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1.10.08

Cabo Verde em 1699 - Ilustrações de Duplessis

"Em 1699, uma pequena esquadra composta pelos navios Le Phèlippeaux (...), Le Comte de Maurepas (...), corveta La Bonne Nouvelle (...) e a flûte Le Nécessaire (... que se perdeu depois ao regressar a Port-Louis), intentaram uma “viagem comercial” ao Pacífico, fazendo escala em Cabo Verde, Rio de Janeiro, no Brasil e cruzando o Estreito de Magalhães, passaram ao Oceano Pacífico. A expedição saiu de La Rochelle a 27 de Dezembro de 1698 e, após 67 dias de viagem, a 22 de Janeiro de 1699, avistaram a ilha de Maio em Cabo Verde. A bordo de Le Comte de Maurepas embarcou o engenheiro Duplessis, que escreveu o diário de bordo, ilustrando-o com vistas de Cabo Verde e de peixes e aves, que aí encontraram."
São vinte e tal belíssimas ilustrações que podem ser consultadas em arquipelagos.pt (precisamente aqui e aqui), site esse rico em imagens e mapas antigos das ilhas. Recomendo explorar com calma. Penso que as aguarelas de Duplessis são um encanto, tanto pelos detalhes como pela cor. Publico umas tantas e aproveito para chamar a atenção para a grande diferença de povoamento que havia, na época, entre a Ribeira Grande e a Praia. Já sabia que assim o era mas "ver" é sempre interessante. (clicar nas primeiras 2 imagens).
"Poisson qu’on appelle Grande Gueulle - Peixe chamado Garoupa de pintas apanhado na ilha de S. Vicente. Têm tamanhos diferentes, pele dura, vermelha e malhada de azul."

"Oyseau qu’on appelle Foux - Ave chamada Boba (Alcatraz) porque se aproxima tanto do homem que, em certas ilhas, é morta á paulada. Nós matámo-la com um tiro de espingarda, na ilha de S. Vicente. Estas aves vivem apenas de peixe, sobre o qual se lançam, lá do alto, a toda a velocidade, como o gavião sobre a presa. São do tamanho de um ganso, muito gordurento e com um gosto a água choca."

"Vue de l’île de S. Nicolas lors quelle vous reste a deux lieues au Nord."

18.7.08

O Zeppelin no Céu das Ilhas - Anos 30 do Séc. XX

Depois da pausa de três semanas atravesso uma a fase de “apetece-me acabar com o blog”. A melhor forma de dar a volta à questão é ir directamente ao assunto, neste caso, ao desenvolvimento do post sobre o Graf Zeppelin...
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Fotografia de Tuta Melo tirada em 1937. Imagem do fotolog do Djô Martins - Mindel na Coraçon - publicada em 29 de Dezembro de 2005. Clicar na data para visualizar melhor e ler outras informações.
Olhar para a imagem acima lembra-me uma cena do filme “Indiana Jones e a Última Cruzada” a bordo do Zeppelin. Passa-se mais ou menos na altura em que a foto tirada e a reconstituição, se bem me lembro, deixa antever muito glamour e paisagens magníficas. A primeira ligação entre a Europa e a América do Sul - Brasil, acontece em Maio de 1930 e é nessa época que o Graf Zeppelin sobrevoa as ilhas, largando mala postal na Praia. Se passou antes e/ou depois ou apenas uma única vez é algo a confirmar. A Wiki tem um bom resumo da história do dirigível. Entretanto... acredito, dada a escalada de preço do combustível, que no futuro (se calhar bem próximo) será possível tornar a fazer viagens em aeronaves do tipo. Quem sabe? Uma visão provável dos novos zeppelins aqui...

1.2.08

E no Mindelo... o Carnaval!

Préparatifs du Carnaval (défilé: 5 février 2008)
Les Mandingues sont chargés de frayer un chemin aux danseurs
parmi les spectateurs: gare aux tâches sur les vêtements...
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Fotografia e Legenda de Mix.Dax em Mindelo.Info
aqui reproduzidas com a devida vénia.

10.1.08

1899 no Mindelo - Wilson, Miller & Cory e Madeira

Bill of Exchange, to pay Captain Dewis Spicer forty pounds sterling, 26 December 1899
Clicar na imagem para ver melhor

O documento que ilustra o post faz parte do acervo da família Spicer. Em Dezembro de 1899 Dewis Spicer, então Capitão do Glooscap, escala o Porto Grande, a caminho de Manila, nas Filipinas. No porão carrega cerca de 280 toneladas de carvão que procura vender, tendo, para o efeito, contactado a Millers & Cory's C.V.I. Ltd e a The St. Vincent Coaling Co. (se bem entendi, empresa franca e filial da Wilson, Sons & Co.). Nesse intervalo - entre a efectivação da venda da mercadoria, com alguns problemas pelo meio, e os preparativos para seguir viagem - dá-se a última quadra natalícia do século XIX. Na Casa Madeira, ou melhor, na Madeira & Cª, vários géneros alimentícios e uma quantidade razoável de tinta vermelha são requisitados. A lista de compras é, no mínimo, curiosa, pois, para além da relação produto/preço, dela constam 2 itens que me deixaram surpreendida - 1 perú e 50 laranjas. Entretanto... não posso deixar de imaginar como terá sido, para a tripulação do Glooscap, passar a mudança de século na baía do Mindelo. Gostei de "descobrir" os documentos. São nomes de empresas que marcaram a ilha de São Vicente na altura e deixaram marcas no imaginário de muitos.

30.10.07

Rádio Clube Mindelo - CR4AB

Já sabem que me eu acho piada a estas "velharias".
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" (...) Criada em 1946, a Rádio Clube do Mindelo iniciaria as suas emissões em Junho de 1947, emitindo ás terças, quintas, sábados e domingos entre as 18H e as 19H30mn. Dez anos mais tarde, a proclamada “Voz de São Vicente” emite diariamente, na banda dos 62 metros, frequência de 4.755 kc/s das 18h30 às 20h. Com uma programação variada que incluía desporto, actuações em directo e, na década de 60, o seu próprio concurso de músicos e conjuntos á semelhança da Rádio Praia.
Em Junho de 1954, o Grémio Recreativo do Mindelo apresentava aos sócios a aparelhagem destinada ao seu serviço de radiodifusão. Um ano mais tarde, com apoio estatal, nascia a Rádio Barlavento, emitindo diariamente na banda dos 50,2 metros, das 18h30 às 19h30. Funcionando no edifício do Centro Nacional de Artesanato e antiga casa do senador Vera-Cruz, e ali foram realizadas as primeiras gravações editadas em disco.
A Rádio Barlavento, considerada elitista por ser originária da elite mindelense, e anti-independentista, foi ocupada a 9 de Dezembro de 1974 e transformada em Rádio Voz de S. Vicente que , tal como a Rádio Clube de Cabo Verde veria a desaparecer com a criação da Rádio Nacional de Cabo Verde que as absorveu. (...)" por Glaucia Nogueira
.
Ler mais em RTC.CV

22.7.07

Linhas Férreas em Cabo Verde - por Salomão Vieira - Parte II

2. Outras vias férreas em Cabo Verde
Nenhuma outra ilha de Cabo Verde teve caminhos-de-ferro do tipo dos caminhos-de-ferro salineiros construídos na ilha do Sal.
Porém na ilha de S. Vicente, no Porto Grande, Mindelo, diversas pequenas vias férreas existiram desde cedo (desde 1853) para o transporte do carvão dos depósitos para os navios.
Em 1925 as 3 casas carvoeiras existentes – Miller & Corys, Co, Wilson e S. Vicente Coaling, Lda, tinham todas as suas linhas férras; a St Vicente Coaling usando sistemas já mais complexos (4 vias férreas de bitola larga e muitas wagonetes nos seus depósitos de carvão, segundo uma fotografia da época).
Grandiosos projectos da casa Blandy em 1912 com 2 vias férreas que saíam do porto, e outros em 1925 que incluíam 12 km de linhas férreas, diversas zorras e também 2 carruagens automotoras para transporte de passageiros e 2 carruagens mistas para passageiros e cargas não tiveram qualquer concretização.
Também na ilha de Santiago, no porto da Cidade da Praia se vêem, em postais da época, duas pequenas vias férreas na ponte de desembarque.
Nunca, porém, que conste, se utilizou nelas outra tracção que não a humana, mesmo quando modernos sistemas de tracção estavam já em uso nos guindastes dos portos.
Referências entre os anos de 1913 e 1915 no Jornal do Comércio e das Colónias, de Lisboa, sobre projectos de caminhos-de-ferro, funiculares e aéreos, na ilha de Santo Antão não passaram de equívocos a propósito da construção de um túnel para estrada.
3. Algumas citações sobre as salinas e os caminhos-de-ferro da ilha do Sal
Em “A ILHA DO SAL DE CABO VERDE”, por Joaquim Vieira Botelho da Costa – Boletim da Sociedade de Geografia nº 11 de 1882: “Com o espírito arrojado que possuía (o Conselheiro Martins) nesse ano de 1836 fez assentar o referido caminho-de-ferro, de cerca de 1,5 Km que saindo da salina vinha entestar no lugar de embarque. E foi essa a primeira via férrea assente em território português, bem, como foi o primeiro o túnel por ele mandado abrir no monte da Pedra Lume. Por aquele caminho-de-ferro era conduzido o sal em wagonetes ... que, puxados a muares, o levavam aos depósitos donde em balaios era embarcado à cabeça de mulheres. Se o vento estava de feição, isto é, de NE, supriam as velas, que adaptavam aos carros, ... vindo então os carros da salina puxados pelo vento, e retirando (descarregados), impelidos a braços.”
Em “DESCRIÇÃO DA ILHA DO SAL” por Sócrates da Costa - Revista Colonial, números de Outubro e Novembro de 1888: “Foi o Conselheiro Martins que ali construiu (na ilha do Sal) para o tráfego das salinas o primeiro caminho-de-ferro que houve em toda a monarquia portuguesa.”
4. Bibliografia consultada
Imprensa da época: O Século, Jornal do Comércio e das Colónias, Boletim da Agência Geral das Colónias, Revista das Colónias, Revista de Obras Públicas, Bol. da Sociedade de Geografia, Portugal em África, O Futuro de Cº Verde, A Voz de Cº Verde, Bol. Oficial de Cº Verde. Obras e artigos: “A Ilha do Sal de Cabo Verde”, por Joaquim Botelho Pereira da Costa, Cabo Verde, 1882. “Considerações sobre Cº Verde”, Antº Alfredo Barjona de Freitas – Livrª Férin, Lisboa, 1905. “Subsídios para a História de Cº Verde e Guiné”, Crisóstomo J. de Sena Barcelos, Lisboa, 1911.
“Subsídios para a Indústria de Cabo Verde”, por Augusto Barros, S. Vicente, Cabo Verde, 1916.
Obs: 1ª e 2ª Ilustrações aqui e a 3ª aqui.

19.7.07

O Pescador

(...)
Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não."
.
A legenda da fotografia diz o seguinte: Cape Verde. Tunafishing between the islands Sao Nicolau and Sao Vicente. Tunafishing is practised with line and bait. In small boats fishermen sail at sunset to trace tuna on their way to European coasts. After the line is drawn a long wait starts. When a tunafish touch the bait the fisherman will awake and the battle starts.
.
É uma imagem que transmite muita paz e liberdade. Quase que se pode ouvir a brisa, os salpicos das ondas e o balançar do bote. Pensar que ele se prepara para a luta...

8.5.07

Blogueforanada - sem palavras.

Muito ouvimos nós, a geração das Flores da Revolução de Bissau, falar da luta da libertação nacional que decorreu nas matas da Guiné e dos nossos bravos combatentes e libertadores da pátria amada que lutaram corajosamente contra os tugas colonizadores (assim era a linguagem, não há enganos). Enfim... Jovens cheios de ideais nobres que combateram contra outros jovens, alguns renitentes e outros "impregnados ainda dos ideais de um império moribundo" como alguém me disse.
A parte dos combates foi sempre muito abstracta e idealizada na minha mente. Uma de mistura de memórias de criança com imagens do filme "Mortu Nega" e uns salpicos daquelas elipses convenientemente cinematográficas, onde se leva o espectador directamente para o que interessa, sendo dispensado de ver a parte chata e sobretudo, sem aflorar a tragédia que está por detrás da rotina dos acontecimentos. Gostaria de poder acreditar que, da minha parte, foi uma negação mascarada de ingenuidade.
Mas... e o concreto? O sangue, os massacres de populações civis indefesas, os fuzilamentos, as luta corpo a corpo? As situações mórbidas que poucos têm coragem de perguntar e que, muitos dos que levaram a cabo essas acções, não gostariam de se lembrar?
Há blogs engraçados, curiosos, originais e há blogs que me provocam, literalmente, uma reacção orgânica qualquer que não consigo explicar. O blogueforanadaevaotres editado por Luís Graça é um deles. Narrado quase sempre na primeira pessoa, relata o historial da guerra na Guiné e como foi vivido pelos portugueses. Está tudo lá! São descrições, factos e memórias impressionantes. Conforme ia lendo só me ocorria uma palavra - Catarse.
Não se consegue ler tudo de uma vez e o que se vai descobrindo arrepia. Arrepia a estória de Uloma, o comando africano “caçador de cabeças”. Sobressalta o alegado número de fuzilados que o historiador Leopoldo Amado avança e surpreende saber que o Supervisor da 1ª. Companhia de Comandos Africanos e Director de Instrução de Cursos de Comandos em Fá Mandinga, que se chamava Octávio Manuel Barbosa Henriques, nasceu em 18 de Novembro de 1938, na Freguesia de Nª. Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo.
É o outro lado e há muito a descobrir...
Já agora... Recomendo a visita a esta página, também no mesmo blog, que tem informações interessantes sobre a força expedicionária portuguesa em que passou por São Vicente durante a II Guerra mundial.

8.4.07

Planta incompleta do Mindelo, publicação de 1888

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Nota explicativa do Mapa: Descoberta da ilha: Em 1465 / Descobridores: Antonio de Nola e Luiz Cadamosto / Situação: Lat. N 16.º 54.’ Long. W 25.º 4.’ Green. / Numero de fógos em 1887 – 1.561 / Numero de habitantes em 1887 – 5.377 / Data da fundação da cidade: A ilha foi mandada povoar em 1781, mas só em 1795 vieram para aqui alguns colonos – escravos e alguns casaes de João Carlos da Fonseca donatario da ilha. Foi elevada a cathegoria de cidade por alvará de 30 de Setembro de 1879. / Edeficios publicos: Palacio do Governo, Quartel militar, Paços do Conçelho, Alfandega e Lazareto.
Obs: clicar no título/link para uma excelente visualização do mapa.
Impressionante como a parte antiga permanece ainda hoje.

10.3.07

A espera...

3.12.06

Postais Antigos

Sao Vicente : Native prisoners (Native from Angola
deported in Cabo Verde islands after a rebellion).
Obs: Para ver mais clicar no título/link

14.9.06

Baía do Porto Grande - São Vicente

A minha próxima paragem… dentro de dias.
Volto em princípios de Outubro.

6.9.06

Mindelo há cinco anos - II

Transcrevo outro texto de "Clara Vales" porque penso que é um tema actual. O meu único reparo vai para o tamanho da crónica. Se fosse hoje diria tudo com metade das palavras.

Nem capitães nem segurança

Há dias, dois meninos da “praia d’bote” surripiaram-me o porta moedas. Nada de mais a acrescentar, apenas mais um que foi à vida. O problema, propriamente dito, não está no roubo, o busílis da questão esta no facto de, os piratinhas terem sabido como agir. Enquanto um me distraía, esmolando para um pão, o outro subtraia-me a carteira. Pois é, temos bando, temos organização e temos esquema!
Uma senhora que, no local, presenciou a minha estupefacção, confidenciou-me que os dois fazem parte de um grupo conhecido, cerca de dez, que ciclicamente, percorrem a Rua da Praia, fazendo pequenos furtos, desaparecendo estrategicamente até ao dia seguinte. Informou-me que são conhecidos da Policia e aconselhou-me a pedir-lhes auxílio.
Esperançosa, dirigi-me ao Comando, onde fui prontamente ouvida com todo o profissionalismo. Os polícias presentes, estiveram atentos até ao momento em que perceberam que a minha “estória” era apenas mais uma a acrescentar a tantas outras, se calhar, ouvidas quotidianamente. Pacientemente, fui convidada, por um dos agentes, a ver uma série de fotografias a preto e branco, guardadas cuidadosamente, dentro de uma pequena caixa de papelão, e proceder à identificação do par.
Examinei cerca de cinquenta fotos, divididas, basicamente, em três idades. A dos adolescentes, com olhar revoltado e queixo tenso, a dos “aborrecentes”, fazendo cara de não me importa e a dos mais pequenos, em poses ingénuas e semblante malandro. Reconheci imediatamente quatro ou cinco rapazes, do bando que ronda as imediações de um supermercado que frequento e onde, na maior parte das vezes, pedem uma moeda a troco de nada. Quase todas as fotografias estavam manuscritas no verso com um ou dois nomes, apelidos de pai e mãe e os respectivos nominhas, como “Springuintin” ou “Coxim”.
No meio dessas fotos, mais parecendo pertencer a uma caixa de uma década anterior, havia uma “carinha” muito particular. A fotografia, bastante amarelada, exibia um homem que fixava a câmara passivamente e cujo penteado “black” aliado a um sulco que lhe dividia copiosamente a melena, quase me fez sorrir. No verso lia-se “Rob d’ Jula” a duas letras e tintas distintas. Alguma mão mais ciosa corrigira após a primeira identificação, o nome mal escrito, pois que um A despudorado cobria o IA feito pelo primeiro punho e dois EE tinham sido mascarados por uma borracha de tinta. Nada de enganos, Rob d’ Jula e não Robe de Júlia! O que faria essa figura “lendária” no meio das outras? Deduzi que talvez, alguém menos atento, no momento de a guardar novamente, após alguma identificação apressada, se tivesse enganado na caixa. Não acredito que tenha pensado que bandidos são bandidos, e piratinhas serão ladrões, pelo que o melhor é estarem bem acompanhados e terem no meio deles uma figura mais paterna, mesmo que, isso signifique acabar por confundi-los a todos e aos seus crimes, pois quem de pequeno, faz furto, quando crescer, cometerá roubos, arrombamentos, desvios e violações, que isto de crimes é sempre a subir.
Acabei por identificar apenas um dos rapazes, mas ainda assim com pouca certeza, afinal, não me tinha dado ao trabalho de fixar os traços do meu “pedinte”. Segui o conselho do agente, fui-me embora, ficando de regressar no fim do expediente para saber como estava o andamento do caso.
De regresso à minha rotina habitual, se sem saber como, veio-me à mente o livro “Capitães de Areia”. As hipóteses de recuperar o porta moedas eram quase nulas e deve ter sido essa a forma que o meu inconsciente encontrou para, tranquilamente, pôr uma pedra sobre o assunto, e fugir às implicações reais do acontecido.
Mas confesso… não Há Jorge Amado ou actos vistos à luz de um prisma mais poético que mascare o atordoamento que ainda sinto quando recordo o meu regresso ao Comando da POP.
Devido ao adiantado da hora, foi na rua que falei com o agente à paisana encarregue do meu caso. O policia, ao volante do carro das diligências e, ao mesmo tempo que ia fazendo mil e um malabarismos para estacionar, mesmo colado à parede lateral do comando, com o fito de barrar o acesso de uma das portas da viatura com o vidro escangalhado, informava-me que não, não havia novidades, que regressasse amanhã porque eles, quando roubavam, subiam a Ribeira Bote de onde não desciam até terem comido, bebido e fumado todo o dinheiro. Eu, sem nenhuma esperança no que toca a porta moedas mas, ainda assim, admirada com tanta perícia, perguntei o porquê de tantas manobras, se ele não era policia, se não estávamos nas imediações do Comando da ilha, ao que o agente respondeu a meio tom… “mais ou menos”.
Se a policia que é Policia, tem de defender o património com que trabalha, neste caso, um carro sovado e maltratado, como nos pode defender a nós, cidadãos que procuramos e esperamos protecção em situações idênticas?
Quem responde por esses menores que, pela lei, não podem ser responsabilizados pelos actos que cometem? Se eles têm nomes e apelidos, foram registados, têm pai e mãe. Os pais ou encarregados de educação que sejam responsabilizados. É fácil cair no erro de os transformar em Capitães da Praia de Bote, mas o que é certo é que eles vão crescer.
Quanto a mim, tenho-me esforçado, mas até agora, não me vem à memória nenhum livro de Jorge Amado ou outro autor, que me faça pôr uma pedra sobre o assunto e dormir tranquila com a visão romântica de bandos de Rob d’ Jula a pulular estas ilhas.
Clara Vales
Outubro de 2001

Pois é… eles cresceram e já não há poesia ou desprendimento que aguente tanta afronta!

29.8.06

Mindelo há cinco anos

O ano de 2001 era para ser o ano em que eu me tornaria empresária! Bom… dona de butik para ser mais exacta. Deu tudo errado! Claro que, para quem me conhece bem, isso não foi novidade nenhuma. Na altura, apesar dos avisos resolvi embarcar na aventura. Para cúmulo dos cúmulos, abri o Balão Mágico, loja de roupas infantis, quando o boom das lojas chinesas estava a rebentar em São Vicente. Resumindo… pouca venda e falência em 11 meses! No fim restou-me a consolação de saber que não nasci para ser dona de butik. Na mesma altura, e sob o nome de Clara Vales, assinei, durante uns poucos meses, uma coluna no Jornal Terra Nova. É uma dessas pequenas crónicas que vou aqui transcrever. Penso que, apesar de se terem passado cinco anos, o tema é actual e, ao mesmo tempo, fala dessa cidade onde eu vivi muitos anos, o Mindelo. A crónica chamava-se…

Desenrascado ou Desonesto?
Sol a pique. O homem está atrasado. Dou-lhe desconto, é hora da ponta. No alcatrão da Baltazar Lopes da Silva, carros cruzam-se em situação de semi tráfego. Condutores e acompanhantes, olham-me com curiosidade fugidia, enquanto rumam a casa, à hora do almoço. Na esquina, aguento mais cinco minutos, antes de agarrar o telemóvel e saber o motivo do atraso. Do outro lado, a senhora explica que se esqueceu de o avisar, mas que fique tranquila, ele já se encontra a caminho. Preparo-me para mais um quarto de hora de espera e aproveito para observar o movimento dos estabelecimentos debaixo do calor do meio dia. Mesmo em frente, uma das inúmeras lojas chinesas (…) mostra sinal de muita movimentação, nas outras lojas, nem por isso. Contudo, todos os estabelecimentos tem algo em comum, grades nas portas e janelas. Infelizmente, é esse o Mindelo dos nossos dias. Grades e mais grades, umas mais discretas, de ferro fino e bem pintadas, outras com ar de terem sido postas à pressa, sem pintura e mal soldadas, devido, talvez, a algum assalto inesperado e outras com desenhos quase barrocos de tão rebuscadas. Mas todas com a mesma intenção, barrar “visitas” indesejáveis. O homem, responsável pela execução das protecções aproxima-se e dirigimo-nos ao estabelecimento vazio. Fico a saber que existem dois tipos de maneiras de fixar grades, “chumbando-as”, ou seja, incrustando-as nas paredes do local, método mais seguro, uma vez que a outra alternativa, com parafusos, não oferece tanta segurança, porque os ladrões fazem o obvio, desaparafusam-nas. Mas há mais, aprendo que a desonestidade, infelizmente, pode estar a tomar lugar do “desenrascar” a vida, algo até há pouco tempo, muito característico desta cidade. No embalo da troca de impressões, pergunto se o prazo de entrega, segunda-feira, pode ser mantido, apesar da pequena modificação solicitada no local e ele responde que não sabe como podem dar um prazo de cinco dias, pois está cheio de outros trabalhos para terminar. Digo-lhe que a pessoa que me atendeu, na empresa, me assegurou que o prazo se cumpriria, tendo sido esse o motivo porque não procurei outras alternativas ou sequer discuti preços. O homem rebate que será bastante difícil e acrescenta que se fosse ele, na sua oficina particular, trabalharia durante o fim de semana e cumpriria o prazo, mas sendo assim, não garante nada, respondo-lhe, quase exaltada, que não garante ele, mas garante a empresa. Segundos de silêncio acontecem, enquanto tento perceber o que se está a passar. Para evitar qualquer tipo de pressão, adianto-lhe que já paguei cinquenta por cento do valor e que me certificarei que o prazo é cumprido. O homem, mais ponderado, ainda pergunta se não estou interessada em fazer prateleiras ou outros moveis interiores, respondo-lhe que só desejo as grades, mas ele insiste e consegue que eu escreva o contacto dele num talão de supermercado, se, por acaso, mudar de ideias. Despedimo-nos friamente e afasto-me reflectindo se será verdade o que se passou ou se terei exagerado a dimensão do facto, depois de tanto sol e espera. Por via das duvidas, telefono para a empresa onde me asseguram que o dia de entrega se mantém, não tendo o operário em questão, nada a haver com o cumprimento de prazos.
Clara Vales
Mindelo, 16 de Novembro de 2001

Obs: As grades estiveram prontas nessa segunda feira, mas a esquadria foi mal feita. Não encaixaram. Devolvi-as, pedi os cinquenta por cento de volta e contactei um particular, não esse, outro.

8.8.06

Descobrir

Não é falta de tempo não, é mais falta de vagar… Mesmo assim não quero deixar de partilhar os últimos sites que me têm entusiasmado! O primeiro é sobre a descoberta curiosa que Darwin fez, na ilha de Santiago, em 1832, logo no início da viagem de exploração que o levaria à volta do mundo, a bordo do H.M.S. Beagle. A jornada durou quatro anos, nove meses e cinco dias e alterou para sempre os horizontes da humanidade. Os outros três dão informações sobre os judeus que se estabeleceram nestas ilhas em duas ocasiões. A primeira vaga, os Cristãos Novos, chegou ao arquipélago pouco depois do seu achamento, entre 1460 e 1497. A segunda vaga, com origem de Marrocos, instalou-se entre 1850 e 1880. Por último a história da colocação dos cabos submarinos no atlântico norte e sul e o papel que a pequena estação telegráfica de “St Vincent” teve. Vale mesmo a pena descobrir…!

17.7.06

Abóboras quentes e Doce d’Jam

Ainda estou a dever o "fim de Daddy Grace” mas... enquanto isso cá vão duas estorias pequeninas de São Cente.

Conheci a Nha T. ainda na Praia, mas foi em São Vicente que com ela privei e aprendi muito sobre o Mindelo de antigamente, especialmente a vida das pessoas mais humildes. Numa dessas conversas de fim de domingo ela contou-me como é que matavam os tubarões que, de vez em quando, resolviam dar o ar de sua graça na Baia… Quando assim acontecia, era dado o alarme e logo um barco partia para o largo, levando a bordo um bidão de água a ferver com umas tantas abóboras lá dentro. Primeiro atraíam os bichos com uma isca ensanguentada e depois deitavam ao mar as abóboras que quando engolidas pelos tubarões os punham a zunir dali para fora com as tripas semi cozinhadas...UI!
Um dia ela falou-me dos produtos ingleses que existiam… talcos, colónias, as pastilhas digestivas, o chocolate Cadbury, o doce d’jam...

- Doce de Jam?- perguntei logo
-Sim! Doce d’jam. Era um doce mut sáb…
- Não Nhá T.… era geleia! Jam na inglês ê géleia, bocê crê dzê géleia…
- Não senhor – respondeu zangada – Doce d’jam ê doce d’jam. Mim conchê geleia mut bem e n’era geleia, era doce d’jam!
“Bem feito pelo atrevimento. Afinal quem me mandou contrariá-la?” pensei condescendente. Mas a Nha T. tinha razão… em inglês geleia diz-se “jelly”. "Jam" será equivalente ao nosso doce tradicional. Quanto muito seria doce d’doce?!? Será? Nesse caso como é que se diz compota? N´tâ lost na translation...

12.7.06

Mindelo Info

Aqui há dias um amigo meu chamou-me a atenção para o facto de, apesar de ter vivido em São Vicente tantos anos ainda não ter escrito nada sobre a ilha. A seu tempo… respondi. Hoje, no meu "esgrôvet" diário pela net, descobri um site (francês) muito interessante sobre o Mindelo. Está em http://www.mindelo.info. Vivi em São Vicente de 1996 a 2003 mas se por acaso quiser saber o que passou na ilha de lá para cá, seja em termos de agenda cultural, acontecimentos de relevo, divulgação de artistas, etc, tenho a impressão encontro tudo ali... e ainda tem um arquivo de 2000 fotos! Gostei.

24.5.06

Meu Mar


São Vicente - Amanhecer na Ponta do Farol da Baía de São Pedro - Abril de 2006

As ondas do meu mar são douradas e a espuma é doce como o mel.
No meu mar há planaltos e vales que são montados de sombra e de luz.
Nele existem aromas mornos e risos húmidos que me embalam
Enquanto as suas marés, sem ciclos e luas, invadem as minhas praias.

10.5.06

"Picnic na Môt Inglês", São Vicente Maio 1957

Na foto pode-se ver: "Tchuna de Café Royal" (meu tio avô), Djinga que foi Guarda Redes do Mindelense, Cacone "negociante d 'Baia", Jorge Fialho que era marítimo e Adriano Gonçalves (Nana), "desempregado" na altura.

5.5.06

Empregadas dos Ingleses - Telégrafo

Fotografia tirada há cerca de oitenta anos em São Vicente. A minha bisavó Nitchinha está assinalada com uma cruz. O homem sentado ao lado do inglês chamava-se Pipi de Cacaia e era o chefe das empregadas.