos terriveis “Netinhos da Vovó”.

Poderia dar outros exemplos, mas não quero cair em saudosismos e comparações com o tempo presente. Lembrava-me apenas porque senti uma pontada de nostalgia pela inocência que existia. Senti saudades do meu grupo de então e da Casa da Tia Nela na Achada de Santo António. Mas isso é matéria para um outro post, não é Betty?

11.5.06

"Os Almeida de Praia Branca" Ficção e historia

-Porque casamento é honra! – respondeu Prudênce à filha, a menina moça Biazé, durante o ritual diário em que lhe penteava os cabelos num entrançado elaborado, arrematado em cruzamento, no alto da nuca.
- Mas mamã, tanto homem branco em São Nicolau, tanto homem bonito, nariz filado, aqui mesmo na Praia Branca, logo arranjaste com um jalofe? – quixumentou-se Biazé.
- Menina deixe de estoria, seu pai é homem bom e já lhe disse, o casamento é a honra de uma mulher.
- Mas o papá bem que podia ser mais clarinho. Olhe eu por exemplo, cabelo fino sim, muito, como o seu, mas espie, espie só a minha boca. E Nitcha, tem os seus olhos verdes mas mamã cabelo espichadinho como o dela, só o do papá... e não quero nem “mentar” o nariz. – concluiu insolente sob o olhar de amuo da codezinha.
- Biazé! Muita soberba é o vocês tem nesse corpo, vosso pai é um homem sério, sabe honrar a mulher e nunca deixou faltar comida na boca de vocês. E chega de conversa, abuso é que eu vos dou, suas brientas!
Este dialogo foi-me contado, quase tal e qual, pela minha avó Ida, matriarca da família, que no ano dois mil e quatro de Cristo Nossôr, com setenta e cinco anos, comandava quatro gerações entrelaçadas de Almeidas, Limas e Amantes da Rosa, e que só de filhos, netos e bisnetos, sem contar com os que se foram ficando nos sobressaltos do tempo, ascendia a uma trintena. Mána Ida, minha avó, transmitiu-me o que lhe disse a mãe, Nitchinha, minha bisavó, codé de Chencha, minha trisavó, que morreu – altiva, mulher honrada – ignorando sempre o nominha pelo qual era conhecida pelas gentes de Praia Branca.
Essa minha trisavó, Prudência de registo, gostava de ser chamada de Mamã Prudence, era neta de um dito filho de aristocrata Marselhês que aportou em Preguiça no ano de mil oitocentos e cinquenta.Estará sempre envolta em mistério a verdadeira razão que terá levado Fernand Trange, homem feito e mundano, a fixar-se em São Nicolau de Cabo Verde, como representante de uma empresa de navegação quase fantasma e que em trinta anos aportou os seus navios por umas escassas vezes em Preguiça, mesmo porque a baía de São Vicente, à época, era o porto de escala obrigatório da rota do Atlântico. Dizia-se que de vez em quando Fernand deixava escapar palavras como “rebelião familiar” e “desterro” mas dada a maneira como se comportou nos últimos anos de vida, tudo leva a crer que a única certeza sobre a sua origem era o de ser francês, excêntrico e rico.
Uns anos depois de se ter estabelecido, após corrido todo o tipo mulherio da povoação e zonas próximas, contraiu casamento por procuração com Antónia d' Almada, filha da mais fina-flor de Ribeira Brava, que fez deslocar em cortejo penoso de três carroças, uma semana e sete mulas, desde a vila, incrustada entre montes, até ao litoral. Discretamente, continuou a frequentar outras mulheres, que importava temporariamente do Mindelo, até ao dia em que percebeu que as partes se lhe mirravam, parecendo querer ser absorvidas pelo corpo imenso que chegaram a coroar, com alguma solenidade, diga-se. Para infelicidade da mulher, Antónia d' Almada Trange, e com o argumento enigmático de que quem nasce de cara para o mar, assim deve permanecer, para que os olhos não morram de sede nem os ossos se desmembrem de desespero, Fernand viveu voltado para o porto até mil, oitocentos e oitenta, quando a morte, compadecida, se deu por satisfeita de um banquete de cinco anos, em que lhe carcomeu lentamente todos os apêndices do corpo. Nos seus últimos dois anos, já cego, alucinava, bradando por uma tal Mercedes, ora lhe pedindo perdão, ora lhe gritando que morria da praga rogada. Para a posteridade deixou uma prole, criada cheia de pergaminhos por Mamã Antónia ou Mã Tanha, como os filhos teimavam em chama-la, que se foi endividando num fausto de fantasia e nobreza perdida, sob o comando do primogénito Dedé – Edmond Antão d'Almada Trange – homem dado ao vício do jogo que fez enriquecer muito oficial de navio na Baía do Mindelo de São Vicente, ilha onde se descolava periodicamente. Em princípios de mil oitocentos e noventa e cinco, Edmund, completamente falido e pai de três meninas graciosas, planeava com o apelido nobre repor, através de bons casamento, algum do esplendor sob o qual tinha nascido. Quando a sua terceira filha se tornou mulher providenciou a venda das ultimas jóias de Mã Tanha, escapadas da fúria das jogatinas, e arranjou tudo para que as meninas fizessem a jornada até a vila da Ribeira Brava e ficassem instaladas em casa do tio Luís, irmão de Tanha, até serem encaminhadas para bons casamentos.
- Veja a miséria em que vivemos! Agradeço a Deus por seu pai, filho de conde, ter morrido de praga rogada, para não ter de testemunhar a mofineza que somos hoje por sua causa!
- A desgraça começou nele, que roubou a família de França, desonrou uma Mercedes qualquer e ainda morreu de doença de mulher da vida, seu vício. – respondeu Dedé, encerrando para sempre o assunto.
Prudência, filha de Edmond e minha trisavó, apesar do nome, veio a demonstrar, um certo inconformismo contra o futuro que lhe reservara o pai ou… talvez a segunda filha estivesse predestinada a seguir um caminho diferente, para que eu esteja aqui hoje, colando todos os relatos desta saga familiar afim de melhor entender de onde viemos.
Prudence a mais bela das meninas “francesas” de Preguiça. Prudência a desgraçada da Vila de Ribeira Brava. Chencha a mulher honrada de Praia Branca. Três vidas de uma só mulher.
O que se passou na Vila nunca ficou muito claro. Sabe-se somente que Prudência, desgraçada e grávida de amor, corria o ano de mil oitocentos e noventa e seis, foi trancafiada a sete chaves e no segredo de quatro paredes pariu um filho, um bastardo. A criança, desapareceu tão secretamente como o vestígio do homem a quem ela se deu. Depois de desbarrigar, oficialmente morta pela família, foi desterrada para o extremo oposto da ilha onde o neto de um de escravo da costa da Guine, se apaixonou por ela. Chamava-se José Joaquim Almeida, Padjé, e fez dela mulher honrada ao desposa-la. Juntos geraram dois rapazes e cinco meninas, sendo as duas ultimas a tia Bia Zé e a minha bisavó Nitchinha. (ver fotografia no post de 05 de Maio de 2006)
Assim se forjaram os Almeida do meu lado paterno. Descendentes de um humilde empregado de loja, da povoação de Praia Branca, que se casou com Chencha, donzela aristocrata caída em desgraça. Mulher que ele amou desde que a viu cruzar a porta da Drogaria Almada, de vestido negro, sovado de servir e lenço de vergonha a envolver-lhe a cara translúcida. Mulher que jurou honrar com o casamento, quando da sua história soube e que até ao fim da vida, mesmo quando a viu com os olhos crus da convivência dos anos, mesmo assim, nunca alcançou que ela, mulher casada e honrada, seria sempre Prudence, filha de Preguiça, acidentada pela vida, mas aristocrata de alma.

Cronologia de uma Crónica
1850 – Com procedência do porto da Vila da Praia de Santa Maria, aporta em Preguiça de São Nicolau, Cabo Verde, o Navio “Destain” da Companhia Marselhesa Azure. Desembarca Fernand Trange, francês de 25 anos, moreno de olhos verdes, que se faz acompanhar somente de cinco baús, sendo três deles consideravelmente pesados. Do mesmo navio, despachados como carga, com destino à família Almada, da Vila de Ribeira Brava, descem quatro negros djalofos da costa da Guine-Bissau. O escravo mais novo recebe o nome cristão de Domingos Almeida, sendo o apelido o mais próximo do do apelido da família a que pertence.
1853 – Fernand Trange leva uma vida faustosa na povoação de Preguiça. Constrói um palacete de varanda corrida para o mar e vive na companhia permanente de duas, três e mais mulheres. Domingos Almeida, trabalha na agricultura e enamora-se da escrava Chiquinha, filha bastarda do patriarca dos Almada.
1854 – Fernand decide casar-se e constituir família após uma noite de bebida, desassossego e delírio. Escorraça todas as mulheres do palacete e envia o amigo Antero da Silva, munido de uma procuração de casamento para a vila com as directrizes de escolher uma menina, das melhores famílias, com boa largura de ossos, para que possa parir toda uma prole de legítimos. Domingos e Chiquinha vivem juntos. Nasce uma filha.
1855 – Nasce o primogénito de Fernand Trange e Antonia d' Almada Trange, que recebe o nome de Edmond Antão d' Almada Trange. Domingos e Chiquinha Almeida partem para a zona de Praia Branca de São Nicolau, onde vão servir um outro ramo da família Almada. Nasce um filho que recebe o nome de José Almeida.
1877 – Casa-se, à revelia da família, Edmond Antão de Almada Trange, Dedé, com Teresa do Rosário Alves. No mesmo ano ainda nasce-lhes a primeira filha. De Teresa sabe-se apenas que é de origem humilde e das zonas que circundam Preguiça. As más-línguas dizem que ambos são irmãos de pai. Nesse mesmo ano Domingos Almeida morre de febre.
1879 – Em Abril nasce Prudência Caridade d' Almada Trange. A tempestade que lhe deu as boas vindas ao mundo seria lembrada por muitos anos. Morre, nessa mesma noite, numa derrocada de pedras, Chiquinha Almeida, mulher de armas, que teimou em socorrer a filha, que paria, na noite do fim do mundo. Deixa vivos 4 filhos e 10 netos, estando um dos netos, filho do primogénito José, Joaquim José Almeida (Padjé) com 4 anos.
1880 – Numa madrugada de Fevereiro, morre Fernand Trange. Num ultimo momento de lucidez, murmura que de nada serve esconder-se no meio do nada, rodeado de mar, porque as pragas são carregadas com o vento. Leva consigo a sua verdadeira historia.
1895 – Prudence e as suas duas irmãs partem para a Vila de Ribeira Brava. Está-se no mês de Novembro. José Joaquim, na Praia Branca, sonha que uma mulher se dirige a ele e pelo caminho pisa escorpiões e lacraus. Ele estende-lhe a mão, mas ela ignora. Vê-a de vestido preto mas não lhe distingue a face.
1896 – Em Agosto, a família descobre que Prudência está grávida.
1897 – Em fins de Janeiro, Chencha é exilada em Praia Branca, servindo como criada de uns amigos da família Almada.
1898 – Casam-se Chencha e Padjé (Prudência Caridade d' Almada Trange e José Joaquim Almeida).
1905 – Nasce Bia Zé.
1907 – Nasce Nitchinha (minha bisavó).
1914 – Dialogo do Casamento (o principio da crónica).
1924 – Morre a minha trisavó Chencha. Dizem que no fim suspirou um nome... Carlos.
P.S. Quando fazia a pesquisa para esta crónica, descobri que existiu um tal primo "Carlos d' Almada", filho de João Almada e neto de Luís, irmão de Mã Tanha (Antonia d' Almada Trange) que também vivia no mesmo casarão dos Almadas quando as "meninas francesas de Preguiça" foram para lá morar. Ainda no decorrer do ano de 1896, segue para Coimbra, para estudar medicina, mas o seu rasto perde-se em 1898, quando segue para umas ferias no norte de Portugal.