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25.9.08

1953 - Portaria contra "aquilo que não pode ser"

O amigo Escurinho enviou-me esta pérola por e-mail...

3.6.08

Carta da Ilha do Fogo - 1894

Escala - 1:100000 / Suporte: papel
Tamanho: 34,70x45,20 cm em folha de 45,30x55,60 cm
Outros dados sobre a publicação aqui e carta daqui.
Um esboço (?) do mesmo mapa neste endereço.
Na Enciclopédia Britânica de 1911 dados da ilha na época.

17.4.08

O dia 29 de Abril de 1858 e as Villas de Mindello e Bissau

Conforme o prometido e porque são hoje duas cidades referência para mim - numa nasci e noutra vivi - ficam mais estes dois Decretos de 29 de Abril de 1858, que elevaram à categoria de Villas as povoações de Bissau, capital da Guiné, e Mindello, na ilha de São Vicente.
Na Wiki há uma página sobre o Desembarque no Mindelo que é um bom ponto de partida para mais pesquisas sobre o assunto... e já agora, o tal "Augusto Avô" referido no decreto "Mindello" é o Rei D. Pedro, o IV de Portugal e I Imperador do Brasil.

No entanto "Bolama foi elevada à categoria de cidade em 1913 e foi a capital da antiga Guiné Portuguesa até 1941. Em 1942 a capital muda de Bolama para Bissau, que já então era, de facto, a “capital económica” da Guiné." Citação (e síntese da história da Guiné-Bissau) aqui.

15.4.08

A Cidade da Praia, a Abolição da Escravatura e o dia 29 de Abril de 1858

... e porque nos próximos dias muito se vai falar muito do dia 29 de Abril de 1858, dos 150 anos desta Cidade e dos factos históricos que lhe deram origem, queria chamar a atenção para outros assuntos, ligados ao mesmo dia, que talvez não sejam tão conhecidos.

A data da passagem da Villa da Praia a Cidade estará sempre ligada um outro marco importante… o dia em que "o estado de escravidão (ficou) inteiramente abolido, em todas as Províncias Portuguezas do Ultramar, sem excepção alguma" ainda que a entrada em vigor estivesse prevista para o "dia em que se (completassem) vinte annos, contados da data (do) Decreto" ou seja, em 29 de Abril de 1878. Assinaram o Rei e o Visconde de Sá da Bandeira. Mas qual a razão de uma vacatio legis de vinte anos? Os custos para a Fazenda Pública. É que, conforme se pode ler no documento, passados vinte anos, o numero de escravos ter-se-ia reduzido de tal forma, que as indemnizações a serem pagas aos legítimos senhores poderiam ser "satisfeitas com uma quantia moderada(!)".
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O dia 29 de Abril de 1858 teve outros acontecimentos que, a meu ver, são interessantes... duas povoações subiram à categoria de Villa - Bissau e Mindelo - e D. Pedro V, o Rei que assinou esses mesmos os decretos, casou-se, ainda que por procuração... mas isso já é matéria para o próximo post.
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Para ler o documento da "abolição" na íntegra clicar nas imagens que ilustram o post. Um pequeno resumo sobre o processo em Portugal aqui e em Slavery - a Time Line estão as datas mais marcantes relativas à abolição da escravatura na Europa e América. Os meus agradecimentos ao Prof. GC de DT por ter facultado os decretos que mencionei e que também podem ser consultados no nosso Arquivo Histórico.

9.4.08

A Cidade da Praia e os seus 150 Anos

Mais informações brevemente...

26.3.08

Ainda do Jardim das Hespérides e do Lagarto Gigante que afinal só media 17 cm...

Muitos mitos povoam e povoaram estas ilhas... um dos mais cómicos terá sido aquele que foi apelidado por Estela Guedes, Directora do TriploV, como a maior fraude da Zoologia. O fabuloso Lagarto Gigante, o Macroscincus coctei ou o Lagarto da Atlântida. O réptil começou por medir um metro e meio e, ao longo dos anos acabou nuns meros 17 cm! Dados daqui.
No
último post... viu-se como no princípio do século passado os poetas destas ilhas evocavam o mito hesperitano, algo muito próprio do espírito da época e, se calhar, podem ter ido buscar motivos à zoologia.
É que dizia-se então que o Lagarto Gigante destas ilhas (supostamente habitante do Raso, do Branco e Santa Luzia) era o último sobrevivente do que foi outrora a Atlântida. Grandes homens da ciência da altura foram ao ponto de afirmar que o dito só se alimentava de maças - lembram-se daquelas que o dragão do mito do Jardim das Hespérides guardava? - ainda que nestas ilhas só houvesse gramíneas.
Baltasar Osório (dizia que o lagarto) se alimentava de toda a espécie de frutos polposos. Peracca (que afirmou ter trabalhado com 40 desses lagartos muitos deles vivos) foi peremptório: o alimento preferido do Macroscincus coctei eram as maçãs.”! (Dados e citações daqui).
Segundo registos, figuras das ilhas e não só, como Francisco Newton, procuraram pelos lagartos, chegando a enviar inúmeros exemplares para Lisboa e Paris. - A carta ao lado, de F. Frederico Hoppfer a Barbosa du Bocage, dá conta do envio de 2 remessas de repteis, sendo a primeira do ilhéu Branco e a segunda do Branco - Contudo, parece que os últimos exemplares, confinados que estavam ao ilheu Raso, vieram a desaparecer, quando
uns pescadores de Santo Antão, em 1915, soltaram por lá cães... De modo que até hoje nem fumo nem mandado e nem ossos do Lagarto Gigante.
Este post e antepenúltimo foram baseados no imenso material escrito por Estela Guedes, disponivel nos diversos links do index do TriploV - CaboVerde
e são assuntos que devem ser desenvolvidos por quem esta mais capacitado. O que é certo é que é estória do Lagarto Gigante é das mais engraçadas e mirabolantes que já li. Fica o convite para visitarem o site, tirarem as vossas conclusões e corrigir algum erro meu. Imagens: aqui e aqui.
Entretanto... sobre este mesmo assunto gostaria de convida-los a ler o post intitulado "Maior fraude da Zoologia, ou a superficialidade da má-fé" do Professor Jorge Sousa Brito, autor do blog O outro lado do Eu. Afinal parece que que a estória, se a houve, pode não ter sido bem assim...

6.3.08

O pedido feito em 1900 para o então jovem José Lopes da Silva

Meu E.mo Chefe, amigo e Mestre, Conselheiro Bocage
Venho perante V.ª Ex.ª expor-lhe o seguinte:
Ha n’esta provincia um rapaz que me tem dispensado um verdadeiro affecto d’ irmão e que me tem chegado muita vez a consolar e auxiliar nas minhas lides scientificas.
Esse homem, digno da protecção de V.ª Ex.ª, tem o nome José Lopes da Silva, exerce na ilha de S.to Antão o cargo de professor regio da aula de 2ª classe na villa da Ribeira Grande. É preciso dar uma recompensa a esse cavalheiro. Lembrei-me d’um cargo para elle e vou dizel-o a V.ª Ex.ª rogando-lhe a fineza de se empenhar o mais que puder para me collocar bem o rapaz.
Está dito que é professor regio, e aonde. Ganha só 30$000 rs. Ora, ha n’esta provincia o cargo d’Inspector d’Instrucção publica, cargo que ninguem exerce. Pois eu quero que o Lopes seja nomeado - mas permanentemente - Inspector d’Instrucção primaria, com o vencimento mensal de 60$000 rs. Não é muito e o cargo é mister.
Assim ficava elle desligado do Magisterio; mas, se isto fôr difficil de fazer-se, o que não me parece, então eu pedia para que o meu protegido e bom amigo fôsse nomeado - cargo permanente - professor regio inspector, continuando elle a reger a cadeira que rege, dando-se-lhe mais 30$000 rs por mez para prefazer os taes 60$000 rs.
Assim ficava mui bem definido o cargo d’inspector primario, que ninguem aqui exerce. Creia V.ªEx.ª que é preciso fazermos bem a esse homem, a quem na minha vida d’explorador tenho devido aqui o affecto d’ irmão e em cuja casa, por signal, me acho agora hospedado. Elle tem a maxima competencia e de mais é casado e tem filhos. (...)
Annexar-lhe como professor o cargo de inspector (só d’instrucção primaria) e dar-lhe por mez mais 30$000 réis.

É um acto de justiça. Estimarei que V.ªEx.ª tenha passado bem e apresento-lhe os protestos da minha maior estima, admiração e respeito, rogando-lhe que me responda, o que desde já agradeço.
Creia-me V.ª Ex.ª
Amigo, admirador, e att.t creado
Ilha de S.to Antão de Cabo Verde
13 - agosto - 1900
Francisco Newton
Naturalista do Governo
Obs: Clicar na frase para saber...
Carta retirada daqui.
.
Obs: "Esse guia caboverdiano, que Newton trata por rapaz, dizendo que o acolhera como irmão, veio a ser vice-cônsul do Brasil em Cabo Verde, presidente da Câmara, laureado pela Academia Francesa das Letras, etc.. É o poeta José Lopes da Silva, autor de livros como Hesperitanas e Jardim das Hespérides. (...)". Daqui.

3.3.08

As Linhas de Força e os Tesouros do Youtube

Encontrei novamente a fotografia que ilustra o post intitulado “O Significado do Peixe”. Informo que o autor é Pedro Loureiro e por este pequeno texto subentendi que a fotografia foi tirada em 2005 na Baia das Gatas – São Vicente.
A imagem fez-me regressar no tempo mais uma vez. Vi-me lá no fundo da sala de Teoria do Design a ouvir Setôr Sardinha a falar da importância das linhas de força de uma fotografia e de como se deve tirar partido delas para vincar melhor o sentimento/ideia do que se pretende retratar...
Na altura, há uns 20 anos, frequentava a António Arroio e nos estudos, a aprendizagem e a pesquisa eram feitas nos moldes de então, nada de internet, DVD's, câmaras digitais, etc. Por exemplo... os grandes clássicos dos primórdios do cinema eram analisados à luz do que os Setôres nos falavam, em manuais, criticas, fotogramas ou, muito esporadicamente, através de gravações em VHS. Foi assim que nomes como Fritz Lang, Eisenstein, Murnau, Griffith, Bunuel, o incrível Méliès, passaram a ser meus conhecidos sem, muitas vezes, ter visto um filme deles, por mais hilário ou surreal que possa parecer agora. Logo, foi um
grande prazer "descobrir”, há tempos, todos esses tesouros acessíveis no Youtube. Metropolis, O Couraçado Potemkin, Ivan o Terrivel, Nosferatu, M Matou, Birth of a Nation, Un Chien Andalou, Le voyage dans la lune e muitos mais. Só posso deixar o convite. Hoje em dia, com a net, só não aprende quem não quer.

30.1.08

Praya em 1793

Ao longo de séculos muitas foram as expedições que passaram por estas ilhas. Uma delas deu origem ao livro A Voyage to Chochinchina, editado em 1806, e escrito por John Barrow (1764-1848). Nele estão relatados os pormenores da viagem efectuada entre 1792 e 1793, com capítulos dedicados aos locais onde aportaram e logo a St. Jago (paginas 57 a 71). É triste ler a forma como ele descreve o cenário que encontra na "city, as it is unworthily called, Praya". Miséria, doença, fome, seca e sobretudo abandono (paginas 65 e ss). Foi preciso muita tenacidade para ainda aqui estarmos... O livro encontra-se inteiramente digitalizado e está acessível através do site da Biblioteca Nacional Digital portuguesa. A imagem abaixo, consta da mesma publicação e dá uma visão extraordinária da paisagem nesse tempo.
Clicar no título do post para visualizar melhor.
Esta mesma gravura, numa reimpressão actual, encontra-se à venda na net por 90 USD (com moldura!). Muitos outros exemplos tenho encontrado nos meus "sgrôvets" on line... documentos acessíveis a quem os queira adquirir, sejam eles originais certificados ou cópias de qualidade. Acredito que, com um orçamento razoável, se poderia comprar muita coisa para o acervo deste país. Quanto mais não fosse... para fazer exposições em que crianças e adultos pudessem apreciar algo mais que projectos virtuais e em papel. Fica a divagação e a esperança...

8.11.07

Outra vez "Perdão Emília"

Um dos posts mais visitados deste blog pelo pessoal do Brasil é o “Perdão Emília, Morna, Modinha ou Fado de Coimbra?” de 12 de Maio de 2006. As palavras chave utilizadas para chegar até ao texto são “Perdão Emília” e “Noivado do Sepulcro + Soares de Passos”. O post surgiu por acaso, fruto de uma - de muitas - "briga teimosa" que eu e o Senhor Loiojoais travamos e que nos levou a descobrir que a morna afinal nem é morna, podendo a letra bem mais antiga do que se pensa (1889) ou pelo menos as suas influências. Hoje estive a “re-sgrovetar” no assunto e coloquei outros dados: Perdão Emília foi a primeira modinha a ser gravada pela Casa Edison (Brasil) em 1902 e em 1906 ocupou o 13º lugar do Top 40 brasileiro. Falta-me apenas acrescentar a letra da versão que recentemente foi gravada por um cantor caboverdeano para actualizar o post do ano passado. Fica a sugestão de leitura, para quem estiver interessado e com tempo - uma vez que, penso eu, é o maior post que já publiquei.
Imagem: The Bride de Marc Chagall (pormenor) - daqui.

6.10.07

Recordar Travadinha em "Maria Barba"

De seu nome verdadeiro, António Vicente Lopes, o violinista Antoninho Travadinha foi um dos maiores músicos autodidactas de Cabo Verde, originário da ilha de Ilha de Santo Antão. Começou a tocar nos bailes populares quando tinha apenas nove anos, mas só alcançou a fama já nos seus quarenta anos, quando empreendeu uma tournée por Portugal. Para além do violino, Travadinha tocava também maravilhosamente bem viola (guitarra de 12 cordas), cavaquinho e violão. Travadinha interpretava géneros musicais tradicionais de Cabo Verde, tais como mornas e coladeiras. Faleceu em 1987 no auge da popularidade. Foi, sem qualquer dúvida, um dos mais talentosos violinistas (tocadores de rabeca) de Cabo Verde. Nasceu numa família de músicos. O seu pai também era violinista e os seus sete irmãos tocavam violão. Com que mais poderia brincar uma criança que com os instrumentos musicais que encontrava pela casa? Aos nove anos, e apesar do pai o proibir de tocar, ele já animava bailes locais com a sua rabeca. Devido à sua humilde condição social o seu reconhecimento não foi fácil: Travadinha teve que esperar até aos seus 40 anos para começar a tornar-se conhecido como músico, particularmente depois de, em 1981, ter realizado uma série de actuações em Portugal. Da wikipedia.org. "Entre 1981 e 1986, Travadinha deslocou-se duas vezes a Portugal, ocasiões em que gravou os seus dois discos existentes no mercado: o primeiro, ao vivo, resultante de um concerto no Hot Clube em 1982; o segundo, “Feiticeira de Cor Morena”, em 1986. Ambos produzidos pelo fotógrafo e investigador português João Freire. Em Novembro deste ano o violinista de Janela, Santo Antão, completaria 70 anos. Também este ano, completam-se duas décadas do seu falecimento." Na Semanaonline.

22.7.07

Linhas Férreas em Cabo Verde - por Salomão Vieira - Parte II

2. Outras vias férreas em Cabo Verde
Nenhuma outra ilha de Cabo Verde teve caminhos-de-ferro do tipo dos caminhos-de-ferro salineiros construídos na ilha do Sal.
Porém na ilha de S. Vicente, no Porto Grande, Mindelo, diversas pequenas vias férreas existiram desde cedo (desde 1853) para o transporte do carvão dos depósitos para os navios.
Em 1925 as 3 casas carvoeiras existentes – Miller & Corys, Co, Wilson e S. Vicente Coaling, Lda, tinham todas as suas linhas férras; a St Vicente Coaling usando sistemas já mais complexos (4 vias férreas de bitola larga e muitas wagonetes nos seus depósitos de carvão, segundo uma fotografia da época).
Grandiosos projectos da casa Blandy em 1912 com 2 vias férreas que saíam do porto, e outros em 1925 que incluíam 12 km de linhas férreas, diversas zorras e também 2 carruagens automotoras para transporte de passageiros e 2 carruagens mistas para passageiros e cargas não tiveram qualquer concretização.
Também na ilha de Santiago, no porto da Cidade da Praia se vêem, em postais da época, duas pequenas vias férreas na ponte de desembarque.
Nunca, porém, que conste, se utilizou nelas outra tracção que não a humana, mesmo quando modernos sistemas de tracção estavam já em uso nos guindastes dos portos.
Referências entre os anos de 1913 e 1915 no Jornal do Comércio e das Colónias, de Lisboa, sobre projectos de caminhos-de-ferro, funiculares e aéreos, na ilha de Santo Antão não passaram de equívocos a propósito da construção de um túnel para estrada.
3. Algumas citações sobre as salinas e os caminhos-de-ferro da ilha do Sal
Em “A ILHA DO SAL DE CABO VERDE”, por Joaquim Vieira Botelho da Costa – Boletim da Sociedade de Geografia nº 11 de 1882: “Com o espírito arrojado que possuía (o Conselheiro Martins) nesse ano de 1836 fez assentar o referido caminho-de-ferro, de cerca de 1,5 Km que saindo da salina vinha entestar no lugar de embarque. E foi essa a primeira via férrea assente em território português, bem, como foi o primeiro o túnel por ele mandado abrir no monte da Pedra Lume. Por aquele caminho-de-ferro era conduzido o sal em wagonetes ... que, puxados a muares, o levavam aos depósitos donde em balaios era embarcado à cabeça de mulheres. Se o vento estava de feição, isto é, de NE, supriam as velas, que adaptavam aos carros, ... vindo então os carros da salina puxados pelo vento, e retirando (descarregados), impelidos a braços.”
Em “DESCRIÇÃO DA ILHA DO SAL” por Sócrates da Costa - Revista Colonial, números de Outubro e Novembro de 1888: “Foi o Conselheiro Martins que ali construiu (na ilha do Sal) para o tráfego das salinas o primeiro caminho-de-ferro que houve em toda a monarquia portuguesa.”
4. Bibliografia consultada
Imprensa da época: O Século, Jornal do Comércio e das Colónias, Boletim da Agência Geral das Colónias, Revista das Colónias, Revista de Obras Públicas, Bol. da Sociedade de Geografia, Portugal em África, O Futuro de Cº Verde, A Voz de Cº Verde, Bol. Oficial de Cº Verde. Obras e artigos: “A Ilha do Sal de Cabo Verde”, por Joaquim Botelho Pereira da Costa, Cabo Verde, 1882. “Considerações sobre Cº Verde”, Antº Alfredo Barjona de Freitas – Livrª Férin, Lisboa, 1905. “Subsídios para a História de Cº Verde e Guiné”, Crisóstomo J. de Sena Barcelos, Lisboa, 1911.
“Subsídios para a Indústria de Cabo Verde”, por Augusto Barros, S. Vicente, Cabo Verde, 1916.
Obs: 1ª e 2ª Ilustrações aqui e a 3ª aqui.

21.7.07

Linhas Férreas em Cabo Verde - por Salomão Vieira - Parte I

... ou O PRIMEIRO CAMINHO-DE-FERRO EM DOMÍNIOS PORTUGUESES
Artigo publicado na revista “Bastão-Piloto nº 214, Março-Abril de 2002

Durante o ano de 2001 completaram-se os 145 anos dos caminhos-de-ferro portugueses, tendo em conta que foi em 1856 que foi inaugurado o primeiro troço ferroviário da futura rede de caminhos-de-ferro portugueses. Mas terá sido esse de facto o primeiro caminho-de-ferro instalado em domínios portugueses?

1. As explorações salineiras na ilha do Sal, em Cabo Verde, no Séc. XIX
Para responder a esta pergunta temos que recuar a 1796, data em que Manuel António Martins, chegado a Cabo Verde 4 anos antes, num navio, posteriormente naufragado nos Açores, desembarca no Portinho, no centro-leste da ilha do Sal, que estava então desabitada, e encontra próximo dele um monte circular, o monte da Pedra Lume, tendo no centro um lago que produzia sal que lhe pareceu de excelente qualidade.
Decidiu-se se imediato a explorá-lo. Dado que o transporte do sal da salina da Pedra Lume para o porto era extremamente difícil – era necessário subir as paredes da salina e descer depois o monte até ao mar – Manuel António Martins em 1804 mandou abrir um túnel na base do monte que simplificou de imediato o transporte. Este túnel, completado em 1808, custou-lhe a quantia de 30.000 cruzados.
Preparava-se mais tarde para novas iniciativas na Pedra Lume quando descobriu no sul da ilha uma nova salina cujo sal lhe pareceu ainda de melhor qualidade, pelo que passou a dedicar a esta nova salina toda a sua atenção. Para o desenvolvimento da salina era necessário fixar população na ilha e por isso mandou vir da América casas de madeira, o que fez com que em 1836 já houvesse 12 famílias na ilha do Sal, tendo sido este o início da futura povoação de Santa Maria.
Para facilitar o transporte do sal, sempre difícil através dos terrenos arenosos da ilha tomou nova iniciativa: em 1836 “mandou vir de Inglaterra o primeiro caminho-de-ferro que se assentou em domínios portugueses, bem como os respectivos carros para o transporte do sal”. O caminho-de-ferro foi montado e começou a funcionar em 1837, ano em que em Portugal ainda se curavam as feridas da guerra civil fratricida e quando ainda se estava longe de pensar em tais modernidades.
(Convém referir que o sal tinha então mercado certo no Brasil, que importava desta ilha a maior parte do que consumia. Devido às referidas actividades de Manuel António Martins a exportação de sal passou de 150 a 200 moios em 1836 para 2.000 moios depois da construção do caminho-de-ferro. Nota: 1 moio de sal = 2.400 litros).
Qual a tracção utilizada? A tracção humana, certamente, que em alguns casos mais se poderia chamar de desumana. A tracção animal, também, com gado muar. Porém era difícil a criação de gado na ilha, e em anos muito secos o gado morria à fome. Por isso desde o início se usou também a tracção à vela (uma inovação e uma raridade) para o que se fizeram as necessárias adaptações aos carros. A tracção à vela foi o único meio de tracção não humana quando alguns anos mais tarde a seca dizimou todo o gado existente na ilha.
Os autores da época conheciam bem estes factos e não se cansaram de salientar o pioneirismo das iniciativas de Manuel António Martins, de cujos elogios daremos no final alguns extractos.
Aliás a vida de Manuel António Martins foi de facto recheada de tantos e tais episódios que mostram o que era a vida por aquelas paragens então. Preso por uns, nomeado Prefeito das Ilhas por outros, novamente perseguido e preso, e novamente recompensado com o título de Conselheiro, assim viveu até ao seu falecimento em1847. A sociedade comercial que constituíra continuou com o nome de Viúva de Martins & Filhos, vindo a pedir em Janeiro de 1849 “o privilégio por 30 anos para que na ilha não pudesse estabelecer-se nenhum outro caminho-de-ferro”, pois que “pretendia construir um cais e assentar novos rails de caminho-de-ferro, mas temiam a concorrência”. Pedido indeferido em 1850, “pois que não podia haver privilégios”.
Assim em 1860 aparece João José da Vera Cruz, casado com uma neta do Conselheiro Martins, que solicita e obtém concessão para construir uma ponte de madeira e um caminho-de-ferro para exportação das suas concessões salineiras (B.O. de Cabo Verde, 08.12.1860). O caminho-de-ferro desta casa ficava no lado leste da povoação, tendo algum tempo depois construído uma segunda ponte com um ramal a ligá-la à linha principal. Depois, em 1869, é a vez de 2 netos do mesmo conselheiro constituírem a firma Machado Irmãos e construírem também uma ponte e um caminho-de-ferro com vários ramais no lado oeste da povoação. A povoação de Santa Maria era então atravessada por 3 caminhos-de-ferro, mas em breve o central, que fora construído pelo Conselheiro Martins, era abandonado e em 1877 os herdeiros tinham já desmantelado tudo.
Qual a bitola destes pequenos caminhos-de-ferro com uma extensão máxima de cerca de 1,5 km, fora as ramificações nas salinas e junto às pontes de embarque? Não o sabemos directamente. Mas num relatório de recomendação de caminhos-de-ferro idênticos para as outras ilhas salineiras, a do Maio e a da Boa Vista, sugeria-se a linha Décauville, com a bitola de 60 cm, em carris de aço de 7,5 kg, como sendo a mais adequada, podendo então supor-se que essa seria a bitola e o tipo dos caminhos-de-ferro da ilha do Sal (In “Subsídios pª a Indústria de Cabo Verde”, por Augusto Barros).
A indústria do sal continuou próspera (25.000 tons. de exportação por ano) até que em 1887 o Brasil decidiu sobrecarregar as importações do sal com tais alcavalas que o comércio da ilha do Sal decaiu estrondosamente e no final do séc. XIX estava quase extinto. Porém no início do séc. XX voltou a animar-se com a abertura de novos mercados na costa de África, e é assim que em plantas de pormenor da povoação de Santa Maria lá vemos assinalados os 2 caminhos-de-ferro anteriormente referidos, sendo que num mapa de 1902 vemos assinalados na povoação a leste o caminho-de-ferro da casa Vera Cruz e a oeste o camº-de-ferro da casa Fonseca Santos & Viana.
Por volta dos anos 20 encontramos mapas da ilha do Sal onde aparecem referidos caminhos-de-ferro: não só a sul, junto de Santa Maria, mas também na Pedra Lume, havendo indicações de que em 1911 aqui teria sido instalada uma linha férrea Décauville do porto à salina, pelo túnel construído um século antes pelo Conselheiro Martins. E em mapas posteriores (anos 50) vê-se na Pedra Lume a indicação, não já de um Décauville, mas sim de um teleférico que teria sido então construído para o mesmo fim.
E coube assim à ilha do Sal a glória de ter sido a primeira parcela dos domínios da coroa portuguesa a receber o extraordinário melhoramento que era no séc. XIX o caminho-de-ferro. Caminhos-de-ferro pequenos, minúsculos, é certo, mas úteis, operacionais, os primeiros e ... à vela também.

20.7.07

Bem menos do que seis degraus de separação

Há uns tempos perguntava um professor meu se aqui também “postava” contribuições de outras pessoas… se convidava alguém para escrever? Respondi que não. Pois hoje digo que sim! O artigo que se segue, e que vem dividido em dois posts (logo em cima) é de autoria do Sr. Salomão Vieira. A quem agradeço muitíssimo pelo contributo. A internet tem dessas coisas… diminuir substancialmente os tais seis degraus de separação e aproximar as pessoas que têm interesses comuns ou semelhantes. O Sr. Salomão chegou ao blog por causa do post “Salins du Cap Vert” e o seu “conhecimento das salinas da ilha do Sal (...) vem (do) interesse geral pela história dos caminhos-de-ferro em Portugal e no ‘Ultramar’.” Trabalhou “vários anos em África, em Moçambique, Angola e S. Tomé (…). Assim quando soube que na ilha do Sal tinha havido caminhos-de-ferro, o (seu) interesse foi despertado para o assunto e decidi(u) investigá-lo um pouco mais.” Disse o ainda o Sr. Salomão Vieira: “Calcule a minha surpresa quando vim a saber que o caminho-de-ferro na ilha do Sal foi o primeiro caminho-de-ferro assente em domínios portugueses de então, muito antes de se começarem a assentar caminhos-de-ferro em Portugal ‘Continental’." Os posts que se seguem são um resumo do que ele conseguiu descobrir…
Obs: Mais fotografias antigas de São Tomé e Prícipe aqui.

29.5.07

Um Post e uma Tese de Doutoramento

Há um dia ou dois que andava meio desconfiada com o numero, cada vez maior, de visitantes aqui no blog. Isto sempre foi meio intimista (pouco conhecido - é mais correcto) e de repente passo a ter mais visitantes num dia do que numa semana inteira. 20, 30 e 40 visitantes! Wow! Desvendei o mistério. Os novos visitantes vêm todos do blogueforanadaevaotres que fez um post sobre o meu post. É engraçado e espero que seja uma descoberta agradável para os visitantes que por cá passem pela primeira vez.
Fiquei mesmo foi com muita vontade de ler a tese de Doutoramento em História Contemporânea - Guerra colonial 'versus' guerra de libertação: o caso da Guiné-Bissau - do Professor Doutor Leopoldo Amado. Quem sabe um dia... o lançamento... aqui em Cabo Verde, uh?

8.5.07

Blogueforanada - sem palavras.

Muito ouvimos nós, a geração das Flores da Revolução de Bissau, falar da luta da libertação nacional que decorreu nas matas da Guiné e dos nossos bravos combatentes e libertadores da pátria amada que lutaram corajosamente contra os tugas colonizadores (assim era a linguagem, não há enganos). Enfim... Jovens cheios de ideais nobres que combateram contra outros jovens, alguns renitentes e outros "impregnados ainda dos ideais de um império moribundo" como alguém me disse.
A parte dos combates foi sempre muito abstracta e idealizada na minha mente. Uma de mistura de memórias de criança com imagens do filme "Mortu Nega" e uns salpicos daquelas elipses convenientemente cinematográficas, onde se leva o espectador directamente para o que interessa, sendo dispensado de ver a parte chata e sobretudo, sem aflorar a tragédia que está por detrás da rotina dos acontecimentos. Gostaria de poder acreditar que, da minha parte, foi uma negação mascarada de ingenuidade.
Mas... e o concreto? O sangue, os massacres de populações civis indefesas, os fuzilamentos, as luta corpo a corpo? As situações mórbidas que poucos têm coragem de perguntar e que, muitos dos que levaram a cabo essas acções, não gostariam de se lembrar?
Há blogs engraçados, curiosos, originais e há blogs que me provocam, literalmente, uma reacção orgânica qualquer que não consigo explicar. O blogueforanadaevaotres editado por Luís Graça é um deles. Narrado quase sempre na primeira pessoa, relata o historial da guerra na Guiné e como foi vivido pelos portugueses. Está tudo lá! São descrições, factos e memórias impressionantes. Conforme ia lendo só me ocorria uma palavra - Catarse.
Não se consegue ler tudo de uma vez e o que se vai descobrindo arrepia. Arrepia a estória de Uloma, o comando africano “caçador de cabeças”. Sobressalta o alegado número de fuzilados que o historiador Leopoldo Amado avança e surpreende saber que o Supervisor da 1ª. Companhia de Comandos Africanos e Director de Instrução de Cursos de Comandos em Fá Mandinga, que se chamava Octávio Manuel Barbosa Henriques, nasceu em 18 de Novembro de 1938, na Freguesia de Nª. Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo.
É o outro lado e há muito a descobrir...
Já agora... Recomendo a visita a esta página, também no mesmo blog, que tem informações interessantes sobre a força expedicionária portuguesa em que passou por São Vicente durante a II Guerra mundial.

12.5.06

"Perdão Emília" Morna, Modinha ou Fado de Coimbra?

Um amigo, que não é das ilhas, disse-me aqui há uns meses que a Morna “Perdão Emília” mais parecia um fado de Coimbra. Eu, na minha ignorância, afiancei que não, que era uma morna nossa, antiga, mas muito nossa e que, quanto muito teria influências o fado de Coimbra, mas mais nada! Uns tempos depois descobri que tinha me enganado redondamente mas... graças à aula espectacular sobre o Ultra Romantismo que o Professor Camilo me deu o ano passado, pude levantar algumas duvidas e quem sabe, dar a volta à questão. Para saber mais, é só ler a nossa troca de emails.
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Email do meu amigo:
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(…) Não sei se já tinha comentado que gostava muito da letra da morna, "Perdão Emília". Ontem na Internet, descobri que afinal a letra é já do século XIX e não é de nenhuma morna, mas sim duma modinha (Brasil). A letra conhecida da morna está um pouco adulterada, o original parece que é assim:
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Já tudo dorme, vem a noite em meio.
a turva lua surgindo além:
tudo é silêncio; só se vê na campa
piar o mocho no cruel desdém.
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Depois, um vulto de roupagem preta,
no cemitério com vagar entrou.
Junto ao sepulcro, se curvando a medo,
com triste frase nesta voz falou:
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" - Perdão, Emília, se manchei-te a vida,
se fui impuro, fui cruel, ousado...
Perdão, Emília, se manchei teus lábios.
Perdão, Emília, para um desgraçado."
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" - Monstro tirano, por que vens agora
lembrar-me as mágoas que por ti passei?
Lá nesse mundo em que vivi chorando,
desde o instante em que te vi e amei.
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Chegou a hora de tomar vingança,
mas tu, ingrato, não terias perdão...
Deus não perdoa as tuas culpas todas,
Castigo justo tu terás, então.
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Perdi as flores da capela virgem
Cedi ao crime, que perdão não tinha,
mas, tu, manchaste a minha vida honesta,
depois, zombaste da fraqueza minha...
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Ai, quantas vezes, ao meus pés, curvado,
davas-me prova de teu puro amor.
Quando eu julgava que fosses um anjo,
não via fundo nesse olhar traidor.
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Mas vês agora, que o corpo em terra
tombou, de chofre, sobre a lousa fria."
E quando a hora despontou, na lousa
um corpo inerte a dormitar se via:
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" - Perdão, Emília, se manchei-te a vida,
se fui impuro, fui cruel, ousado...
Perdão, Emília, se manchei teus lábios.
Perdão, Emília, para um desgraçado (fim.)
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Que achas? (fim do email do meu amigo)
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Claro que fui logo pesquisar e encontrei muita informação sobre a letra da musica em diversos sites, do qual destaco esta pequena biografia que está em: http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/paraguassu.asp

Paraguassu 25/5/1894 - 5/1/1976
Biografia:
Filho de imigrantes italianos, nasceu e foi criado no bairro do Brás, em São Paulo. Aprendeu a tocar violão com um vizinho e logo se tornou um seresteiro famoso na região. Aos 14 anos se apresentava em um café e foi convidado para participar de um espetáculo no circo Spinelli. Na década de 20 fez gravações para a Casa Edison e ingressou em 1924 na Rádio Educadora Paulista, passando depois ao elenco da Columbia, onde trabalhou com o maestro Gaó. No período na Columbia gravou cerca de 150 músicas. Fez sucesso cantando modinhas, serestas e toadas sertanejas, como "Luar do Sertão" (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco), "Triste Caboclo", "Lamentos" (Catulo da Paixão Cearense), "Tristezas do Jeca" (Angelino de Oliveira). Participou da Série Caipira de Cornélio Pires, em que gravou, sob o pseudônimo Maracajá, "A Encruziada" (A. de Oliveira) e "Cantando o Aboio" (A. de Oliveira/ Cornélio Pires). Seu último grande sucesso foi a modinha "Perdão, Emilia" (J.H. Silva/ Juca Pedaço), de 1945."

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E descobri mais... A minha resposta ao email desse meu amigo:
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(…) Sobre a tua descoberta, quero que leias este excerto que copiei de uma transcrição de um programa brasileiro de datado de Março de 1952 que está no site http://daniellathompson.com/Texts/Pessoal/pessoal17.htm (e que é uma delicia de se ler, diga-se!)
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“(...) "Entre as velhas e mais plangentes modinhas do Brasil figura a célebre “Perdão Emília”, soturna cantiga que foi [flor?] pelo Brasil afora no tempo das serenatas. Jamais se apurou quem a escreveu. Aproveitando-se dessas circunstâncias, um cantor paulista apossou-se dela, gravando-a em discos com o seu nome. É uma desfaçatez, que foi uma nódoa na decência da profissão de autores e de cantores nessa terra. “Perdão Emília”, segundo informação de antigos ouvintes, informações a que dão curso sem apoiar ou desapoiar, foi composta por um português chamado José Henrique da Silva, que residiu longo tempo em São João da Barra. Foi escrita há 63 anos, em 1889, quando o seu autor contava 24 anos de idade. Isso, repito, é a informação de um ouvinte que nos deu por carta, e que jamais pudemos apurar. A velha modinha que vai agora para atender a o que nos pedem D. Jerusa Carvalho e sua irmã D. Mariana Carvalho."
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Tendo em conta o que esta escrito em cima, sabes que a tua teoria, de que, originalmente, seria um fado de Coimbra pode até ser verdade? E ainda vou mais longe e digo que o poema (ou inspiração) é muito mais antigo do que a data dada. Ainda que possa estar errada, acho que pela estrutura que apresenta, está inserido no Romantismo ou melhor, Ultra Romantismo, que terminou, "oficialmente", com a "Questão Coimbrã". Ora tendo o pretenso autor (em 1889) 24 anos... hmmm. Quero dizer, um jovem, letrado, culto e a escrever assim de forma "démodé"... duvido!
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Já agora... já ouviste falar de Soares de Passos? Lê a mini biografia que se segue e depois lê a balada "O Noivado do Sepulcro"
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Soares de Passos (1826-1860)
Soares de Passos nasceu no Porto e foi estudar em Coimbra onde fundou o jornal "O Novo Trovador". Nele colaboraram poetas da segunda geração romântica. Os seus poemas foram publicados no ano de 1856 em uma colectânea intitulada "Poesias". Soares de Passos faleceu prematuramente, sendo, no entanto, um dos mais significativos poetas ultra-românticos portugueses. A sua composição mais conhecida é "O Noivado do Sepulcro", que foi muito ironizado pelos escritores realistas.
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O Noivado do Sepulcro - Balada
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Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranqüila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.
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Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.
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Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na mormórea cruz.
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Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.
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Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre os ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:
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"Mulher formosa, que adorei na vida,
E que na tumba não cessei de amar,
Por que atraiçoas, desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?
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Amor! engano que na campa finda,
Que a morte despe da ilusão falaz:
Quem dentre os vivos se lembrara ainda
Do pobre morto que na terra jaz?
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Abandonado neste chão repousa
Há já três dias, e não vens aqui...
Ai, quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!
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Ai qão pesada me tem sido!"e em meio
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.
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"Talvez que rindo dos prostestos nossos,
Gozes com outro d'infernal prazer;
E o olvido cobrirá meus ossos
Na fria terra sem vingança ter!"
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— "Ó nunca, nunca!" de saudade infinita,
Responde um eco suspirando além...
— "Ó nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.
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Cobrem-lhe as formas divinais, airosas.
Longas roupagens de nevado cor;
Singela c'roa de virgíneas rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.
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"Não, não perdeste meu amor jurado:
Vês este peito? reina a morte aqui...
É já sem forças, ai de mim, gelado,
Mas ainda pulsa com amor por ti.
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Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, sucumbindo à dor:
Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do amor?
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Saudosa ao longe vês no céu a lua?"
— "Ó vejo sim... recordação fatal"
— Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final.
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Ó vem! se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
Quero o repouso do teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!"
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E ao som dos pios co cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.
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Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.
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Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletdos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só. (fim)
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Agora compara com a letra da modinha "Perdão Emília" tal qual foi cantada por Paraguaçu em 1945. Claro que o resto podemos deduzir... a modinha foi trazida do Brasil para Cabo Verde nos finais dos anos quarenta, e entrou no reportório das musicas tocadas... por fim, para os mais novos, tornou-se uma morna, tendo entretanto a letra sido deturpada. (fim do meu email)
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Nota: (hoje) A última versão da "morna" "Perdão Emília", gravada em Cabo Verde em ____ por ____ é cantada assim:
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Posso também acrescentar que, segundo este site, "Perdão Emília" foi a primeira modinha gravada no Brasil pela Casa Edison em 1902 e em 1906 ocupou o 13º lugar do "TOP 40 SONGS OF 1906 records and sheet music sales" no Brasil.
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E se o percurso do “Perdão Emília”, foi feito de uma outra forma? Há ainda muito por descobrir no triângulo Atlântico formado por Cabo Verde, Brasil e Portugal. Mas... O facto de não saber, com certeza, se é um fado, uma morna ou uma modinha apenas faz o “Perdão Emília” ainda mais delicioso de se ouvir. Quem puder dar uma ajuda…