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17.4.08

O dia 29 de Abril de 1858 e as Villas de Mindello e Bissau

Conforme o prometido e porque são hoje duas cidades referência para mim - numa nasci e noutra vivi - ficam mais estes dois Decretos de 29 de Abril de 1858, que elevaram à categoria de Villas as povoações de Bissau, capital da Guiné, e Mindello, na ilha de São Vicente.
Na Wiki há uma página sobre o Desembarque no Mindelo que é um bom ponto de partida para mais pesquisas sobre o assunto... e já agora, o tal "Augusto Avô" referido no decreto "Mindello" é o Rei D. Pedro, o IV de Portugal e I Imperador do Brasil.

No entanto "Bolama foi elevada à categoria de cidade em 1913 e foi a capital da antiga Guiné Portuguesa até 1941. Em 1942 a capital muda de Bolama para Bissau, que já então era, de facto, a “capital económica” da Guiné." Citação (e síntese da história da Guiné-Bissau) aqui.

15.4.08

A Cidade da Praia, a Abolição da Escravatura e o dia 29 de Abril de 1858

... e porque nos próximos dias muito se vai falar muito do dia 29 de Abril de 1858, dos 150 anos desta Cidade e dos factos históricos que lhe deram origem, queria chamar a atenção para outros assuntos, ligados ao mesmo dia, que talvez não sejam tão conhecidos.

A data da passagem da Villa da Praia a Cidade estará sempre ligada um outro marco importante… o dia em que "o estado de escravidão (ficou) inteiramente abolido, em todas as Províncias Portuguezas do Ultramar, sem excepção alguma" ainda que a entrada em vigor estivesse prevista para o "dia em que se (completassem) vinte annos, contados da data (do) Decreto" ou seja, em 29 de Abril de 1878. Assinaram o Rei e o Visconde de Sá da Bandeira. Mas qual a razão de uma vacatio legis de vinte anos? Os custos para a Fazenda Pública. É que, conforme se pode ler no documento, passados vinte anos, o numero de escravos ter-se-ia reduzido de tal forma, que as indemnizações a serem pagas aos legítimos senhores poderiam ser "satisfeitas com uma quantia moderada(!)".
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O dia 29 de Abril de 1858 teve outros acontecimentos que, a meu ver, são interessantes... duas povoações subiram à categoria de Villa - Bissau e Mindelo - e D. Pedro V, o Rei que assinou esses mesmos os decretos, casou-se, ainda que por procuração... mas isso já é matéria para o próximo post.
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Para ler o documento da "abolição" na íntegra clicar nas imagens que ilustram o post. Um pequeno resumo sobre o processo em Portugal aqui e em Slavery - a Time Line estão as datas mais marcantes relativas à abolição da escravatura na Europa e América. Os meus agradecimentos ao Prof. GC de DT por ter facultado os decretos que mencionei e que também podem ser consultados no nosso Arquivo Histórico.

7.12.07

A Grande Viagem

"Tem uma negona véia cantora lá da ilha de Cabo Verde, na África, que eu sou apaixonado! O nome dela é Cesaria Évora! A mulher canta no dialeto Crioulo, um português que não é português mas acaba sendo português, sabe? O mais estranho é que tu ouve e jura que tá sabendo o que ela tá cantando, quando não tá sabendo porra nenhuma. Eu até copiei um texto na internet escrito em crioulo, olha que viagem: "Kamaradas ku jintis ku na sukutanu, bô tardi. Bu kontinua na sukuta Radio Difusão Nacional di Republika di Giné-Bissau. Na studiu no tene uma ora mas trinta minutu. No na tchoma bos atenson pa prezentason di no noba di uma ora i trinta minutu di tardi na kriolu Mil novisentus oitenta i oitu anu di ristruturason i ifisiensia, tona kunpu kusa ku bali. No na kontinua ku aparelhu di stadu kunumeru di djintis ciu ku ka prisisadu, ku ta aumenta grava pesu di gastu ku salariu, ki ta punu no ka ta bin pudi paga salariu justu pas kilis ki na bardadi e ta tarbaja e ta pruduzi. Es i konbersa di General di Divison Jon Bernardu Vieira, Sekretariu Geral di PAIGC i Prezidenti di Konselhu di Stadu."
Agora, imagina isso cantado...baixa uma músia dela: "Nutridinha".
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Que grande viagem... eh eh! Está em: As Mulatas de Jesus Cristo.

15.10.07

Guiné... Do Séc. XIII a princípios do Séc. XX

O texto e as ilustrações que seguem são a primeira parte de um post que se encontra no blog Guiné, Ir e Voltar.

"No século XIII, chegam a esta região da costa ocidental de África os povos naulu e landurna, na sequência do declínio do império do Ghana. É já no século XIV que esta zona passa a integrar o vasto império do Mali, vindo os primeiros navegadores portugueses a estabelecer contacto com ela em 1446-47.Inicia-se então um longo processo de implantação do monopólio comercial na região, incluindo ouro e escravos, o qual vai ser, durante muito tempo, frequentemente e sobretudo contestado por corsários e traficantes franceses, holandeses e ingleses. Em 1588 os portugueses fundam, junto à costa, em Cacheu, a primeira povoação criada de raiz, a qual será sede dos capitães-mores, nomeados pelo rei de Portugal, embora sob jurisdição de Cabo Verde. Seguir-se-á a criação da localidade de Geba, bem no interior do continente. Em 1642, os portugueses fundam Farim e Ziguinchor, a partir da deslocação de habitantes de Geba, dando início a uma ocupação das margens dos rios Casamança, Cacheu, Geba e Buba, a qual se torna efectiva em 1700, passando então a zona a ser designada por Rios da Guiné. Amura, século XIV (Travassos Valdez, África Ocidental).
Entre 1753 e 1775 inicia-se a construção da fortaleza de Bissau, a partir do trabalho de cabo-verdianos vindos especialmente das Ilhas de Cabo Verde para o efeito. Em 1800 a Inglaterra começa a fazer sentir a sua influência na Guiné, iniciando a sua reivindicação pela tutela da ilha de Bolama, arquipélago dos Bijagós, Buba e todo o litoral em frente. Com a abolição da escravatura no século XIX, sobrevém uma crise económica que tem como consequência o início da produção de novas culturas, como a mancarra (amendoim) e a borracha. Em 1870, por arbitragem do presidente dos EUA, Ulysses Grant, a Inglaterra desiste das suas pretensões sobre Bolama e zonas adjacentes. Com a vitória militar dos felupes de Djufunco, em 1879, no que ficou a ser conhecido na história como o “desastre de Bolol”, onde os militares portugueses sofreram a mais dura derrota no confronto com as populações locais, a coroa portuguesa decide a separação administrativa de Cabo Verde e a criação da “Província da Guiné Portuguesa”, com capital em Bolama. Numa tentativa de afirmação da soberania portuguesa, verifica-se então o início de acções militares punitivas contra os papeis em Bissau e no Biombo (1882-84), os balantas em Nhacra (1882-84), os manjacos em Caió (1883) e os beafadas em Djabadá (1882). A estratégia colonial passa igualmente por uma segunda vertente: o apoio sistemático com tropas e armamento a uma das partes dos conflitos indígenas. É o que se passa em 1881-82, com o apoio aos fulas-pretos do Forreá na sua luta com os fulas-forros. Os focos de contestação e a rebelião permanente e consequente dos diversos grupos étnicos fez com que o poder colonial se limitasse ao controlo de algumas praças e presídios (Bissau, Bolama, Cacheu Farim e Geba). Paralelamente, começa a instalação de propriedade de colonos ou de luso-africanos, em várias explorações agrícolas de grande dimensão (pontas) inicialmente dedicadas ao cultivo da mancarra. Em Maio de 1886, são delimitadas as fronteiras entre a Guiné Portuguesa e a África Ocidental Francesa, passando a região de Casamança para o controlo da França, por troca com a região de Quitafine (Cacine), no sul do país. A população desencadeia a partir do final do século XIX uma decidida vaga insurreccional em Oio (1897 e 1902), no Chão dos Felupes (1905), Badora e Cuor (1907-08) e a Guerra de Bissau (1908) que juntou Papeis e Balantas do Cumeré.
Fotografia em cima: Estatua de Ulisses Grant em Bafatá.
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O resumo continua... A meio desta página do Tantas Vidas está a parte que diz respeito à Historia da Guiné-Bissau no Séc. XX

11.10.07

A proposito da Guiné... Didinho.Org

Tenho evitado falar da Guiné porque penso que as memórias que tenho dela são idealizadas e retorcidas. Daí que não queira traduzir nenhum tipo de saudade passadista. Posso dizer, apesar de todas as vicissitudes, que a minha infância foi mágica e feliz (e um dia escreverei sobre isso). Claro que, generalizando, todos pensam o mesmo da meninice. Infelizmente a Guiné de hoje apresenta um cenário triste e um futuro sombrio. E, tenho que o expressar, acho que os muitos caboverdeanos que lá nasceram, cresceram e se fizeram adultos, a abandonaram. É a própria História a confirmar essa premissa quando, em 1980, com o Golpe de Estado, o C do “Dôs Corpu um Corçon” se liberta, com um grande alívio, do G. Em Cabo Verde, às vezes, fico com a sensação que a única herança que restou, para quem lá viveu, são as comidas típicas como o tchabéu, o caldo de mancarra ou outras, que se degustam, sem remorso ou amargo de boca, em grandes almoçaradas. Nessas ocasiões há o ritual de recordar a infância e vida na altura, com um saudosismo quase idiota, sendo a presente conjuntura, a maior parte das vezes, higienicamente ignorada. Raros são os que sequer lá voltaram. Aquele país deu muito aos caboverdeanos, incluindo uma Independência sem sofrimentos, sem viúvas e/ou órfãos, sem traumas e mutilados. Muitos dirão que a vida continua. É verdade, mas a mim, confesso, faz-me falta esse pedaço, o lugar da minha mininéça. Imagino o que não faltará aos outros...
Há muitos sites com o objectivo de divulgar o que acontece, presentemente, na Guiné-Bissau e Didinho.Org é um deles. A descobrir porque as palavras e as ideias ainda podem ajudar a mudar o mundo. Obs: Fotografia de Hugo Delgado

10.9.07

Bijagós - Memórias de um pai

Após a separação dos meus pais, aí por volta dos meus dez anos, passei a fazer parte do espólio do meu velho. Ele, aos 33 anos, com o fim do casamento, reinventara-se marinheiro errante e pescador, desventurado que estava com o início da guerra que o impedia do de circular pelas estradas da Guiné. Já lhe estava na matriz de ilhéu o destino de ser um deambulante incansável e, na altura, a pretexto de uma fuga imaginária, transferiu a sua sanha de aventuras para a descoberta um arquipélago desconhecido, onde poderia livremente saltar de uma ilha para outra. Um lugar onde as lágrimas que foi vertendo, certamente a olhar para lá das ilhas de Caravela e de Unhocomo, se foram diluindo na mistura baça resultante do encontro das águas do Rio Geba e do Atlântico. O horizonte longínquo que em algumas ocasiões pairava no seu olhar perdido foi-me decifrado numa manhã solarenga, de mar prateado, com vento de través, no canal entre as ilhas de Uno e Orango, quando murmurou, agarrado à cana do leme que aquela canoa, a sua “Ave do Paraíso” como carinhosamente a apelidava, certamente que aguentaria ir até à ilha de Santiago em Cabo Verde. Mal sabíamos os dois que, quase 40 anos depois, milhares de africanos, a fugir da miséria e instabilidade, desafiariam o destino e as intempéries nessas frágeis embarcações para chegarem tanto às ilhas de Canárias como às ilhas creolas.
O desterro voluntário do velho, por longos períodos, tinha sido a encantadora ilha de Sogá no arquipélago dos Bijagós. E eu, orgulhosamente só em Bissau. Os meus outros dois irmãos mais novos, o Rui e o Djoi, tinham acabado por regressar à protecção e segurança do lar materno. Lá ia aguentando menos-mal a casa da madrasta onde nunca me integrei.
Tornei-me também, junto de outros companheiros de mais idade do Bissau Velho um aventureiro incorrigível de caça, dos banhos e pesca de bentaninhas e bagres nas bolanhas próximas da segunda ponte, lá para os lados de Bulola. Nadávamos em grande algazarra e descontraidamente junto de grandes saltões, de sapos, de lagartixas, de garças, de raras linguanas e de cobras que por vezes se entremeavam, de cabeça erguida, no nosso meio à procura de sossego ou da outra margem, sem contar com os crocodilos que, sempre que alguém gritava lagarto saltávamos em debandada para fora da água. Apesar de alguns terem dito que lhes viam, ali na segunda ponte, nunca os vi. Inventávamos os saltos mais arrojados para a água em especial o “arratchacoco” que repetíamos vezes sem conta em cima dos mais incautos.
Outras vezes, num grupo mais pequeno embarcávamos na lancha “Barreiro” ou no pequeno “Gouveia 16” e íamos para o ilhéu do Rei com os operários da fábrica de óleo de amendoim. Esta aventura era somente para os mais destemidos e que aguentavam fome. Ali não havia árvores de fruto ou quem se condoesse connosco. Voltávamos cedo e durante dias sentíamos o odor do óleo de mancarra para onde fossemos. Por vezes, caminhávamos bem mais longe. Até vermos Cumeré do outro lado de um pequeno rio lodoso, o Impernal. Outras vezes ainda caminhávamos alegres, nus ou semi nus, com a roupa enrodilhada na cabeça, cana de pesca no ombro e a indispensável fisga ao pescoço, sempre em bicha de pirilau, através dos diques das bolanhas e canaviais, através de grandes extensões de terra alagada, até sairmos atrás do quartel de Santa Luzia e entrarmos na Granja do Pessubé. Aqui, num jogo de esconde-esconde com os guardas, surripiávamos fruta e nos banhávamos, se possível, no tanque que apelidávamos de piscina. Depois, ao anoitecer, era o regresso ao Bissau Velho sem sapatos ou algumas peças de roupa, arrependidos e com promessas repetidas de que nunca mais faríamos a pirraça de faltar às aulas. A entrada no Bissau Velho despertava em todos o receio das cintadas ou da palmatória de cinco buracos. Dividíamos no Zé da Amura para não dar nas vistas.
Pai fora e madrasta ocupada com afazeres profissionais. Vida boa. O que mais poderia almejar naquela idade? A vontade de continuar livre foi tanta que após um bom final de exame do segundo grau disse orgulhoso a uma vizinha da minha Mãe, perante um olhar dela de comiseração e surpresa, que não tencionava mais voltar à escola porque o meu Pai tinha dito que para ser pescador não era preciso mais que a quarta classe. Ainda acabei, por alguns meses, como aprendiz de mecânico, nas oficinas navais.
Mas antes, num certo dia, numa das inúmeras passagens pelo porto do Pidjiguiti, após as aulas, soube que a canoa a motor de cerca de nove metros a flutuar desajeitadamente a uns metros, para além da cabeça de ponte, era do meu velho e que se prestava a sair com a vazante, de regresso aos Bijagós. Não hesitei e arranjei forma de embarcar. Ninguém mais conseguiu de lá me tirar por mais argumentos que me fossem apresentados.
Época das chuvas, com uma brisa irregular do Sudoeste, horizonte escuro lá para os lados de Tite e de Enxudé a avisar da aproximação de um tornado e mar algo encapelado lá fomos, meia força avante, apontando, num fim de tarde triste, para a embocadura desse largo rio de onde por vezes não se via a outra margem.
Uma hora depois, resguardado, por uma manta fortuita do arrais Nhô André, compadre do meu velho, fascinou-me ver a água fosforescente a deslizar para trás, as luzes de Bissau a desaparecerem e um farol, o Pedro Álvares, muito ao longe pela proa, por vezes, a piscar. O bater compassado do esporão da canoa nhôminca a cortar as ondas altas, as inclinações laterais e a chuva miudinha pouco me amedrontaram. Sentia-me o herói de uma aventura da banda desenhada do Príncipe Perfeito e do Simbad.
Mesmo assim, lá para as nove, já com a lua a iluminar o rastro deixado pela canoa, após ter tentado imitar os outros, mijei em equilíbrio precário para sotavento, mastiguei a custo um pão duro e bebi, por um dos orifícios, quase meia lata de leite condensado que me deram. Adormeci depois todo enrolado e a tiritar em cima de uma prancha, logo a seguir à arca de gelo.
Uma avaria inesperada no único motor, ao largo da ilhas das Galinhas, faria com que continuássemos, a custo por causa da enchente, à vela e a remos até ao nascer do sol. Lá pelas nove, já com a força da maré de vazante, desembarcamos, perante a fuga de mais de uma dezena de macacos e debandada ocasional dos habituais caqres, numa praia da lindíssima ilha de Rubane. O meu primeiro desembarque de muitas outras paragens pela maioria das mais de 60 ilhas e ilhotas. Achei que aquela paisagem deslumbrante seria a tradução do que deveria ser o paraíso. E nunca me arrependi desse juízo. A viagem continuou ainda para uma outra ilha (Canhabaque) algumas milhas adiante, para recolher o meu Pai, que um dia quase que se tornava um nobre desse pequeno reino dos Bijagós. Muito certamente o primeiro espaço da África negra a sofrer um bombardeamento aéreo na guerra dos Bijagós de Canhabaque contra os poderes coloniais por volta da década de 20 do século passado. Só seriam considerados completamente pacificados após sucessivas campanhas que terminaram em 1936.
Mas, depois contar-te-ei com mais detalhes e também do meu encontro com um pai assustado até dizer chega, por ver a loucura que eu tinha feito e naquelas condições de tempo. O meu receio de poder levar uma valente sova quando ele me visse e as ilhas que percorremos, numa breve semana, até retornar, a toque de caixa, a bordo do lento e estafado “Ametite”, à enfadonha turma da quarta classe da Escola Oliveira Salazar, em Bissau. Poucos dos colegas acreditaram que tinha feito tamanha proeza por ser dos mais novos, franzino e não passar de um brancucinho, que apesar de brigador e rápido, jogava desajeitadamente à bola e que até ia para a escola de tchacual. Ainda hoje, julgo que partilho da mesma praga que tombou sobre Cassandra.
Até aos meus 21 anos nunca mais lá deixei de ir sempre que podia. Aprendi com vários arrais, sem cartas e ou outros instrumentos, a não ser a bússola, a navegar no arquipélago, aproveitando as estrelas à noite e o pulsar regular das marés, por entre aquelas ilhas e canais, ao ponto de, aos 13 anos, levar o “LP3” de Bissau a Bubaque e regresso, sem supervisão do arrais, sem encalhar e demorar mais tempo. Surpreendia-me sempre o Arrais Avião, cego de um olho, que me instruía assim “segue paralelo à Sogá, passa o canal de Bubaque, até veres a ponta mais afastada de Rubane, aproas à ponta e deixas a popa na extremidade norte de Sogá até estares dentro do canal. Atenção ao descaimento provocado pela enchente e na vazante à malhadeira na ponta de Bubaque à entrada do canal”. Um autêntico desafio seguir estas instruções na roda do leme. Umas vezes de canoa a remo ou à vela ou outras vezes no barco de pesca e navios de passageiros fui conhecendo o último paraíso desta costa africana que até há pouco tempo ainda detinha resquícios de uma sociedade matriarcal.
O site dar-te-á o alumbramento do que pude ver pela primeira vez. O encanto das ilhas, suas gentes, flora e fauna nunca se perderam dos meus olhos apesar de ter percorrido mais de meio mundo e visitado lugares exóticos. Vê e diz-me se não é mesmo um paraíso o que descobri ainda na infância
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31.8.07

Curtas, Ideias e Neuras

Regressei ao trabalho, silenciosamente, desde o início da semana.
Ferias na Praia em pleno mês de Agosto… calor, falta de água, falta de luz e sei lá mais o quê. Já foi tudo dito. Para contrabalançar ficou a observação do Guilherme que “Praça d’ Praia (Cruz do Papa) é más sáb! Ten baloiço, ten scorrega. Praça de Soncent ten só tanque! …e baziu”, rematou a Andreia sabiamente. Eu bem que desconfiava... eh eh!
Mudando de assunto…
Ocorreu-me que poderia contar o porquê do apelido (e do nome do blog) Amante da Rosa. É uma estória engraçada. O meu pai também me ofereceu um texto interessante sobre as memórias dele das ilhas dos Bijagós (Guiné Bissau). Falta somente formatar e acrescentar imagens. Outras ideias surgiram e apagaram-se com a mesma velocidade.
Entretanto…
Acho que todos os que têm um blog já sentiram, alguma vez, aquela vontade de deletar tudo muito pura simplesmente (e pronto e mais nada!). Desde ontem que ando assim. Motivos? Mil e um. Falta de inspiração, porque chove e a cidade está caótica, porque é tempo de despedidas, porque... porque... Tenho é uma graça muito grande de explodir no ar, assim como no poema:

"Era Verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar."
Eugénio de Andrade
Obs: Fotografia daqui.

29.5.07

Um Post e uma Tese de Doutoramento

Há um dia ou dois que andava meio desconfiada com o numero, cada vez maior, de visitantes aqui no blog. Isto sempre foi meio intimista (pouco conhecido - é mais correcto) e de repente passo a ter mais visitantes num dia do que numa semana inteira. 20, 30 e 40 visitantes! Wow! Desvendei o mistério. Os novos visitantes vêm todos do blogueforanadaevaotres que fez um post sobre o meu post. É engraçado e espero que seja uma descoberta agradável para os visitantes que por cá passem pela primeira vez.
Fiquei mesmo foi com muita vontade de ler a tese de Doutoramento em História Contemporânea - Guerra colonial 'versus' guerra de libertação: o caso da Guiné-Bissau - do Professor Doutor Leopoldo Amado. Quem sabe um dia... o lançamento... aqui em Cabo Verde, uh?

8.5.07

Blogueforanada - sem palavras.

Muito ouvimos nós, a geração das Flores da Revolução de Bissau, falar da luta da libertação nacional que decorreu nas matas da Guiné e dos nossos bravos combatentes e libertadores da pátria amada que lutaram corajosamente contra os tugas colonizadores (assim era a linguagem, não há enganos). Enfim... Jovens cheios de ideais nobres que combateram contra outros jovens, alguns renitentes e outros "impregnados ainda dos ideais de um império moribundo" como alguém me disse.
A parte dos combates foi sempre muito abstracta e idealizada na minha mente. Uma de mistura de memórias de criança com imagens do filme "Mortu Nega" e uns salpicos daquelas elipses convenientemente cinematográficas, onde se leva o espectador directamente para o que interessa, sendo dispensado de ver a parte chata e sobretudo, sem aflorar a tragédia que está por detrás da rotina dos acontecimentos. Gostaria de poder acreditar que, da minha parte, foi uma negação mascarada de ingenuidade.
Mas... e o concreto? O sangue, os massacres de populações civis indefesas, os fuzilamentos, as luta corpo a corpo? As situações mórbidas que poucos têm coragem de perguntar e que, muitos dos que levaram a cabo essas acções, não gostariam de se lembrar?
Há blogs engraçados, curiosos, originais e há blogs que me provocam, literalmente, uma reacção orgânica qualquer que não consigo explicar. O blogueforanadaevaotres editado por Luís Graça é um deles. Narrado quase sempre na primeira pessoa, relata o historial da guerra na Guiné e como foi vivido pelos portugueses. Está tudo lá! São descrições, factos e memórias impressionantes. Conforme ia lendo só me ocorria uma palavra - Catarse.
Não se consegue ler tudo de uma vez e o que se vai descobrindo arrepia. Arrepia a estória de Uloma, o comando africano “caçador de cabeças”. Sobressalta o alegado número de fuzilados que o historiador Leopoldo Amado avança e surpreende saber que o Supervisor da 1ª. Companhia de Comandos Africanos e Director de Instrução de Cursos de Comandos em Fá Mandinga, que se chamava Octávio Manuel Barbosa Henriques, nasceu em 18 de Novembro de 1938, na Freguesia de Nª. Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo.
É o outro lado e há muito a descobrir...
Já agora... Recomendo a visita a esta página, também no mesmo blog, que tem informações interessantes sobre a força expedicionária portuguesa em que passou por São Vicente durante a II Guerra mundial.

14.11.06

O despertar de uma sesta, no fim do mundo dos anos 50, visto num quadro de Paulo Rego

Acordou alagada da sesta… maldita humidade. Abriu os olhos ainda tempo de ver o Irã que deslizava, entre uma trave e outra, no tecto do quarto, para desaparecer no escuro da telha enegrecida. Em que buraco se metia? Lembrou-se…
“- Matem a cobra!
- Não Senhora…
- Mata a cobra… Anselmo? Há uma cobra no tecto da casa!
- Senhora é o guardião… não.
- Guardião…?
- Sim Senhora, guarda a casa.
- Anselmo… É uma cobra branca.
- Não… É Irã Cego… é poderoso e vai protege-la a si e aos meninos.”
A humidade… nem sabia se estava acordada. Nunca a tinha visto assim… Gorda e branca. Ela… O Guardião. O Irã Cego. A cobra albina que vivia no telhado da casa. Foi regressando devagar daquela letargia do sono. Como foi que vim parar neste fim de mundo? O mato, os bichos, o raio das cobras e o bucho cheio ano sim ano… Não, nada de lástimas! Calor… parece que o diabo se entretêm a chupar ar. Ai Guine! Ai Mindelo... Irã Cego… as minhas crianças aqui em baixo deste tecto. Ninguém num raio de quilómetros e ele que se mete no mato dias a fio. Deve estar nalguma tabanka. Um banho... preciso de um banho. Mãe… e tu que nunca mais chegas. O Nhelas lá para o Sul sem conseguir fugir do contrato da roça... O Nando embarcado sabe-se lá onde. Os meus irmãos espalhados em tudo o que é fim de mundo. A onça… é preciso ver se os meninos estão cá dentro… a onça que quase leva o Canelito. Bendito cachorro... e ele ainda a gritar pelo pobre do bicho... sozinho em frente da casa. Isto é o fim do mundo. Irã… que me vale Deus aqui. Irã Cego! O guardião da casa que engole os ovos das galinhas é quem nos protege. E a minha terra lá tão longe. O vento… que falta faz o vento Mãe. Banho… aquele banho semanal que nos davas com a água que trazias de casa d’inglês. Anselmo… é preciso ir ao poço…. A onça que deve andar á caça… E ele que não chega metido nesse mato sem ninguém. Como foi… ah… Dava tudo para sentir aquele cheiro de colónia inglesa do Nana... Cheiro nauseabundo com que ele chega… Meu Nana… como fui acabar tudo com ele. Lembranças não levam a nada e o que foi foi… deve ser do calor, estás a enlouquecer Vinda. Valha-me a cobra para nos proteger e…
- Dona Vinda…? - o chamado urgente sacudiu-a
- Sim Anselmo...
- É o Irã... Irã Cego fugiu para o mato.
- …
- Senhora… não é bom.

23.8.06

Estória inspirada num Quadro de Paula Rego

…e foi então, depois do último esgar, daquele último esticão, que o olhar de raiva se extinguiu e ele voltou a ser o menino de oito anos. Ela fechou-lhe os olhos, limpou-lhe a baba que ainda escorria pelo canto da boca, ajeitou-lhe a cabeça nos lençóis empapados, desamarrou-lhe os pulsos e os tornozelos e permitiu-se suspirar. Só depois reconheceu nele o filho que acabava de falecer. Estavam os dois sozinhos no quarto, a humidade ou desespero eram tantos que lhe faltaram as forças. Apagou-se silenciosamente. Disse-me que entrou numa espécie limbo em que nada sentia, apenas estava sem saber se era ou não. Foi o barulho arranhando atrás da porta que a fez voltar a si. Os uivos do marido, o latir dos empregados e o silêncio das crianças… as crianças, foi esse o motivo que a fez levantar naquela manhã. Deu a volta à chave. Sentiu uma mudez tão grande que não gritou, não uivou, sequer ganiu, abriu a porta, ignorou todos e percorreu em tropeções o corredor escuro. Luz, desejava luz. Parou à entrada do quintal, sentiu o calor do sol e ante o espanto de todos, deixou-se cair numa de gargalhada de escárnio. Um riso puro de hiena…uma gargalhada louca que se elevou no ar e pairou sobre a casa. Calou-se quando a acudiram e esteve assim, muda, apática até ao fim da tarde. Só tornaram a ouvi-la quando o empregado regressou do mato, trazendo dentro de um saco de farinha a carcaça do bicho que lhe tinha mordido o filho. Disse quem ouviu, que rosnou o mesmo rosnar de cão e só depois conseguiu chorar a dor...

17.8.06

O colo da Senhora

Eu sempre acreditei que o Tio Tuca morreria de velhinho. Tão velhinho que voltaria a ser a criança de 3 anos que um dia se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de onde saiu. Foi-se ainda não tinha 50 anos e teve a morte mais triste que existe... morreu só sem que ninguém desse por isso. Descobriram-no dias depois estendido no chão da sala desarrumada, no apartamento de uma Luanda tão decadente como a vida que teimou em levar. Mal o conheci, mas as recordações que tenho do Tio Tuca têm um sabor doce e amargo ao mesmo tempo. Numa das poucas vezes em que estivemos juntos, teimou comigo em como seria a ultima vez, eu na altura ainda acreditava que ele morreria com cerca de 100 anos disse-lhe "O tio vai morrer de pura velhice e só não tem a vida eterna porque a carne apodrece.... Está condenado a isso desde que se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de água na Guiné." Ele riu-se sem responder. Quando soube que tinha falecido fiquei admirada apesar de saber que teimava em levar a vida como se não houvesse amanhã... luandou, parodiou e bebeu. Não morreu quando lhe extirparam a ulcera e três quartos do estômago, ainda jovem, não morreu numa segunda operação quando, desenganado de vez, o ti’Tio o trouxe quase cadáver para a Praia para se finar junto dos seus, apenas para se vir a descobrir que afinal tinha uma compressa muito bem guardada debaixo do pâncreas. Assim que se pôs bom, rumou de novo a Angola, para junto dos filhos e amigos e da terra que adoptou depois lá ter combatido contra os “carcamanos no Sul e zairenses em Kinfangondo” e continuou a beber. Nunca foi ferido na guerra, mas foi assaltado algumas vezes nos becos e vielas da Luanda que adorava, também não morreu de sova de puta num saguão de hotel de Dakar por pura caturrice, apenas não queria pagar o "capote". Tinha tanta sorte com a porra da vida dele, que pouco importância lhe dava e levou-me a acreditar que estava sempre bem acompanhado. Dizia sempre que ainda não tinha esgotado as suas sete vidas. Que a Senhora do fundo do poço olhava por ele... mas não. Morreu triste, só, o meu Tio Tuca. Hoje, acho que a felicidade que conheceu, sentado no colo Dela, no fundo daquele poço escuro, enquanto esperava que os gritos do pai, da mãe e dos vizinhos amainassem e o fossem buscar, deve ter sido tanta que a vida que ainda tinha a viver pouco lhe importou. Não acho que fossem tendências suicidas, apenas pouco lhe importava. A mãe dele diz que não, que ele foi um bebé que chorou na barriga e que isso é sinal de infelicidade na vida, mas eu continuo a visualizar a estória que me contaram. Que ele devia ter morrido no início dos anos cinquenta, no fundo daquele poço no quintal da casa de Bolama, aos três anos de idade. Que foram buscar um anjinho e viram assomar pelas mãos do Arsénio um menino feliz de sorriso aberto que dizia ter estado sentado no colo de uma senhora... Bendita Senhora! Devias ter morrido bem velhinho tio Tuca… ou será que viveste em dobro?

1.8.06

Flôr da Revolução

Costumo dizer que nada como um bom “sgrovêt” na net para se aprender e descobrir (a minha vénia aos motores de busca… a meu ver, uma das maiores invenções desta era). Gosto de historia e gosto ainda mais de descobrir e saber sobre Cabo Verde. Eu não nasci cá assim como os meus pais. Mas os meus avós são destas ilhas, saíram do Fogo, da Praia e São Vicente no fim da década de quarenta. O meu regresso a casa e ao passado tem sido feito desde 1990, ano em que vim morar para Cabo Verde, e acreditem, não tenho parado de chegar… Eu sou da Guine Bissau, nasci “papel” e aos cinco anos aprendi que era uma flor da nossa revolução. Andei no Jardim Nhima Sanhá onde a professora Júlia me ensinou que os tugas pretos mataram Cabral, para resmunguice do meu avô Lindorff e risota dos meus pais. Ensinaram-me as doidas doidas doidas andam as galinhas ao mesmo tempo que aprendia a desenhar o P, o A, o I, o G e o C. Picotei muito sapo verde e bandeira de Guiné Cabo Verde em papel de lustro. Só comecei a sentir que alguma coisa não estava bem quando, depois do golpe de 1980, me disseram “brumedju ríba bu téra”. Que terra? Foi somente aí que compreendi que afinal éramos caboverdeanos… Eu que comi muito doce Titina Silá, bebi leite Blufo, eu que visitei a Cicer, a Granja e gritava Nhaeee quando os citroen passavam, afinal eu não era de lá! Apesar do esmero da minha educação revolucionária (á medida da Guiné de setenta) conforme os anos foram passando eu fui desconfiando… alguma coisa não batia. Passei a adolescência em Portugal, sempre desenraizada e quando cheguei a Cabo Verde... foi uma descoberta! Havia uma nova revolução, o homem novo dava lugar ao homem democrático ao mesmo tempo que eu me apercebia que havia toda uma história de um povo que existia para lá do ano de 1975… e desde aí não tenho parado de perguntar e perguntar. Afinal há muitas gerações que deixamos de ser descendentes de escravos e da arraia europeia. Tornamo-nos caboverdeanos nas secas, quando as classes compreenderam que não sobreviveriam nestas ilhas perdidas no meio do mar sem entreajuda... e estamos só de passagem, outras gerações virão.

29.5.06

"O Primo Constant" e outras recordações da Guiné

"O primo Constant morreu com os pés de fora da cama, de tão grande que foi. Vomitou, em soluços negros, o fígado liquefeito de alguma maleita misteriosa que ninguém da família soube pôr o nome mas que o jovem médico da tropa portuguesa chamou solenemente, ao fim de uma pequena indagação à sua vida passada, de “resquícios da acção do quinino num fígado combalido pelo consumo exacerbado de álcool”. Mas, para o avô Lindorff, o primo querido não poderia ter morrido do “diagnóstico disparatento desse doutorzinho de merda” e acabou que oficialmente e para os anais da família a razão do seu falecimento se deveu a mandioca crua que tinha ingerido horas antes de começar a bolsar uma gosma negra, qual criança acabada de mamar. Quando depois de meia hora e quatro águas gaseificadas percebeu que o refluxo apenas piorava, meteu-se na station e descondongou de Bafatá até Bissau, onde chegou ao anoitecer, com cor de sobra de baguitch bem pangado, pronto para se acabar de desfazer em suor e postas de sangue coagulado, tão perfeitinhas, que mais parecia que paria sanguessugas pela boca. Acabou-se no catre do Hospital Central, tão fino e mirrado que somente os pés desalmados fora da cama, testemunharam o que era seu a seu dono.
Em mil novecentos e setenta e oito, quando a avó Luzia me contou a “estoria” da morte pela mandioca, na cozinha da casa de Bissau, tentando evitar que eu abarbatasse bocadinhos do tubérculo assassino, com a lucidez dos meus sete anos, perguntei-lhe como podia ele, que comeu coisa branca, morrer vomitando coisa preta. Ela acabou por concluir em voz alta, reflectindo se calhar pela primeira vez no assunto, que o fígado do primo depois de viver anos alagado em bebida, ressecara como uma pedra que estala ao sol quente do meio-dia, iniciando daí uma viagem ao mundo exterior, para ver se cá fora, ainda se poderia afogar em vinho de palma. E a mandioca, perguntei de boca cheia, e a mandioca… e a mandioca… respondeu, e sem concluir a frase, enxotou-me para o quintal, onde ainda levei a boca, um último pedaço criminoso.
Mas agora, escrevendo sobre o assunto, ocorre-me que o vinho palma também é branco, enfim, loucuras da minha gente!"
Escrevi este texto em Março de 2004 e somente há tempos tive oportunidade de o dar a conhecer á minha avó Luzia que não perdoou o facto de eu não me ter esquecido da cena da cozinha... Se ela soubesse como as recordações que tenho da minha infância na Guiné me são queridas… Ainda me lembro da sensação de adormecer na carpete da nossa incrível sala de visitas, pintada a quatro cores, onde imperava a enorme estante de mogno cheia de readers digest dos anos 40 e 50 e de bibelots de ocasião, comprados ou nas visitas a Lisboa ou nos Armazéns do Povo. Num canto, entre a segunda janela e o cesto de revistas brasileiras, ficava a pata de elefante oca que eu, às escondidas, me divertia a calçar. Penduradas nas paredes, as cabeças de gazela empalhadas que o tio Carlos tinha mandado de Angola, muito tristes e carunchosas, com os seus olhos de contas de vidrinho e que ainda assim, velavam o meu sono nas horas quentes da sesta… Também não me esqueço dos sofás, de napa vermelha, muito ao estilo anos 50 e da ventoinha do tecto que era ligada quando havia visitas importantes. Vês avó? Se não me lembrar desses detalhes, então não serei eu…

11.5.06

"Os Almeida de Praia Branca" Ficção e historia

-Porque casamento é honra! – respondeu Prudênce à filha, a menina moça Biazé, durante o ritual diário em que lhe penteava os cabelos num entrançado elaborado, arrematado em cruzamento, no alto da nuca.
- Mas mamã, tanto homem branco em São Nicolau, tanto homem bonito, nariz filado, aqui mesmo na Praia Branca, logo arranjaste com um jalofe? – quixumentou-se Biazé.
- Menina deixe de estoria, seu pai é homem bom e já lhe disse, o casamento é a honra de uma mulher.
- Mas o papá bem que podia ser mais clarinho. Olhe eu por exemplo, cabelo fino sim, muito, como o seu, mas espie, espie só a minha boca. E Nitcha, tem os seus olhos verdes mas mamã cabelo espichadinho como o dela, só o do papá... e não quero nem “mentar” o nariz. – concluiu insolente sob o olhar de amuo da codezinha.
- Biazé! Muita soberba é o vocês tem nesse corpo, vosso pai é um homem sério, sabe honrar a mulher e nunca deixou faltar comida na boca de vocês. E chega de conversa, abuso é que eu vos dou, suas brientas!
Este dialogo foi-me contado, quase tal e qual, pela minha avó Ida, matriarca da família, que no ano dois mil e quatro de Cristo Nossôr, com setenta e cinco anos, comandava quatro gerações entrelaçadas de Almeidas, Limas e Amantes da Rosa, e que só de filhos, netos e bisnetos, sem contar com os que se foram ficando nos sobressaltos do tempo, ascendia a uma trintena. Mána Ida, minha avó, transmitiu-me o que lhe disse a mãe, Nitchinha, minha bisavó, codé de Chencha, minha trisavó, que morreu – altiva, mulher honrada – ignorando sempre o nominha pelo qual era conhecida pelas gentes de Praia Branca.
Essa minha trisavó, Prudência de registo, gostava de ser chamada de Mamã Prudence, era neta de um dito filho de aristocrata Marselhês que aportou em Preguiça no ano de mil oitocentos e cinquenta.Estará sempre envolta em mistério a verdadeira razão que terá levado Fernand Trange, homem feito e mundano, a fixar-se em São Nicolau de Cabo Verde, como representante de uma empresa de navegação quase fantasma e que em trinta anos aportou os seus navios por umas escassas vezes em Preguiça, mesmo porque a baía de São Vicente, à época, era o porto de escala obrigatório da rota do Atlântico. Dizia-se que de vez em quando Fernand deixava escapar palavras como “rebelião familiar” e “desterro” mas dada a maneira como se comportou nos últimos anos de vida, tudo leva a crer que a única certeza sobre a sua origem era o de ser francês, excêntrico e rico.
Uns anos depois de se ter estabelecido, após corrido todo o tipo mulherio da povoação e zonas próximas, contraiu casamento por procuração com Antónia d' Almada, filha da mais fina-flor de Ribeira Brava, que fez deslocar em cortejo penoso de três carroças, uma semana e sete mulas, desde a vila, incrustada entre montes, até ao litoral. Discretamente, continuou a frequentar outras mulheres, que importava temporariamente do Mindelo, até ao dia em que percebeu que as partes se lhe mirravam, parecendo querer ser absorvidas pelo corpo imenso que chegaram a coroar, com alguma solenidade, diga-se. Para infelicidade da mulher, Antónia d' Almada Trange, e com o argumento enigmático de que quem nasce de cara para o mar, assim deve permanecer, para que os olhos não morram de sede nem os ossos se desmembrem de desespero, Fernand viveu voltado para o porto até mil, oitocentos e oitenta, quando a morte, compadecida, se deu por satisfeita de um banquete de cinco anos, em que lhe carcomeu lentamente todos os apêndices do corpo. Nos seus últimos dois anos, já cego, alucinava, bradando por uma tal Mercedes, ora lhe pedindo perdão, ora lhe gritando que morria da praga rogada. Para a posteridade deixou uma prole, criada cheia de pergaminhos por Mamã Antónia ou Mã Tanha, como os filhos teimavam em chama-la, que se foi endividando num fausto de fantasia e nobreza perdida, sob o comando do primogénito Dedé – Edmond Antão d'Almada Trange – homem dado ao vício do jogo que fez enriquecer muito oficial de navio na Baía do Mindelo de São Vicente, ilha onde se descolava periodicamente. Em princípios de mil oitocentos e noventa e cinco, Edmund, completamente falido e pai de três meninas graciosas, planeava com o apelido nobre repor, através de bons casamento, algum do esplendor sob o qual tinha nascido. Quando a sua terceira filha se tornou mulher providenciou a venda das ultimas jóias de Mã Tanha, escapadas da fúria das jogatinas, e arranjou tudo para que as meninas fizessem a jornada até a vila da Ribeira Brava e ficassem instaladas em casa do tio Luís, irmão de Tanha, até serem encaminhadas para bons casamentos.
- Veja a miséria em que vivemos! Agradeço a Deus por seu pai, filho de conde, ter morrido de praga rogada, para não ter de testemunhar a mofineza que somos hoje por sua causa!
- A desgraça começou nele, que roubou a família de França, desonrou uma Mercedes qualquer e ainda morreu de doença de mulher da vida, seu vício. – respondeu Dedé, encerrando para sempre o assunto.
Prudência, filha de Edmond e minha trisavó, apesar do nome, veio a demonstrar, um certo inconformismo contra o futuro que lhe reservara o pai ou… talvez a segunda filha estivesse predestinada a seguir um caminho diferente, para que eu esteja aqui hoje, colando todos os relatos desta saga familiar afim de melhor entender de onde viemos.
Prudence a mais bela das meninas “francesas” de Preguiça. Prudência a desgraçada da Vila de Ribeira Brava. Chencha a mulher honrada de Praia Branca. Três vidas de uma só mulher.
O que se passou na Vila nunca ficou muito claro. Sabe-se somente que Prudência, desgraçada e grávida de amor, corria o ano de mil oitocentos e noventa e seis, foi trancafiada a sete chaves e no segredo de quatro paredes pariu um filho, um bastardo. A criança, desapareceu tão secretamente como o vestígio do homem a quem ela se deu. Depois de desbarrigar, oficialmente morta pela família, foi desterrada para o extremo oposto da ilha onde o neto de um de escravo da costa da Guine, se apaixonou por ela. Chamava-se José Joaquim Almeida, Padjé, e fez dela mulher honrada ao desposa-la. Juntos geraram dois rapazes e cinco meninas, sendo as duas ultimas a tia Bia Zé e a minha bisavó Nitchinha. (ver fotografia no post de 05 de Maio de 2006)
Assim se forjaram os Almeida do meu lado paterno. Descendentes de um humilde empregado de loja, da povoação de Praia Branca, que se casou com Chencha, donzela aristocrata caída em desgraça. Mulher que ele amou desde que a viu cruzar a porta da Drogaria Almada, de vestido negro, sovado de servir e lenço de vergonha a envolver-lhe a cara translúcida. Mulher que jurou honrar com o casamento, quando da sua história soube e que até ao fim da vida, mesmo quando a viu com os olhos crus da convivência dos anos, mesmo assim, nunca alcançou que ela, mulher casada e honrada, seria sempre Prudence, filha de Preguiça, acidentada pela vida, mas aristocrata de alma.

Cronologia de uma Crónica
1850 – Com procedência do porto da Vila da Praia de Santa Maria, aporta em Preguiça de São Nicolau, Cabo Verde, o Navio “Destain” da Companhia Marselhesa Azure. Desembarca Fernand Trange, francês de 25 anos, moreno de olhos verdes, que se faz acompanhar somente de cinco baús, sendo três deles consideravelmente pesados. Do mesmo navio, despachados como carga, com destino à família Almada, da Vila de Ribeira Brava, descem quatro negros djalofos da costa da Guine-Bissau. O escravo mais novo recebe o nome cristão de Domingos Almeida, sendo o apelido o mais próximo do do apelido da família a que pertence.
1853 – Fernand Trange leva uma vida faustosa na povoação de Preguiça. Constrói um palacete de varanda corrida para o mar e vive na companhia permanente de duas, três e mais mulheres. Domingos Almeida, trabalha na agricultura e enamora-se da escrava Chiquinha, filha bastarda do patriarca dos Almada.
1854 – Fernand decide casar-se e constituir família após uma noite de bebida, desassossego e delírio. Escorraça todas as mulheres do palacete e envia o amigo Antero da Silva, munido de uma procuração de casamento para a vila com as directrizes de escolher uma menina, das melhores famílias, com boa largura de ossos, para que possa parir toda uma prole de legítimos. Domingos e Chiquinha vivem juntos. Nasce uma filha.
1855 – Nasce o primogénito de Fernand Trange e Antonia d' Almada Trange, que recebe o nome de Edmond Antão d' Almada Trange. Domingos e Chiquinha Almeida partem para a zona de Praia Branca de São Nicolau, onde vão servir um outro ramo da família Almada. Nasce um filho que recebe o nome de José Almeida.
1877 – Casa-se, à revelia da família, Edmond Antão de Almada Trange, Dedé, com Teresa do Rosário Alves. No mesmo ano ainda nasce-lhes a primeira filha. De Teresa sabe-se apenas que é de origem humilde e das zonas que circundam Preguiça. As más-línguas dizem que ambos são irmãos de pai. Nesse mesmo ano Domingos Almeida morre de febre.
1879 – Em Abril nasce Prudência Caridade d' Almada Trange. A tempestade que lhe deu as boas vindas ao mundo seria lembrada por muitos anos. Morre, nessa mesma noite, numa derrocada de pedras, Chiquinha Almeida, mulher de armas, que teimou em socorrer a filha, que paria, na noite do fim do mundo. Deixa vivos 4 filhos e 10 netos, estando um dos netos, filho do primogénito José, Joaquim José Almeida (Padjé) com 4 anos.
1880 – Numa madrugada de Fevereiro, morre Fernand Trange. Num ultimo momento de lucidez, murmura que de nada serve esconder-se no meio do nada, rodeado de mar, porque as pragas são carregadas com o vento. Leva consigo a sua verdadeira historia.
1895 – Prudence e as suas duas irmãs partem para a Vila de Ribeira Brava. Está-se no mês de Novembro. José Joaquim, na Praia Branca, sonha que uma mulher se dirige a ele e pelo caminho pisa escorpiões e lacraus. Ele estende-lhe a mão, mas ela ignora. Vê-a de vestido preto mas não lhe distingue a face.
1896 – Em Agosto, a família descobre que Prudência está grávida.
1897 – Em fins de Janeiro, Chencha é exilada em Praia Branca, servindo como criada de uns amigos da família Almada.
1898 – Casam-se Chencha e Padjé (Prudência Caridade d' Almada Trange e José Joaquim Almeida).
1905 – Nasce Bia Zé.
1907 – Nasce Nitchinha (minha bisavó).
1914 – Dialogo do Casamento (o principio da crónica).
1924 – Morre a minha trisavó Chencha. Dizem que no fim suspirou um nome... Carlos.
P.S. Quando fazia a pesquisa para esta crónica, descobri que existiu um tal primo "Carlos d' Almada", filho de João Almada e neto de Luís, irmão de Mã Tanha (Antonia d' Almada Trange) que também vivia no mesmo casarão dos Almadas quando as "meninas francesas de Preguiça" foram para lá morar. Ainda no decorrer do ano de 1896, segue para Coimbra, para estudar medicina, mas o seu rasto perde-se em 1898, quando segue para umas ferias no norte de Portugal.