8.7.06

Sweet Daddy - II

Marcelino Manoel da Graça, natural da Ilha Brava, era um cabo-verdiano e como tal, descendente de africanos e europeus. Não era negro mas também não era branco. Era um “light skin” como os americanos dizem. Isso é importante de se registar se se tiver em conta que o seu aspecto era atraente aos negros americanos que tinham interiorizado o sistema de castas. Também é relevante realçar que, apesar de a grande maioria dos seus seguidores terem sido oriundos dos guetos, onde a segregação racial e a miséria imperavam, o que ele defendia não era uma filosofia africana nacionalista ou mesmo pregava qualquer tipo de doutrina baseada no orgulho de ser africano.
Daddy Grace apelou antes a uma satisfação mais imediata… o estado de euforia, algo que preencheu o vazio emocional dos seus seguidores e lhes permitiu fugir à realidade de uma vida monótona e sem esperança. Auto intitulou-se Bispo e levou os seus fiéis a acreditarem que podia curar doenças e ressuscitar pessoas. Anunciou que era a “Graça do Mundo” e que só ele tinha o poder divino de lhes lavar os pecados… É alias famosa a frase que diz “Daddy Grace has given God a vacation. If you sin against God, Grace can save you, but if you sin against Grace, God can't save you."(!!!)
Apesar de o sucesso de Sweet Daddy Grace se ter apoiado nas necessidades emocionais dos seus seguidores, na ilusão de os encher de “Graça”, a religião, para ele, era baseada na sua própria pessoa. Por isso investiu na sua própria imagem tendo mesmo cultivado um lado excêntrico. Uns dizem que usava um bigode verde, outros duvidam, mas o que é correcto é que a determinada altura usava casacos verdes e púrpura (lembrem-se do ambiente que havia inicio do filme Malcom X e não vai parecer tão estranho) e pintava as unhas (enormes) de azul, vermelho e branco, o que para os fiéis não era mais do que uma prova da sua santidade, uma vez que a bíblia fala de um profeta com cornos crescendo-lhe nas mãos.
Sweet Daddy foi mais longe… criou o sabonete “Daddy Grace” que limpava o corpo, reduzia a gordura ou curava, de acordo com a necessidade de quem usava. Lançou a “Grace Magazine” que quando colocada no peito de uma pessoa que sofria de gripe ou tuberculose, curava. Lançou outros produtos "DG" como café, chá, brilhantina, pó de arroz, biscoitos, etc. Conseguiu implementar uma venda de sucesso com produtos de fé (bandeiras, uniformes elaborados, espadas, bastões de peregrinos, emblemas).
(continua na próxima semana, em 1 ou 2 posts e no fim ponho a bibliografia)

Sweet Daddy Grace - I

Hoje (e em futuros posts) vou tentar contar a história e as muitas estórias de Marcelino Manoel da Graça. Um homem que nasceu nestas ilhas, emigrou para os Estados Unidos e aí criou o seu “American Dream”. Uma figura fantástica!
Charles Manoel Grace, mais conhecido por “Sweet Daddy Grace”, nasceu a 25 de Janeiro de 1881 [1] na ilha Brava. Em 1903 [2] mudou-se, juntamente com a família, para New Bedford, nos Estados Unidos da América, onde trabalhou como merceeiro, vendedor e cozinheiro nos caminhos-de-ferro antes de, em 1919 (mais uma vez, as datas variam), ter fundado o culto/seita chamado “United House of Prayer for All People”. Na América, pouco sabem sobre as suas origens, como muitos líderes religiosos negros da época, Daddy Grace, preferiu manter o passado em águas turvas. Certo é que em 1960, quando faleceu, era um dos negros mais ricos e poderosos da América, dono (só para dar alguns exemplos) de uma mansão de 85 quartos em Los Angeles e de uma frota de Cadillac’s; criador e detentor dos lucros de uma linha de produtos “Daddy Grace” que iam desde cafés, chás, sabonetes, cremes, etc. e líder espiritual, conselheiro e “pai” de cinco milhões e meio de fiéis (dados da própria Igreja). Apesar dos muitos críticos que diziam que ele não passava de uma fraude colossal, no período entre 1940 e 1960, Sweet Daddy foi uma figura de proa entre os negros americanos… um chefe religioso, capaz de arrastar multidões eufóricas e movimentar influencias consideráveis.
O estilo Sweet Daddy foi grandemente influenciado pelos pastores do “sul profundo” da América, que baseavam os seus cultos em ritos pentecostais (do tipo IURD). É interessante de se notar que o apelo “doce” de Daddy Grace não tocou os caboverdeanos-americanos. Com efeito, devia parecer muito estranho à comunidade das ilhas na altura, conhecida por ser tradicionalmente Católica e adversa a cultos religiosos, a maneira evangelista de pregar, baseado na experiência Afro-Americana e a aparência “flamboyante” de Daddy. Mas foi justamente esse estilo e aparência que foi apelativo aos Afro-Americanos.
(continua...)
[1] Outras datas são indicadas nos documentos on line que consultei. Normalmente abrangem os anos 1880 a 1884.
[2] Também aqui as datas variam, havendo documentos que indicam 1900 e outros que dizem início de 1900.

3.7.06

Cabo Verde 1460 - 1996

Para quem gosta de historia recomendo a leitura de "REFERÊNCIAS CRONOLÓGICAS: CABO VERDE/CABOVERDIANOS AMERICANOS". Abrange o "período" compreendido entre o ano de 1460 ao ano de 1996. Muito resumido e interessante. Vale a pena ler!

1.7.06

3 cores e uma cabrinha...


... numa casa em Santiago.

28.6.06

Decada de Noventa na Praia

Estava aqui a lembrar-me do início da década de noventa na Praia. Sabem… quando não havia Internet, telemóveis e até um simples telefonema para São Vicente nos tirava tara… Naquele tempo, não existia RTP ou RDP Africa, para não falar em TV por satélite. Não havia SporTV e não se assistia facilmente os grandes jogos de futebol. Os CD’s começavam a ser de uso corrente, ter um discman… nem tanto e MP3 ou IPOD era coisa por inventar. O sistema operativo mais comum utilizado nos PC´s era o MSDos e as diskettes tinham que ser formatadas. O Palácio do Governo da Várzea ainda estava em construção, serviços eram concentrados no Plateau e toda a gente tinha o hábito de passar pela praça antes de ir para casa. Não existia o Palmarejo e o Meio da Achada era um caos, sem ruas calcetadas mas com muitas casas construídas. Não havia Chinês... Não havia lojas de chineses porta sim, porta sim e o Sucupira imperava. Existia rotura de stocks, a farinha acabava, o pão faltava e fruta importada era quase um “San Jon/Corp d’Deus”. Carro não era para todos, Starlets e Micras não rodavam nas estradas de paralelo. As festas ainda eram feitas com multas e “Zero Horas” era um sabura só! Não havia os Caçu Body mas lembro-me do bando dos terriveis “Netinhos da Vovó”.

Poderia dar outros exemplos, mas não quero cair em saudosismos e comparações com o tempo presente. Lembrava-me apenas porque senti uma pontada de nostalgia pela inocência que existia. Senti saudades do meu grupo de então e da Casa da Tia Nela na Achada de Santo António. Mas isso é matéria para um outro post, não é Betty?

21.6.06

Cabo Verde – Como éramos


Desde que me lembro que tenho um fascínio por fotografias antigas. Os daguerreótipos então impressionam-me com a qualidade excepcional da imagem, do brilho e a tonalidade. Tenho gravado na mente um retrato de uma tia-avó do meu avô Lindorff, que vi há uns anos atrás, em Lisboa… a expressão do olhar, a rigidez da pose, o penteado, a vestimenta elaborada e a nitidez do jardim que serviu de cenário. Um encanto! Gosto tanto de fotografias antigas e amarelecidas pelo tempo, que era para chamar a este blog “Sépia”. Acredito que até as nossas memórias com o tempo ganham essa matiz. Sempre que observo alguém fotografado há muitos anos, recordo-me da cena “Carpe Dien” do filme “Death Poets Society”. Os retratos falam-nos de um tempo que passou, que não volta. Até os nossos próprios retratos falam connosco…

No blog “Mindel na Coraçon” (ver nos meus Links) descobri um link incrível chamado “Colecção Traudi Coli” - http://eyeballs.net/verde/ , com fotografias e daguerreótipos de um Cabo Verde esquecido. São centenas de imagens destas ilhas, dos nossos antepassados e da comunidade cabo-verdiana emigrada nos Estados Unidos. Recomendo… e de passagem não deixem de “clickar” em http://www.ernestina.org , o site do Palhabote "Ernestina”.

(desculpem os 1001 adjectivos deste post… é que o entusiasmo é grande!)

20.6.06

Minineça

Mininus na Portu di Ribera da Barca

15.6.06

Catchorrona e La Llorona

A primeira vez que ouvi falar de Catchorrona foi pela boca de um Santantonense. O Senhor Maurício, homem nascido e criado lá na “Mon pa Trás”, contou-me como foi que numa madrugada deu de caras com uma enorme Catchorrona. Disse-me que tudo aconteceu depois de um baile, para as bandas do Paúl, quando ele, o irmão e o primo faziam a pé o caminho de casa. No meio das palhaçarias de juventude, ele, Maurício, deu-se conta de um enorme vulto cabeludo debruçado numas pedras na “órela” de mar. Quando percebeu que era uma “Catchorrona” por pouco não cuspiu o coração… Felizmente teve o sangue frio de agir em conformidade, perante uma assombração dessa natureza. Sem dizer nada aos companheiros, incentivou-os a cantarem o resto do percurso enquanto que lhes desviava a atenção do local onde a bicha estava. Chegaram a casa inteiros, mesmo porque ele fez questão de não tornar olhar a Catchorrona pelo que ela também não lhes ligou, ocupada que estava a lavar os meninos “trôd”. Se bem me lembro, a versão do Senhor Maurício era que em vida, a Catchorrona tinha sido uma mulher muito bonita e leviana, pelo que foi amaldiçoada com a praga de não encontrar paz eterna enquanto os meninos que tinha abortado não tivessem vingado. Ela tinha particular gosto pelas horas minguadas, aproveitando as águas da rebentação para lavar as crianças e as suas próprias feridas. Foi somente na manhã seguinte, com o sol crã, que ele contou da Carchorrana ao irmão, pois o melhor a fazer quando se cruza com essa maldição é ignora-la, desviando o espírito para sentimentos alegres ou ela encontrará o caminho até á pessoa que a viu, através da tristeza e do medo.
(…)
Uns tempos depois ofereceram-me o “Women Who Run With the Wolves: Myths & Stories About the Wild Woman Archetype” de Clarissa Pinkola Estes (um livro recomendado tanto a "mulheres que correm com os lobos como aos homens que se atrevem a correr com as mulheres que correm com os lobos”) e foi então que fiz uma descoberta interessante… A estória da Catchorrona também existe na América Latina. São tão similares as versões, que chega a ser impressionante. No México, para alem de fazer parte do folclore nacional, ela tem a aparência de uma mulher normal e é (pré)sentida perto de lagos, rios ou lugares ermos. O nome dela é “La Llorona” (a chorona). http://www.lallorona.com/La_index.html é um site, de entre muitos que encontrei na net, que lhe é dedicado. As conclusões e investigações ficam ao vosso critério. Às vezes o que pensamos ser muito nosso, muito nacional… não é!

12.6.06

Anúncio em Chã

Chã das Caldeiras - Ilha do Fogo

7.6.06

Burcã e Burca

Hoje dei conta que há uns dias que não “postava” nada. Sei que uma boa fotografia vale mais que mil palavras... mas mesmo assim queria colocar algo poético. Mas confesso… isto de inspiração ultimamente anda muito mal… por isso tentei procurar um texto na net ao mesmo tempo que ruminava que isto de ter um site só sobre Cabo Verde já me está a parecer muito meloso… enjoativo, eu não sou só isso! Mas esforcei-me, tentei as palavras obvias, “vulcão”, “ilha do fogo”, “erupção”, não gostei dos resumos que li, tentei em inglês, “sleeping volcano”, e outras entradas similares, nada, mas nada do meu agrado, por fim tentei “burcã”…, a palavra assumida pelo motor de busca é “burca”, o traje que as mulheres afegãs são obrigadas a vestir e que as tapa dos pés à cabeça.
...
Hoje descobri que no Afeganistão há o Ministério para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício (não podia ser mais digno de George Orwell ou Aldous Huxley) que classifica as coisas proibidas e impuras da vida. Segue-se a ultima parte do artigo que está no site: www.clipmulher.com.br/clip/clipmulher_UOL_1.htm
...
Ministério para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício
...
(é proibido) Para todos:
...
Porco e derivados, e lagosta
Filmes e fotografias
Videocassetes, televisores e antenas parabólicas
Computadores e Internet
Empinar pipa e jogar xadrez
Mesas de bilhar e fogos de artifício
Criação de pombos e revistas de corte e costura e moda
Bater palmas em eventos esportivos
Cantar e dançar
"Qualquer coisa que difunda o sexo e esteja cheia de música"
...
(é proibido) Para as mulheres:
...
Falar ou rir alto
Andar de bicicleta ou motocicleta
Mostrar os tornozelos
Usar calçados que façam barulho e maquiagem
Sair de casa desacompanhada de um parente (homem)
Freqüentar escola
Falar com homens que não sejam parentes próximos
Trabalhar (com exceção de algumas poucas médicas e enfermeiras)
...
Sinceramente, não sei me rio ou se choro...

31.5.06

Limando arestas

Hoje passei o dia a limar algumas arestas do blog. Refiz os primeiros posts e estive às voltas com a apresentação. As alterações são poucas à primeira vista e ainda assim não está bem o que eu quero. Com o tempo acredito que chegarei lá. Acho que já é possível ler os “Os Almeidas de Praia Branca” (post do dia 11 de Maio) e entender quem é quem. Houve alguns amigos e familiares que se perderam no meio de tantos nomes, “nominhas” e gerações… tive que identificar mais claramente os personagens. Proximamente “postarei” a árvore genealógica dos “Almeida”. Fico por aqui...

29.5.06

"O Primo Constant" e outras recordações da Guiné

"O primo Constant morreu com os pés de fora da cama, de tão grande que foi. Vomitou, em soluços negros, o fígado liquefeito de alguma maleita misteriosa que ninguém da família soube pôr o nome mas que o jovem médico da tropa portuguesa chamou solenemente, ao fim de uma pequena indagação à sua vida passada, de “resquícios da acção do quinino num fígado combalido pelo consumo exacerbado de álcool”. Mas, para o avô Lindorff, o primo querido não poderia ter morrido do “diagnóstico disparatento desse doutorzinho de merda” e acabou que oficialmente e para os anais da família a razão do seu falecimento se deveu a mandioca crua que tinha ingerido horas antes de começar a bolsar uma gosma negra, qual criança acabada de mamar. Quando depois de meia hora e quatro águas gaseificadas percebeu que o refluxo apenas piorava, meteu-se na station e descondongou de Bafatá até Bissau, onde chegou ao anoitecer, com cor de sobra de baguitch bem pangado, pronto para se acabar de desfazer em suor e postas de sangue coagulado, tão perfeitinhas, que mais parecia que paria sanguessugas pela boca. Acabou-se no catre do Hospital Central, tão fino e mirrado que somente os pés desalmados fora da cama, testemunharam o que era seu a seu dono.
Em mil novecentos e setenta e oito, quando a avó Luzia me contou a “estoria” da morte pela mandioca, na cozinha da casa de Bissau, tentando evitar que eu abarbatasse bocadinhos do tubérculo assassino, com a lucidez dos meus sete anos, perguntei-lhe como podia ele, que comeu coisa branca, morrer vomitando coisa preta. Ela acabou por concluir em voz alta, reflectindo se calhar pela primeira vez no assunto, que o fígado do primo depois de viver anos alagado em bebida, ressecara como uma pedra que estala ao sol quente do meio-dia, iniciando daí uma viagem ao mundo exterior, para ver se cá fora, ainda se poderia afogar em vinho de palma. E a mandioca, perguntei de boca cheia, e a mandioca… e a mandioca… respondeu, e sem concluir a frase, enxotou-me para o quintal, onde ainda levei a boca, um último pedaço criminoso.
Mas agora, escrevendo sobre o assunto, ocorre-me que o vinho palma também é branco, enfim, loucuras da minha gente!"
Escrevi este texto em Março de 2004 e somente há tempos tive oportunidade de o dar a conhecer á minha avó Luzia que não perdoou o facto de eu não me ter esquecido da cena da cozinha... Se ela soubesse como as recordações que tenho da minha infância na Guiné me são queridas… Ainda me lembro da sensação de adormecer na carpete da nossa incrível sala de visitas, pintada a quatro cores, onde imperava a enorme estante de mogno cheia de readers digest dos anos 40 e 50 e de bibelots de ocasião, comprados ou nas visitas a Lisboa ou nos Armazéns do Povo. Num canto, entre a segunda janela e o cesto de revistas brasileiras, ficava a pata de elefante oca que eu, às escondidas, me divertia a calçar. Penduradas nas paredes, as cabeças de gazela empalhadas que o tio Carlos tinha mandado de Angola, muito tristes e carunchosas, com os seus olhos de contas de vidrinho e que ainda assim, velavam o meu sono nas horas quentes da sesta… Também não me esqueço dos sofás, de napa vermelha, muito ao estilo anos 50 e da ventoinha do tecto que era ligada quando havia visitas importantes. Vês avó? Se não me lembrar desses detalhes, então não serei eu…

24.5.06

Meu Mar


São Vicente - Amanhecer na Ponta do Farol da Baía de São Pedro - Abril de 2006

As ondas do meu mar são douradas e a espuma é doce como o mel.
No meu mar há planaltos e vales que são montados de sombra e de luz.
Nele existem aromas mornos e risos húmidos que me embalam
Enquanto as suas marés, sem ciclos e luas, invadem as minhas praias.