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22.7.08

Aos olhos dos outros...

Etiquette: Cape Verdeans stand close together when talking and are physically demonstrative, often touching and holding hands (men as well as women). Greetings are somewhat lengthy, and include shaking hands (or kissing for women), and inquiring about each other's health and family. This is usually done each time two people meet, even if it is more than once in the same day.
Marriage: Legal and church weddings are uncommon in Cape Verde. More often than not, a woman will simply sai di casa (leave her family's house) to move in with her boyfriend. This is often occasioned by the woman becoming pregnant. After four years of cohabitation, a relationship acquires the status of common-law marriage. While polygamy is not legal, it is customary for men (married or not) to be sleeping with several women at once.
Classes and Castes: (...) There is a small but growing middle class in the towns and cities and virtually no upper class. Those of higher socio-economic backgrounds tend to identify culturally with Europe and to think of themselves as more "European," often because they have spent time abroad.
"People, dressed in Western clothing, stand in front of a mural
depicting the importance of safe sex, another Western import."
.
Fotografia e texto em everyculture.com
Eventual gargalhada triste por vossa conta.

26.3.08

Ainda do Jardim das Hespérides e do Lagarto Gigante que afinal só media 17 cm...

Muitos mitos povoam e povoaram estas ilhas... um dos mais cómicos terá sido aquele que foi apelidado por Estela Guedes, Directora do TriploV, como a maior fraude da Zoologia. O fabuloso Lagarto Gigante, o Macroscincus coctei ou o Lagarto da Atlântida. O réptil começou por medir um metro e meio e, ao longo dos anos acabou nuns meros 17 cm! Dados daqui.
No
último post... viu-se como no princípio do século passado os poetas destas ilhas evocavam o mito hesperitano, algo muito próprio do espírito da época e, se calhar, podem ter ido buscar motivos à zoologia.
É que dizia-se então que o Lagarto Gigante destas ilhas (supostamente habitante do Raso, do Branco e Santa Luzia) era o último sobrevivente do que foi outrora a Atlântida. Grandes homens da ciência da altura foram ao ponto de afirmar que o dito só se alimentava de maças - lembram-se daquelas que o dragão do mito do Jardim das Hespérides guardava? - ainda que nestas ilhas só houvesse gramíneas.
Baltasar Osório (dizia que o lagarto) se alimentava de toda a espécie de frutos polposos. Peracca (que afirmou ter trabalhado com 40 desses lagartos muitos deles vivos) foi peremptório: o alimento preferido do Macroscincus coctei eram as maçãs.”! (Dados e citações daqui).
Segundo registos, figuras das ilhas e não só, como Francisco Newton, procuraram pelos lagartos, chegando a enviar inúmeros exemplares para Lisboa e Paris. - A carta ao lado, de F. Frederico Hoppfer a Barbosa du Bocage, dá conta do envio de 2 remessas de repteis, sendo a primeira do ilhéu Branco e a segunda do Branco - Contudo, parece que os últimos exemplares, confinados que estavam ao ilheu Raso, vieram a desaparecer, quando
uns pescadores de Santo Antão, em 1915, soltaram por lá cães... De modo que até hoje nem fumo nem mandado e nem ossos do Lagarto Gigante.
Este post e antepenúltimo foram baseados no imenso material escrito por Estela Guedes, disponivel nos diversos links do index do TriploV - CaboVerde
e são assuntos que devem ser desenvolvidos por quem esta mais capacitado. O que é certo é que é estória do Lagarto Gigante é das mais engraçadas e mirabolantes que já li. Fica o convite para visitarem o site, tirarem as vossas conclusões e corrigir algum erro meu. Imagens: aqui e aqui.
Entretanto... sobre este mesmo assunto gostaria de convida-los a ler o post intitulado "Maior fraude da Zoologia, ou a superficialidade da má-fé" do Professor Jorge Sousa Brito, autor do blog O outro lado do Eu. Afinal parece que que a estória, se a houve, pode não ter sido bem assim...

7.12.07

A Grande Viagem

"Tem uma negona véia cantora lá da ilha de Cabo Verde, na África, que eu sou apaixonado! O nome dela é Cesaria Évora! A mulher canta no dialeto Crioulo, um português que não é português mas acaba sendo português, sabe? O mais estranho é que tu ouve e jura que tá sabendo o que ela tá cantando, quando não tá sabendo porra nenhuma. Eu até copiei um texto na internet escrito em crioulo, olha que viagem: "Kamaradas ku jintis ku na sukutanu, bô tardi. Bu kontinua na sukuta Radio Difusão Nacional di Republika di Giné-Bissau. Na studiu no tene uma ora mas trinta minutu. No na tchoma bos atenson pa prezentason di no noba di uma ora i trinta minutu di tardi na kriolu Mil novisentus oitenta i oitu anu di ristruturason i ifisiensia, tona kunpu kusa ku bali. No na kontinua ku aparelhu di stadu kunumeru di djintis ciu ku ka prisisadu, ku ta aumenta grava pesu di gastu ku salariu, ki ta punu no ka ta bin pudi paga salariu justu pas kilis ki na bardadi e ta tarbaja e ta pruduzi. Es i konbersa di General di Divison Jon Bernardu Vieira, Sekretariu Geral di PAIGC i Prezidenti di Konselhu di Stadu."
Agora, imagina isso cantado...baixa uma músia dela: "Nutridinha".
.
Que grande viagem... eh eh! Está em: As Mulatas de Jesus Cristo.

31.8.07

Curtas, Ideias e Neuras

Regressei ao trabalho, silenciosamente, desde o início da semana.
Ferias na Praia em pleno mês de Agosto… calor, falta de água, falta de luz e sei lá mais o quê. Já foi tudo dito. Para contrabalançar ficou a observação do Guilherme que “Praça d’ Praia (Cruz do Papa) é más sáb! Ten baloiço, ten scorrega. Praça de Soncent ten só tanque! …e baziu”, rematou a Andreia sabiamente. Eu bem que desconfiava... eh eh!
Mudando de assunto…
Ocorreu-me que poderia contar o porquê do apelido (e do nome do blog) Amante da Rosa. É uma estória engraçada. O meu pai também me ofereceu um texto interessante sobre as memórias dele das ilhas dos Bijagós (Guiné Bissau). Falta somente formatar e acrescentar imagens. Outras ideias surgiram e apagaram-se com a mesma velocidade.
Entretanto…
Acho que todos os que têm um blog já sentiram, alguma vez, aquela vontade de deletar tudo muito pura simplesmente (e pronto e mais nada!). Desde ontem que ando assim. Motivos? Mil e um. Falta de inspiração, porque chove e a cidade está caótica, porque é tempo de despedidas, porque... porque... Tenho é uma graça muito grande de explodir no ar, assim como no poema:

"Era Verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar."
Eugénio de Andrade
Obs: Fotografia daqui.

5.6.07

A morte de Marcus Lopius

"(Em Agosto de 1788) o diário da chalupa Washington, de Boston, regista a morte de Marcus Lopius, um tripulante admitido em Cabo Verde. Lopius (Lopes) foi morto por índios Tilamook na costa do Oregão (...). O local da morte seria chamado mais tarde Murderer's Cove (Angra do Assassino). O navio fazia parte da expedição que "descobriu" o rio Columbia e abriu o comércio de peles naquela região. Este é o primeiro registo de um africano na região do Nordeste Pacífico." Parágrafo retirado daqui e imagem ilustrativa aqui. Existe um número razoável de sites na net que relatam a morte de Marcus Lopius. Uns contam que ele, ao perseguir um índio que tinha roubado um objecto da tripulação ou do barco, caíu numa emboscada traiçoeira e foi assassinado (ler mais em "comentários" do post), outros afirmam que o objecto roubado lhe pertencia, como nesta versão aqui: "... at first the Americans had no trouble with the natives but on August 16, the Indians made a murderous assault and killed Gray's cabin boy, Marcus Lopius, the first person of African decent to reach Oregon. Lopius, who joined Gray's 1788 trip to the Northwest native Cape Verde Islands, was exploring near present-day Bayview, on the northern edge of Tillamook Bay, when he realized an Indian had stolen his knife. When the young sailor tried to recover his property, he was murdered." Face ao que aconteceu, não resisto a pôr a exclamação da pessoa que me enviou a estória e alguns dos links, afinal... "Eis a prova de que o homem era caboverdeano. Crioulo não leva desaforo para casa mesmo... (...) foi morto pelos índios porque lhe roubaram a navalha e não quis deixar em branco!!!."

8.5.07

Blogueforanada - sem palavras.

Muito ouvimos nós, a geração das Flores da Revolução de Bissau, falar da luta da libertação nacional que decorreu nas matas da Guiné e dos nossos bravos combatentes e libertadores da pátria amada que lutaram corajosamente contra os tugas colonizadores (assim era a linguagem, não há enganos). Enfim... Jovens cheios de ideais nobres que combateram contra outros jovens, alguns renitentes e outros "impregnados ainda dos ideais de um império moribundo" como alguém me disse.
A parte dos combates foi sempre muito abstracta e idealizada na minha mente. Uma de mistura de memórias de criança com imagens do filme "Mortu Nega" e uns salpicos daquelas elipses convenientemente cinematográficas, onde se leva o espectador directamente para o que interessa, sendo dispensado de ver a parte chata e sobretudo, sem aflorar a tragédia que está por detrás da rotina dos acontecimentos. Gostaria de poder acreditar que, da minha parte, foi uma negação mascarada de ingenuidade.
Mas... e o concreto? O sangue, os massacres de populações civis indefesas, os fuzilamentos, as luta corpo a corpo? As situações mórbidas que poucos têm coragem de perguntar e que, muitos dos que levaram a cabo essas acções, não gostariam de se lembrar?
Há blogs engraçados, curiosos, originais e há blogs que me provocam, literalmente, uma reacção orgânica qualquer que não consigo explicar. O blogueforanadaevaotres editado por Luís Graça é um deles. Narrado quase sempre na primeira pessoa, relata o historial da guerra na Guiné e como foi vivido pelos portugueses. Está tudo lá! São descrições, factos e memórias impressionantes. Conforme ia lendo só me ocorria uma palavra - Catarse.
Não se consegue ler tudo de uma vez e o que se vai descobrindo arrepia. Arrepia a estória de Uloma, o comando africano “caçador de cabeças”. Sobressalta o alegado número de fuzilados que o historiador Leopoldo Amado avança e surpreende saber que o Supervisor da 1ª. Companhia de Comandos Africanos e Director de Instrução de Cursos de Comandos em Fá Mandinga, que se chamava Octávio Manuel Barbosa Henriques, nasceu em 18 de Novembro de 1938, na Freguesia de Nª. Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo.
É o outro lado e há muito a descobrir...
Já agora... Recomendo a visita a esta página, também no mesmo blog, que tem informações interessantes sobre a força expedicionária portuguesa em que passou por São Vicente durante a II Guerra mundial.

29.1.07

Cabo Verde de Minas Gerais

Em Minas Gerais, no Brasil, há um município que se chama Cabo Verde. O motivo? Reza uma das lendas que "povoadores vindos do Arquipélago de Cabo Verde (...) encontrando (...) pedras semelhantes às da terra natal, quiseram homenageá-la, colocando o seu nome no novo descoberto". Mais aqui.

14.11.06

O despertar de uma sesta, no fim do mundo dos anos 50, visto num quadro de Paulo Rego

Acordou alagada da sesta… maldita humidade. Abriu os olhos ainda tempo de ver o Irã que deslizava, entre uma trave e outra, no tecto do quarto, para desaparecer no escuro da telha enegrecida. Em que buraco se metia? Lembrou-se…
“- Matem a cobra!
- Não Senhora…
- Mata a cobra… Anselmo? Há uma cobra no tecto da casa!
- Senhora é o guardião… não.
- Guardião…?
- Sim Senhora, guarda a casa.
- Anselmo… É uma cobra branca.
- Não… É Irã Cego… é poderoso e vai protege-la a si e aos meninos.”
A humidade… nem sabia se estava acordada. Nunca a tinha visto assim… Gorda e branca. Ela… O Guardião. O Irã Cego. A cobra albina que vivia no telhado da casa. Foi regressando devagar daquela letargia do sono. Como foi que vim parar neste fim de mundo? O mato, os bichos, o raio das cobras e o bucho cheio ano sim ano… Não, nada de lástimas! Calor… parece que o diabo se entretêm a chupar ar. Ai Guine! Ai Mindelo... Irã Cego… as minhas crianças aqui em baixo deste tecto. Ninguém num raio de quilómetros e ele que se mete no mato dias a fio. Deve estar nalguma tabanka. Um banho... preciso de um banho. Mãe… e tu que nunca mais chegas. O Nhelas lá para o Sul sem conseguir fugir do contrato da roça... O Nando embarcado sabe-se lá onde. Os meus irmãos espalhados em tudo o que é fim de mundo. A onça… é preciso ver se os meninos estão cá dentro… a onça que quase leva o Canelito. Bendito cachorro... e ele ainda a gritar pelo pobre do bicho... sozinho em frente da casa. Isto é o fim do mundo. Irã… que me vale Deus aqui. Irã Cego! O guardião da casa que engole os ovos das galinhas é quem nos protege. E a minha terra lá tão longe. O vento… que falta faz o vento Mãe. Banho… aquele banho semanal que nos davas com a água que trazias de casa d’inglês. Anselmo… é preciso ir ao poço…. A onça que deve andar á caça… E ele que não chega metido nesse mato sem ninguém. Como foi… ah… Dava tudo para sentir aquele cheiro de colónia inglesa do Nana... Cheiro nauseabundo com que ele chega… Meu Nana… como fui acabar tudo com ele. Lembranças não levam a nada e o que foi foi… deve ser do calor, estás a enlouquecer Vinda. Valha-me a cobra para nos proteger e…
- Dona Vinda…? - o chamado urgente sacudiu-a
- Sim Anselmo...
- É o Irã... Irã Cego fugiu para o mato.
- …
- Senhora… não é bom.

16.10.06

Zorro em Cabo Verde... a caminho da América!

Acabei de ler o livro Zorro, o Começo da Lenda, onde Isabel Allende, a autora, lhe “fabrica” um passado extraordinário, explicando de onde e como surge o herói. É uma obra de ficção, que tem como pano de fundo o que aconteceu no mundo (América e Europa) entre 1790 e 1815. Para os amantes da escritora, de história e fãs incondicionais de Zorro (a raposa) e suas aventuras, recomendo. Agora, que me desculpem pirataria, mas não resisti a copiar um pouco da pagina 310 do livro… é a parte que toca a Cabo Verde. Passa-se em 1815 e vamos encontrar Diego de la Vega, Zorro, a caminho da América, Baja Califórnia, depois de ter passado cinco anos em Espanha, consolidando a sua educação de futuro Don.
“(…) Impulsionado pelas correntes oceânicas e pelos ditames do vento, o Madre de Dios dirigiu-se para sul bordejando Africa, passou frente às ilhas Canárias sem parar e chegou a Cabo Verde para se abastecer de agua e alimentos frescos, antes de iniciar a travessia do Atlântico, que podia durar mais três semanas, dependendo do vento. Ali souberam que Napoleão tinha fugido do seu exílio na ilha de Elba e entrara triunfalmente em França, onde as tropas, enviadas para lhe barrar o caminho até Paris, se haviam passado para o seu lado. Recuperara o poder sem disparar um único tiro, enquanto a corte do rei Luís VXIII se refugiava em Gant, e dispunha-se a reiniciar a conquista da Europa. Em Cabo Verde os viajantes foram recebidos pelas autoridades, que ofereceram um baile em honra das filhas do comandante, como as meninas De Romeu foram apresentadas. Muitos funcionários administrativos eram casados com belas mulheres africanas, altas e orgulhosas, que se apresentaram na festa vestidas com um luxo espectacular. Em comparação, Isabel assemelhava-se a um cão lãzudo e até a própria Juliana quase parecia insignificante. Essa primeira impressão mudou por completo quando Juliana, pressionada por Diego, aceitou tocar harpa. Havia uma orquestra completa, mas, mal ela feriu as cordas, fez-se um silêncio no grande salão. Um par de baladas antigas bastou-lhe para seduzir todos os presentes. Durante o resto do serão, Diego teve de se pôr em fila com os restantes cavalheiros para dançar com ela.
Pouco depois, o Madre de Dios desfraldou as velas, deixando para trás a ilha. (…)”
...
Sem dúvida um CaboVerde alternativo e/ou de ficção… ou não? Vamos verificar?

1.9.06

Salah Matteos

Não há dia em que eu não faça uma pesquisa na net que não descortine coisas interessantes. Sobre o mundo, sobre Cabo Verde e, principalmente, sobre a visão que as pessoas têm sobre determinados assuntos. Nem sempre concordo, mas é absolutamente fascinante descobrir essas opiniões. Hoje encontrei este site: http://www.multiculturas.com/vb-salah.htm e deparei-me com Mr. Salah Matteos. Um americano descendente de caboverdeanos com um percurso de vida extraordinário. A ler e a reflectir, concordando-se ou não. Deixo aqui um pequeno trecho, a título de curiosidade e também, para lançar uma acha à fogueira.

“I would like to bring something else to your attention; one of the ancient names of the archipelago called Cabo Verde was called by many of the elders AZIJAH that is in part African Arab tongue. AZIJAH means the mighty Power of God. The prefix Aziz means Power or the Precious of God. The Djah or Jah or Dia means God or Allah or Deus all are the same. Jah is the suffix. The two words together form AZIJAH, which again is to say The Mighty Power Of God or the PRECIOUS of God. The Creole (pidgin) is Guinea Arab Africa, Portuguese and other variables in terms of other languages. For example the late Dr. Amílcar Lopes Cabral (aka) was ABEL-Djassi or Djhassi, which meant the servant or God, Abel meaning servant and Jah in its variables meaning God or Deus or Allah as you wish.”

23.8.06

Estória inspirada num Quadro de Paula Rego

…e foi então, depois do último esgar, daquele último esticão, que o olhar de raiva se extinguiu e ele voltou a ser o menino de oito anos. Ela fechou-lhe os olhos, limpou-lhe a baba que ainda escorria pelo canto da boca, ajeitou-lhe a cabeça nos lençóis empapados, desamarrou-lhe os pulsos e os tornozelos e permitiu-se suspirar. Só depois reconheceu nele o filho que acabava de falecer. Estavam os dois sozinhos no quarto, a humidade ou desespero eram tantos que lhe faltaram as forças. Apagou-se silenciosamente. Disse-me que entrou numa espécie limbo em que nada sentia, apenas estava sem saber se era ou não. Foi o barulho arranhando atrás da porta que a fez voltar a si. Os uivos do marido, o latir dos empregados e o silêncio das crianças… as crianças, foi esse o motivo que a fez levantar naquela manhã. Deu a volta à chave. Sentiu uma mudez tão grande que não gritou, não uivou, sequer ganiu, abriu a porta, ignorou todos e percorreu em tropeções o corredor escuro. Luz, desejava luz. Parou à entrada do quintal, sentiu o calor do sol e ante o espanto de todos, deixou-se cair numa de gargalhada de escárnio. Um riso puro de hiena…uma gargalhada louca que se elevou no ar e pairou sobre a casa. Calou-se quando a acudiram e esteve assim, muda, apática até ao fim da tarde. Só tornaram a ouvi-la quando o empregado regressou do mato, trazendo dentro de um saco de farinha a carcaça do bicho que lhe tinha mordido o filho. Disse quem ouviu, que rosnou o mesmo rosnar de cão e só depois conseguiu chorar a dor...

17.8.06

O colo da Senhora

Eu sempre acreditei que o Tio Tuca morreria de velhinho. Tão velhinho que voltaria a ser a criança de 3 anos que um dia se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de onde saiu. Foi-se ainda não tinha 50 anos e teve a morte mais triste que existe... morreu só sem que ninguém desse por isso. Descobriram-no dias depois estendido no chão da sala desarrumada, no apartamento de uma Luanda tão decadente como a vida que teimou em levar. Mal o conheci, mas as recordações que tenho do Tio Tuca têm um sabor doce e amargo ao mesmo tempo. Numa das poucas vezes em que estivemos juntos, teimou comigo em como seria a ultima vez, eu na altura ainda acreditava que ele morreria com cerca de 100 anos disse-lhe "O tio vai morrer de pura velhice e só não tem a vida eterna porque a carne apodrece.... Está condenado a isso desde que se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de água na Guiné." Ele riu-se sem responder. Quando soube que tinha falecido fiquei admirada apesar de saber que teimava em levar a vida como se não houvesse amanhã... luandou, parodiou e bebeu. Não morreu quando lhe extirparam a ulcera e três quartos do estômago, ainda jovem, não morreu numa segunda operação quando, desenganado de vez, o ti’Tio o trouxe quase cadáver para a Praia para se finar junto dos seus, apenas para se vir a descobrir que afinal tinha uma compressa muito bem guardada debaixo do pâncreas. Assim que se pôs bom, rumou de novo a Angola, para junto dos filhos e amigos e da terra que adoptou depois lá ter combatido contra os “carcamanos no Sul e zairenses em Kinfangondo” e continuou a beber. Nunca foi ferido na guerra, mas foi assaltado algumas vezes nos becos e vielas da Luanda que adorava, também não morreu de sova de puta num saguão de hotel de Dakar por pura caturrice, apenas não queria pagar o "capote". Tinha tanta sorte com a porra da vida dele, que pouco importância lhe dava e levou-me a acreditar que estava sempre bem acompanhado. Dizia sempre que ainda não tinha esgotado as suas sete vidas. Que a Senhora do fundo do poço olhava por ele... mas não. Morreu triste, só, o meu Tio Tuca. Hoje, acho que a felicidade que conheceu, sentado no colo Dela, no fundo daquele poço escuro, enquanto esperava que os gritos do pai, da mãe e dos vizinhos amainassem e o fossem buscar, deve ter sido tanta que a vida que ainda tinha a viver pouco lhe importou. Não acho que fossem tendências suicidas, apenas pouco lhe importava. A mãe dele diz que não, que ele foi um bebé que chorou na barriga e que isso é sinal de infelicidade na vida, mas eu continuo a visualizar a estória que me contaram. Que ele devia ter morrido no início dos anos cinquenta, no fundo daquele poço no quintal da casa de Bolama, aos três anos de idade. Que foram buscar um anjinho e viram assomar pelas mãos do Arsénio um menino feliz de sorriso aberto que dizia ter estado sentado no colo de uma senhora... Bendita Senhora! Devias ter morrido bem velhinho tio Tuca… ou será que viveste em dobro?

1.8.06

Flôr da Revolução

Costumo dizer que nada como um bom “sgrovêt” na net para se aprender e descobrir (a minha vénia aos motores de busca… a meu ver, uma das maiores invenções desta era). Gosto de historia e gosto ainda mais de descobrir e saber sobre Cabo Verde. Eu não nasci cá assim como os meus pais. Mas os meus avós são destas ilhas, saíram do Fogo, da Praia e São Vicente no fim da década de quarenta. O meu regresso a casa e ao passado tem sido feito desde 1990, ano em que vim morar para Cabo Verde, e acreditem, não tenho parado de chegar… Eu sou da Guine Bissau, nasci “papel” e aos cinco anos aprendi que era uma flor da nossa revolução. Andei no Jardim Nhima Sanhá onde a professora Júlia me ensinou que os tugas pretos mataram Cabral, para resmunguice do meu avô Lindorff e risota dos meus pais. Ensinaram-me as doidas doidas doidas andam as galinhas ao mesmo tempo que aprendia a desenhar o P, o A, o I, o G e o C. Picotei muito sapo verde e bandeira de Guiné Cabo Verde em papel de lustro. Só comecei a sentir que alguma coisa não estava bem quando, depois do golpe de 1980, me disseram “brumedju ríba bu téra”. Que terra? Foi somente aí que compreendi que afinal éramos caboverdeanos… Eu que comi muito doce Titina Silá, bebi leite Blufo, eu que visitei a Cicer, a Granja e gritava Nhaeee quando os citroen passavam, afinal eu não era de lá! Apesar do esmero da minha educação revolucionária (á medida da Guiné de setenta) conforme os anos foram passando eu fui desconfiando… alguma coisa não batia. Passei a adolescência em Portugal, sempre desenraizada e quando cheguei a Cabo Verde... foi uma descoberta! Havia uma nova revolução, o homem novo dava lugar ao homem democrático ao mesmo tempo que eu me apercebia que havia toda uma história de um povo que existia para lá do ano de 1975… e desde aí não tenho parado de perguntar e perguntar. Afinal há muitas gerações que deixamos de ser descendentes de escravos e da arraia europeia. Tornamo-nos caboverdeanos nas secas, quando as classes compreenderam que não sobreviveriam nestas ilhas perdidas no meio do mar sem entreajuda... e estamos só de passagem, outras gerações virão.

23.7.06

Daddy Grace - Fim


Já tinha ouvido falar de Daddy Grace, mas o que me surpreendeu quando fiz a pesquisa na internet, foi o facto de ele ter ido para os Estados Unidos já homem feito. Apesar das datas não serem certas, teria no mínimo 18 e no máximo uns 22 anos. Cresceu na Brava! Deve ter feito pelo menos a 4ª Classe, falava português, crioulo e acredito que devia saber uma palavra ou outra de Francês. Chega a New Bedford e absorve uma cultura totalmente diferente, separa-se da comunidade caboverdena, sobrevive e constrói o sonho americano baseado na palavra e na fé que proclama. Independentemente de ter utilizado caminhos bastante questionáveis, achei um percurso de vida muito interessante. Mas… ainda hoje, se se perguntar aos mais velhos da sua ilha natal quem foi ele é se capaz de ouvir algo semelhante a “... um aldrabãozinho qui inganá um data di preto lá na Merca”. Eu ouvi.
Sweet Daddy Grace, que declarou que Deus tinha ido para a América no corpo dele e que se Moisés viesse á terra novamente teria seguir a ele, foi audacioso em muitos aspectos. Foi o primeiro a introduzir uma orquestra de sopro nos cultos, orquestra essa que existe até hoje – Sweet Heaven Kings – e numa época em que o máximo que os Yankees poderiam conhecer sobre os caboverdianos era o de serem bons serviçais, comprou, em plena zona aristocrática de New Bedford, uma velha mansão de um magnata da pesca da baleia e mandou pinta-la de Vermelho, Branco e Azul, como as unhas.

Por tudo isso e pelo muito, mas muito mesmo, que ficou por dizer sobre os rituais da igreja que fundou, as implicações sociais, a fortuna (e as dividas) que deixou e o lugar que ocupa na historia recente da América, junto a outros grandes lideres espirituais afro-americanos... por tudo isso, é uma figura que merece ser conhecida. Tanto mais que, da primeira parte do percurso dele, a vida em Cabo Verde, pouco ou nada se sabe (nos documentos on line).

Para quem quiser consultar a bibliografia e outros documentos com informações sobre os rituais, influências e estrutura da United House of Prayer for All People é só clicar em comentários, estão lá todos os links.

17.7.06

Abóboras quentes e Doce d’Jam

Ainda estou a dever o "fim de Daddy Grace” mas... enquanto isso cá vão duas estorias pequeninas de São Cente.

Conheci a Nha T. ainda na Praia, mas foi em São Vicente que com ela privei e aprendi muito sobre o Mindelo de antigamente, especialmente a vida das pessoas mais humildes. Numa dessas conversas de fim de domingo ela contou-me como é que matavam os tubarões que, de vez em quando, resolviam dar o ar de sua graça na Baia… Quando assim acontecia, era dado o alarme e logo um barco partia para o largo, levando a bordo um bidão de água a ferver com umas tantas abóboras lá dentro. Primeiro atraíam os bichos com uma isca ensanguentada e depois deitavam ao mar as abóboras que quando engolidas pelos tubarões os punham a zunir dali para fora com as tripas semi cozinhadas...UI!
Um dia ela falou-me dos produtos ingleses que existiam… talcos, colónias, as pastilhas digestivas, o chocolate Cadbury, o doce d’jam...

- Doce de Jam?- perguntei logo
-Sim! Doce d’jam. Era um doce mut sáb…
- Não Nhá T.… era geleia! Jam na inglês ê géleia, bocê crê dzê géleia…
- Não senhor – respondeu zangada – Doce d’jam ê doce d’jam. Mim conchê geleia mut bem e n’era geleia, era doce d’jam!
“Bem feito pelo atrevimento. Afinal quem me mandou contrariá-la?” pensei condescendente. Mas a Nha T. tinha razão… em inglês geleia diz-se “jelly”. "Jam" será equivalente ao nosso doce tradicional. Quanto muito seria doce d’doce?!? Será? Nesse caso como é que se diz compota? N´tâ lost na translation...

8.7.06

Sweet Daddy - II

Marcelino Manoel da Graça, natural da Ilha Brava, era um cabo-verdiano e como tal, descendente de africanos e europeus. Não era negro mas também não era branco. Era um “light skin” como os americanos dizem. Isso é importante de se registar se se tiver em conta que o seu aspecto era atraente aos negros americanos que tinham interiorizado o sistema de castas. Também é relevante realçar que, apesar de a grande maioria dos seus seguidores terem sido oriundos dos guetos, onde a segregação racial e a miséria imperavam, o que ele defendia não era uma filosofia africana nacionalista ou mesmo pregava qualquer tipo de doutrina baseada no orgulho de ser africano.
Daddy Grace apelou antes a uma satisfação mais imediata… o estado de euforia, algo que preencheu o vazio emocional dos seus seguidores e lhes permitiu fugir à realidade de uma vida monótona e sem esperança. Auto intitulou-se Bispo e levou os seus fiéis a acreditarem que podia curar doenças e ressuscitar pessoas. Anunciou que era a “Graça do Mundo” e que só ele tinha o poder divino de lhes lavar os pecados… É alias famosa a frase que diz “Daddy Grace has given God a vacation. If you sin against God, Grace can save you, but if you sin against Grace, God can't save you."(!!!)
Apesar de o sucesso de Sweet Daddy Grace se ter apoiado nas necessidades emocionais dos seus seguidores, na ilusão de os encher de “Graça”, a religião, para ele, era baseada na sua própria pessoa. Por isso investiu na sua própria imagem tendo mesmo cultivado um lado excêntrico. Uns dizem que usava um bigode verde, outros duvidam, mas o que é correcto é que a determinada altura usava casacos verdes e púrpura (lembrem-se do ambiente que havia inicio do filme Malcom X e não vai parecer tão estranho) e pintava as unhas (enormes) de azul, vermelho e branco, o que para os fiéis não era mais do que uma prova da sua santidade, uma vez que a bíblia fala de um profeta com cornos crescendo-lhe nas mãos.
Sweet Daddy foi mais longe… criou o sabonete “Daddy Grace” que limpava o corpo, reduzia a gordura ou curava, de acordo com a necessidade de quem usava. Lançou a “Grace Magazine” que quando colocada no peito de uma pessoa que sofria de gripe ou tuberculose, curava. Lançou outros produtos "DG" como café, chá, brilhantina, pó de arroz, biscoitos, etc. Conseguiu implementar uma venda de sucesso com produtos de fé (bandeiras, uniformes elaborados, espadas, bastões de peregrinos, emblemas).
(continua na próxima semana, em 1 ou 2 posts e no fim ponho a bibliografia)

Sweet Daddy Grace - I

Hoje (e em futuros posts) vou tentar contar a história e as muitas estórias de Marcelino Manoel da Graça. Um homem que nasceu nestas ilhas, emigrou para os Estados Unidos e aí criou o seu “American Dream”. Uma figura fantástica!
Charles Manoel Grace, mais conhecido por “Sweet Daddy Grace”, nasceu a 25 de Janeiro de 1881 [1] na ilha Brava. Em 1903 [2] mudou-se, juntamente com a família, para New Bedford, nos Estados Unidos da América, onde trabalhou como merceeiro, vendedor e cozinheiro nos caminhos-de-ferro antes de, em 1919 (mais uma vez, as datas variam), ter fundado o culto/seita chamado “United House of Prayer for All People”. Na América, pouco sabem sobre as suas origens, como muitos líderes religiosos negros da época, Daddy Grace, preferiu manter o passado em águas turvas. Certo é que em 1960, quando faleceu, era um dos negros mais ricos e poderosos da América, dono (só para dar alguns exemplos) de uma mansão de 85 quartos em Los Angeles e de uma frota de Cadillac’s; criador e detentor dos lucros de uma linha de produtos “Daddy Grace” que iam desde cafés, chás, sabonetes, cremes, etc. e líder espiritual, conselheiro e “pai” de cinco milhões e meio de fiéis (dados da própria Igreja). Apesar dos muitos críticos que diziam que ele não passava de uma fraude colossal, no período entre 1940 e 1960, Sweet Daddy foi uma figura de proa entre os negros americanos… um chefe religioso, capaz de arrastar multidões eufóricas e movimentar influencias consideráveis.
O estilo Sweet Daddy foi grandemente influenciado pelos pastores do “sul profundo” da América, que baseavam os seus cultos em ritos pentecostais (do tipo IURD). É interessante de se notar que o apelo “doce” de Daddy Grace não tocou os caboverdeanos-americanos. Com efeito, devia parecer muito estranho à comunidade das ilhas na altura, conhecida por ser tradicionalmente Católica e adversa a cultos religiosos, a maneira evangelista de pregar, baseado na experiência Afro-Americana e a aparência “flamboyante” de Daddy. Mas foi justamente esse estilo e aparência que foi apelativo aos Afro-Americanos.
(continua...)
[1] Outras datas são indicadas nos documentos on line que consultei. Normalmente abrangem os anos 1880 a 1884.
[2] Também aqui as datas variam, havendo documentos que indicam 1900 e outros que dizem início de 1900.

15.6.06

Catchorrona e La Llorona

A primeira vez que ouvi falar de Catchorrona foi pela boca de um Santantonense. O Senhor Maurício, homem nascido e criado lá na “Mon pa Trás”, contou-me como foi que numa madrugada deu de caras com uma enorme Catchorrona. Disse-me que tudo aconteceu depois de um baile, para as bandas do Paúl, quando ele, o irmão e o primo faziam a pé o caminho de casa. No meio das palhaçarias de juventude, ele, Maurício, deu-se conta de um enorme vulto cabeludo debruçado numas pedras na “órela” de mar. Quando percebeu que era uma “Catchorrona” por pouco não cuspiu o coração… Felizmente teve o sangue frio de agir em conformidade, perante uma assombração dessa natureza. Sem dizer nada aos companheiros, incentivou-os a cantarem o resto do percurso enquanto que lhes desviava a atenção do local onde a bicha estava. Chegaram a casa inteiros, mesmo porque ele fez questão de não tornar olhar a Catchorrona pelo que ela também não lhes ligou, ocupada que estava a lavar os meninos “trôd”. Se bem me lembro, a versão do Senhor Maurício era que em vida, a Catchorrona tinha sido uma mulher muito bonita e leviana, pelo que foi amaldiçoada com a praga de não encontrar paz eterna enquanto os meninos que tinha abortado não tivessem vingado. Ela tinha particular gosto pelas horas minguadas, aproveitando as águas da rebentação para lavar as crianças e as suas próprias feridas. Foi somente na manhã seguinte, com o sol crã, que ele contou da Carchorrana ao irmão, pois o melhor a fazer quando se cruza com essa maldição é ignora-la, desviando o espírito para sentimentos alegres ou ela encontrará o caminho até á pessoa que a viu, através da tristeza e do medo.
(…)
Uns tempos depois ofereceram-me o “Women Who Run With the Wolves: Myths & Stories About the Wild Woman Archetype” de Clarissa Pinkola Estes (um livro recomendado tanto a "mulheres que correm com os lobos como aos homens que se atrevem a correr com as mulheres que correm com os lobos”) e foi então que fiz uma descoberta interessante… A estória da Catchorrona também existe na América Latina. São tão similares as versões, que chega a ser impressionante. No México, para alem de fazer parte do folclore nacional, ela tem a aparência de uma mulher normal e é (pré)sentida perto de lagos, rios ou lugares ermos. O nome dela é “La Llorona” (a chorona). http://www.lallorona.com/La_index.html é um site, de entre muitos que encontrei na net, que lhe é dedicado. As conclusões e investigações ficam ao vosso critério. Às vezes o que pensamos ser muito nosso, muito nacional… não é!

11.5.06

"Storia de dôz cmade de Sã Ninclau"

Un veiz, diazá, tinha dôz cmáde viúva que tá vivê na cômp. Tud dia, quêl cmáde máz nôv táva bá vizitá kel ôte e êz tá fala “só” na vida d’zente d’sês zona. Ben cuntecê que ben parcê un violador lá pa kez banda ond ez tá môrá. Quez dôz cmáde fca transtornude, pamôd ez tinha med d’kel hom ben bafasse ez tambén. Unton, côme êz tá vivê pert d’cumpanher, ez cumbiná un hora, kê tud dia, quand kel cmáde máz nôv táva saì de sê caza, zá kel ôte cmáde táva na zanela ta guítal ta ben.
Durant un semana tud corrê pa medjor até c’un dia… quond quel cmád máz nôv zpanca porta de sê caza e el táva pront pa travessá sê horta, el dá de cara cum moç nôv, que nunca el tinha oiod na quez banda e el descunfía! Quel ote cmáde, que tinha bôd pa janela, juztin kel hora, el tive temp só d´ôiá sê cmád ta ser bafôd pa ez hom na mei sê horta e dezaparcê de sê vizta.
Lôg, el pô bóca na grite!

Oh vzins! Bzôt zdam, bzôt zdam! Ê nha cmád, ál pêgá nhá cmadinha… oh nhá má! Oh scorro! É quel hom, que ta pêga amdjer… ál pêga nha cmád! Oh vzins bzôt zdam! Oh scorro!

Lôg kel hora, somá un data d’ zente, tud éz tá corrê ondé caza de quel cmad maz nôv, má zá quel moç tinha smide na mund tá bá. Êz otcha quel cmadinha, cuitadinha, que sêz sainha sbid té na cabéça, detôd na tchõ de sê horta, que boca na guiza… Êz consolal, êz compol sêz sete sainha, êz arguil de quel tchon d’horta moiôd e êz leval pa caza d’quel ôte cmád, que já tava somôde na porta de brôçe aberte e cara moiôd de de tchore ta perguntá…

- Óh nha cmadinha… óh nha cmadinha! Mode quê bocê câ saí na hora cert? Se nê mi ta bem pa zanela guíta nhô Djon d’Bia… el tá bafá bocê! Mod quê bocê câ grita nha cmád?

Quel ôte cmád, inda transturnôd de sê vida raspondê…

- Primêr ‘n quiz sabê d’sêz intençõez… - e el pô ta tchora ôte vez!

(Não sei se o sotaque foi escrito da forma mais certa, mas achei a "storia" muito engraçada quando a Matilde a contou.)