Fotografia de Miguel Mealha, tirada numa casa em São Filipe, Fogo (aqui reproduzida, com devida vénia). Um fotógrafo com um portfolio fantástico a descobrir. Thanks Teacher.
16.8.06
14.8.06
Descobrir II
Queria deixar duas sugestões de leitura de sites que já se encontram na link list: Cranberry People e Palhabote Ernestina.
1. Aqui, Querino Kenneth Joseph Semedo relata, na primeira pessoa, as memórias da infância e juventude, resgatando do esquecimento o contributo de muitos
caboverdianos anónimos que emigraram para os Estados Unidos, no principio do século passado, e que, trabalhando em condições sub humanas, ajudaram a construir, com a força das mãos, as plantações de arando* (cranberry). Uma narração tocante sobre a vida de pessoas que, apesar de chamarem a Cabo Verde “old coutry”, mantiveram as suas raízes e ajudaram familiares nas ilhas mesmo debaixo de muitas dificuldades. Uma lição do passado de quem, em terra estranha celebrou o “Mastro de St. Johns”, “Canta Reis”, mas ainda assim, sobreviveu e integrou-se.
1. Aqui, Querino Kenneth Joseph Semedo relata, na primeira pessoa, as memórias da infância e juventude, resgatando do esquecimento o contributo de muitos
caboverdianos anónimos que emigraram para os Estados Unidos, no principio do século passado, e que, trabalhando em condições sub humanas, ajudaram a construir, com a força das mãos, as plantações de arando* (cranberry). Uma narração tocante sobre a vida de pessoas que, apesar de chamarem a Cabo Verde “old coutry”, mantiveram as suas raízes e ajudaram familiares nas ilhas mesmo debaixo de muitas dificuldades. Uma lição do passado de quem, em terra estranha celebrou o “Mastro de St. Johns”, “Canta Reis”, mas ainda assim, sobreviveu e integrou-se. (*: A tradução de cranberry para português é arando. É uma fruta pequenina, vermelha, de sabor acido e da mesma família que o mirtilo e a groselha. É comercializada sob diversas formas, fresca, em sumo, xaropes, cristalizada e passada e nas diversas variedades de doce.)
2. O Palhabote Ernestina… O nosso Ernestina, veleiro que ainda navega no imaginário fantástico de muitos, não é Paulino? Construído em Massachussetts e baptizado com o nome de
Effie M. Morrisey, é lançado ao mar no dia 1 Fevereiro de 1894. Foi dos últimos veleiros a levar emigrantes para a América, já sob o nome de Ernestinana e é oferecido aos Estados Unidos por Cabo Verde em 1982. Um veleiro cheio de historia e estórias a descobrir e que antes de ser comprado por Henrique Mendes, desempenhou o seu papel na II grande guerra, esteve ao serviço da Smithsonian em missão expedicionária, quebrou recordes de velocidade e efectuou viagens de exploração ao ártico. Quando se tornou Ernestina, em 1947, fez ligações regulares entre Cabo Verde e os Estados Unidos até 1965, ano em que passou a navegar somente entre as ilhas. O resto, a saga dos que comandaram e viajaram nele, deixo à vossa descoberta. Um site magnifico, completo e com fotografias fabulosas.
Effie M. Morrisey, é lançado ao mar no dia 1 Fevereiro de 1894. Foi dos últimos veleiros a levar emigrantes para a América, já sob o nome de Ernestinana e é oferecido aos Estados Unidos por Cabo Verde em 1982. Um veleiro cheio de historia e estórias a descobrir e que antes de ser comprado por Henrique Mendes, desempenhou o seu papel na II grande guerra, esteve ao serviço da Smithsonian em missão expedicionária, quebrou recordes de velocidade e efectuou viagens de exploração ao ártico. Quando se tornou Ernestina, em 1947, fez ligações regulares entre Cabo Verde e os Estados Unidos até 1965, ano em que passou a navegar somente entre as ilhas. O resto, a saga dos que comandaram e viajaram nele, deixo à vossa descoberta. Um site magnifico, completo e com fotografias fabulosas.10.8.06
Relíquias de C'mád Lígia
… e tudo funciona! Os candeeiros têm tido uso nestes últimos dois meses (ai Electra!) e há uns tempos atrás, comi um arroz malandro excelente que o Cumpad Tito preparou no fogão Primo.(Obs: Quem sabe sabe... chamaram-me a atenção que não é Fogão Primo mas sim Primus. Já agora, a marca ainda existe e o modelo actualizado é comercializado.)
8.8.06
Descobrir
Não é falta de tempo não, é mais falta de vagar… Mesmo assim não quero deixar de partilhar os últimos sites que me têm entusiasmado! O primeiro é sobre a descoberta curiosa que Darwin fez, na ilha de Santiago, em 1832, logo no início da viagem de exploração que o levaria à volta do mundo, a bordo do H.M.S. Beagle. A jornada durou quatro anos, nove meses e cinco dias e alterou para sempre os horizontes da humanidade. Os outros três dão informações sobre os judeus que se estabeleceram nestas ilhas em duas ocasiões. A primeira vaga, os Cristãos Novos, chegou ao arquipélago pouco depois do seu achamento, entre 1460 e 1497. A segunda vaga,
com origem de Marrocos, instalou-se entre 1850 e 1880. Por último a história da colocação dos cabos submarinos no atlântico norte e sul e o papel que a pequena estação telegráfica de “St Vincent” teve. Vale mesmo a pena descobrir…!
com origem de Marrocos, instalou-se entre 1850 e 1880. Por último a história da colocação dos cabos submarinos no atlântico norte e sul e o papel que a pequena estação telegráfica de “St Vincent” teve. Vale mesmo a pena descobrir…!
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3.8.06
1.8.06
Flôr da Revolução
Costumo dizer que nada como um bom “sgrovêt” na net para se aprender e descobrir (a minha vénia aos motores de busca… a meu ver, uma das maiores invenções desta era). Gosto de historia e gosto ainda mais de descobrir e saber sobre Cabo Verde. Eu não nasci cá assim como os meus pais. Mas os meus avós são destas ilhas, saíram do Fogo, da Praia e São Vicente no fim da década de quarenta. O meu regresso a casa e ao passado tem sido feito desde 1990, ano em que vim morar para Cabo Verde, e acreditem, não tenho parado de chegar… Eu sou da Guine Bissau, nasci “papel” e aos cinco anos aprendi que era uma flor da nossa revolução. Andei no Jardim Nhima Sanhá onde a professora Júlia me ensinou que os tugas pretos mataram Cabral, para resmunguice do meu avô Lindorff e risota dos meus pais. Ensinaram-me as doidas doidas doidas andam as galinhas ao mesmo tempo que aprendia a desenhar o P, o A, o I, o G e o C. Picotei muito sapo verde e bandeira de Guiné Cabo Verde em papel de lustro. Só comecei a sentir que alguma coisa não estava bem quando, depois do golpe de 1980, me disseram “brumedju ríba bu téra”. Que terra? Foi somente aí que compreendi que afinal éramos caboverdeanos… Eu que comi muito doce Titina Silá, bebi leite Blufo, eu que visitei a Cicer, a Granja e gritava Nhaeee quando os citroen passavam, afinal eu não era de lá! Apesar do esmero da minha educação revolucionária (á medida da Guiné de setenta) conforme os anos foram passando eu fui desconfiando… alguma coisa não batia. Passei a adolescência em Portugal, sempre desenraizada e quando cheguei a Cabo Verde... foi uma descoberta! Havia uma nova revolução, o homem novo dava lugar ao homem democrático ao mesmo tempo que eu me apercebia que havia toda uma história de um povo que existia para lá do ano de 1975… e desde aí não tenho parado de perguntar e perguntar. Afinal há muitas gerações que deixamos de ser descendentes de escravos e da arraia europeia. Tornamo-nos caboverdeanos nas secas, quando as classes compreenderam que não sobreviveriam nestas ilhas perdidas no meio do mar sem entreajuda... e estamos só de passagem, outras gerações virão.
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24.7.06
Creolo em 1881
No século XIX já creolo despertava interesse. A imagem ao lado é a capa de um livro publicado em 1881. É interessante descobrir que na altura se sabia da existência das diversas variantes espalhadas pela “Africa, Ásia e América”. Fica um pequeno excerto, muito actual, em termos de sotaque e malcriadeza. “ (...) Duco era un préso que staba na calabôs; ê entendê mê câ stába là sábe, ê fugi êle cû dôs companheros; ô stâ riba cháda; tâ mátâ cábra, tâ forçâ mujéres, tâ fazê tudo casta di poaca borgonha. (...)". 23.7.06
Daddy Grace - Fim
Já tinha ouvido falar de Daddy Grace, mas o que me surpreendeu quando fiz a pesquisa na internet, foi o facto de ele ter ido para os Estados Unidos já homem feito. Apesar das datas não serem certas, teria no mínimo 18 e no máximo uns 22 anos. Cresceu na Brava! Deve ter feito pelo menos a 4ª Classe, falava português, crioulo e acredito que devia saber uma palavra ou outra de Francês. Chega a New Bedford e absorve uma cultura totalmente diferente, separa-se da comunidade caboverdena, sobrevive e constrói o sonho americano baseado na palavra e na fé que proclama. Independentemente de ter utilizado caminhos bastante questionáveis, achei um percurso de vida muito interessante. Mas… ainda hoje, se se perguntar aos mais velhos da sua ilha natal quem foi ele é se capaz de ouvir algo semelhante a “... um aldrabãozinho qui inganá um data di preto lá na Merca”. Eu ouvi.
Sweet Daddy Grace, que declarou que Deus tinha ido para a América no corpo dele e que se Moisés viesse á terra novamente teria seguir a ele, foi audacioso em muitos aspectos. Foi o primeiro a introduzir uma orquestra de sopro nos cultos, orquestra essa que existe até hoje – Sweet Heaven Kings – e numa época em que o máximo que os Yankees poderiam conhecer sobre os caboverdianos era o de serem bons serviçais, comprou, em plena zona aristocrática de New Bedford, uma velha mansão de um magnata da pesca da baleia e mandou pinta-la de Vermelho, Branco e Azul, como as unhas.
Por tudo isso e pelo muito, mas muito mesmo, que ficou por dizer sobre os rituais da igreja que fundou, as implicações sociais, a fortuna (e as dividas) que deixou e o lugar que ocupa na historia recente da América, junto a outros grandes lideres espirituais afro-americanos... por tudo isso, é uma figura que merece ser conhecida. Tanto mais que, da primeira parte do percurso dele, a vida em Cabo Verde, pouco ou nada se sabe (nos documentos on line).
Para quem quiser consultar a bibliografia e outros documentos com informações sobre os rituais, influências e estrutura da United House of Prayer for All People é só clicar em comentários, estão lá todos os links.
17.7.06
Abóboras quentes e Doce d’Jam
Ainda estou a dever o "fim de Daddy Grace” mas... enquanto isso cá vão duas estorias pequeninas de São Cente.
Conheci a Nha T. ainda na Praia, mas foi em São Vicente que com ela privei e aprendi muito sobre o Mindelo de antigamente, especialmente a vida das pessoas mais humildes. Numa dessas conversas de fim de domingo ela contou-me como é que matavam os tubarões que, de vez em quando, resolviam dar o ar de sua graça na Baia… Quando assim acontecia, era dado o alarme e logo um barco partia para o largo, levando a bordo um bidão de água a ferver com umas tantas abóboras lá dentro. Primeiro atraíam os bichos com uma isca ensanguentada e depois deitavam ao mar as abóboras que quando engolidas pelos tubarões os punham a zunir dali para fora com as tripas semi cozinhadas...UI!
Um dia ela falou-me dos produtos ingleses que existiam… talcos, colónias, as pastilhas digestivas, o chocolate Cadbury, o doce d’jam...
- Doce de Jam?- perguntei logo
-Sim! Doce d’jam. Era um doce mut sáb…
- Não Nhá T.… era geleia! Jam na inglês ê géleia, bocê crê dzê géleia…
- Não senhor – respondeu zangada – Doce d’jam ê doce d’jam. Mim conchê geleia mut bem e n’era geleia, era doce d’jam!
“Bem feito pelo atrevimento. Afinal quem me mandou contrariá-la?” pensei condescendente. Mas a Nha T. tinha razão… em inglês geleia diz-se “jelly”. "Jam" será equivalente ao nosso doce tradicional. Quanto muito seria doce d’doce?!? Será? Nesse caso como é que se diz compota? N´tâ lost na translation...
Conheci a Nha T. ainda na Praia, mas foi em São Vicente que com ela privei e aprendi muito sobre o Mindelo de antigamente, especialmente a vida das pessoas mais humildes. Numa dessas conversas de fim de domingo ela contou-me como é que matavam os tubarões que, de vez em quando, resolviam dar o ar de sua graça na Baia… Quando assim acontecia, era dado o alarme e logo um barco partia para o largo, levando a bordo um bidão de água a ferver com umas tantas abóboras lá dentro. Primeiro atraíam os bichos com uma isca ensanguentada e depois deitavam ao mar as abóboras que quando engolidas pelos tubarões os punham a zunir dali para fora com as tripas semi cozinhadas...UI!
Um dia ela falou-me dos produtos ingleses que existiam… talcos, colónias, as pastilhas digestivas, o chocolate Cadbury, o doce d’jam...

- Doce de Jam?- perguntei logo
-Sim! Doce d’jam. Era um doce mut sáb…
- Não Nhá T.… era geleia! Jam na inglês ê géleia, bocê crê dzê géleia…
- Não senhor – respondeu zangada – Doce d’jam ê doce d’jam. Mim conchê geleia mut bem e n’era geleia, era doce d’jam!
“Bem feito pelo atrevimento. Afinal quem me mandou contrariá-la?” pensei condescendente. Mas a Nha T. tinha razão… em inglês geleia diz-se “jelly”. "Jam" será equivalente ao nosso doce tradicional. Quanto muito seria doce d’doce?!? Será? Nesse caso como é que se diz compota? N´tâ lost na translation...
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São Vicente
12.7.06
Mindelo Info
Aqui há dias um amigo meu chamou-me a atenção para o facto de, apesar de ter vivido em São Vicente tantos anos ainda não ter escrito nada sobre a ilha. A seu tempo… respondi. Hoje, no meu "esgrôvet" diário pela net, descobri um site (francês) muito interessante sobre o Mindelo. Está em http://www.mindelo.info. Vivi em São Vicente de 1996 a 2003 mas se por acaso quiser saber o que passou na ilha de lá para cá, seja em termos de agenda cultural, acontecimentos de relevo, divulgação de artistas, etc, tenho a impressão encontro tudo ali... e ainda tem um arquivo de 2000 fotos! Gostei.
8.7.06
Gentes de um lugar chamado New Bedford
Já sabem da minha paixão por fotografias antigas... enquanto pesquisava imagens de Daddy Grace encontrei estas fotos no site: http://www.s-t.com/daily/02-97/02-02-97/a11lo052.htm. Vale a pena "clicar" e ler as legendas das fotografias.
Sweet Daddy - II
Marcelino Manoel da Graça, natural da Ilha Brava, era um cabo-verdiano e como tal, descendente de africanos e europeus. Não era negro mas também não era branco. Era um “light skin” como os americanos dizem. Isso é importante de se registar se se tiver em conta que o seu aspecto era atraente aos negros americanos que tinham interiorizado o sistema de castas. Também é relevante realçar que, apesar de a grande maioria dos seus seguidores terem sido oriundos dos guetos, onde a segregação racial e a miséria imperavam, o que ele defendia não era uma filosofia africana nacionalista ou mesmo pregava qualquer tipo de doutrina baseada no orgulho de ser africano.
Daddy Grace apelou antes a uma satisfação mais imediata… o estado de euforia, algo que preencheu o vazio emocional dos seus seguidores e lhes permitiu fugir à realidade de uma vida monótona e sem esperança. Auto intitulou-se Bispo e levou os seus fiéis a acreditarem que podia curar doenças e ressuscitar pessoas. Anunciou que era a “Graça do Mundo” e que só ele tinha o poder divino de lhes lavar os pecados… É alias famosa a frase que diz “Daddy Grace has given God a vacation. If you sin against God, Grace can save you, but if you sin against Grace, God can't save you."(!!!)
Apesar de o sucesso de Sweet Daddy Grace se ter apoiado nas necessidades emocionais dos seus seguidores, na ilusão de os encher de “Graça”, a religião, para ele, era baseada na sua própria pessoa. Por isso investiu na sua própria imagem tendo mesmo cultivado um lado excêntrico. Uns dizem que usava um bigode verde, outros duvidam, mas o que é correcto é que a determinada altura usava casacos verdes e púrpura (lembrem-se do ambiente que havia inicio do filme Malcom X e não vai parecer tão estranho) e pintava as unhas (enormes) de azul, vermelho e branco, o que para os fiéis não era mais do que uma prova da sua santidade, uma vez que a bíblia fala de um profeta com cornos crescendo-lhe nas mãos.
Sweet Daddy foi mais longe… criou o sabonete “Daddy Grace” que limpava o corpo, reduzia a gordura ou curava, de acordo com a necessidade de quem usava. Lançou a “Grace Magazine” que quando colocada no peito de uma pessoa que sofria de gripe ou tuberculose, curava. Lançou outros produtos "DG" como café, chá, brilhantina, pó de arroz, biscoitos, etc. Conseguiu implementar uma venda de sucesso com produtos de fé (bandeiras, uniformes elaborados, espadas, bastões de peregrinos, emblemas).
(continua na próxima semana, em 1 ou 2 posts e no fim ponho a bibliografia)
Daddy Grace apelou antes a uma satisfação mais imediata… o estado de euforia, algo que preencheu o vazio emocional dos seus seguidores e lhes permitiu fugir à realidade de uma vida monótona e sem esperança. Auto intitulou-se Bispo e levou os seus fiéis a acreditarem que podia curar doenças e ressuscitar pessoas. Anunciou que era a “Graça do Mundo” e que só ele tinha o poder divino de lhes lavar os pecados… É alias famosa a frase que diz “Daddy Grace has given God a vacation. If you sin against God, Grace can save you, but if you sin against Grace, God can't save you."(!!!)
Apesar de o sucesso de Sweet Daddy Grace se ter apoiado nas necessidades emocionais dos seus seguidores, na ilusão de os encher de “Graça”, a religião, para ele, era baseada na sua própria pessoa. Por isso investiu na sua própria imagem tendo mesmo cultivado um lado excêntrico. Uns dizem que usava um bigode verde, outros duvidam, mas o que é correcto é que a determinada altura usava casacos verdes e púrpura (lembrem-se do ambiente que havia inicio do filme Malcom X e não vai parecer tão estranho) e pintava as unhas (enormes) de azul, vermelho e branco, o que para os fiéis não era mais do que uma prova da sua santidade, uma vez que a bíblia fala de um profeta com cornos crescendo-lhe nas mãos.
Sweet Daddy foi mais longe… criou o sabonete “Daddy Grace” que limpava o corpo, reduzia a gordura ou curava, de acordo com a necessidade de quem usava. Lançou a “Grace Magazine” que quando colocada no peito de uma pessoa que sofria de gripe ou tuberculose, curava. Lançou outros produtos "DG" como café, chá, brilhantina, pó de arroz, biscoitos, etc. Conseguiu implementar uma venda de sucesso com produtos de fé (bandeiras, uniformes elaborados, espadas, bastões de peregrinos, emblemas).
(continua na próxima semana, em 1 ou 2 posts e no fim ponho a bibliografia)
Sweet Daddy Grace - I
Hoje (e em futuros posts) vou tentar contar a história e as muitas estórias de Marcelino Manoel da Graça. Um homem que nasceu nestas ilhas, emigrou para os Estados Unidos e aí criou o seu “American Dream”. Uma figura fantástica!Charles Manoel Grace, mais conhecido por “Sweet Daddy Grace”, nasceu a 25 de Janeiro de 1881 [1] na ilha Brava. Em 1903 [2] mudou-se, juntamente com a família, para New Bedford, nos Estados Unidos da América, onde trabalhou como merceeiro, vendedor e cozinheiro nos caminhos-de-ferro antes de, em 1919 (mais uma vez, as datas variam), ter fundado o culto/seita chamado “United House of Prayer for All People”. Na América, pouco sabem sobre as suas origens, como muitos líderes religiosos negros da época, Daddy Grace, preferiu manter o passado em águas turvas. Certo é que em 1960, quando faleceu, era um dos negros mais ricos e poderosos da América, dono (só para dar alguns exemplos) de uma mansão de 85 quartos em Los Angeles e de uma frota de Cadillac’s; criador e detentor dos lucros de uma linha de produtos “Daddy Grace” que iam desde cafés, chás, sabonetes, cremes, etc. e líder espiritual, conselheiro e “pai” de cinco milhões e meio de fiéis (dados da própria Igreja). Apesar dos muitos críticos que diziam que ele não passava de uma fraude colossal, no período entre 1940 e 1960, Sweet Daddy foi uma figura de proa entre os negros americanos… um chefe religioso, capaz de arrastar multidões eufóricas e movimentar influencias consideráveis.
O estilo Sweet Daddy foi grandemente influenciado pelos pastores do “sul profundo” da América, que baseavam os seus cultos em ritos pentecostais (do tipo IURD). É interessante de se notar que o apelo “doce” de Daddy Grace não tocou os caboverdeanos-americanos. Com efeito, devia parecer muito estranho à comunidade das ilhas na altura, conhecida por ser tradicionalmente Católica e adversa a cultos religiosos, a maneira evangelista de pregar, baseado na experiência Afro-Americana e a aparência “flamboyante” de Daddy. Mas foi justamente esse estilo e aparência que foi apelativo aos Afro-Americanos.
(continua...)
[1] Outras datas são indicadas nos documentos on line que consultei. Normalmente abrangem os anos 1880 a 1884.
[1] Outras datas são indicadas nos documentos on line que consultei. Normalmente abrangem os anos 1880 a 1884.
[2] Também aqui as datas variam, havendo documentos que indicam 1900 e outros que dizem início de 1900.
3.7.06
Cabo Verde 1460 - 1996
Para quem gosta de historia recomendo a leitura de "REFERÊNCIAS CRONOLÓGICAS: CABO VERDE/CABOVERDIANOS AMERICANOS". Abrange o "período" compreendido entre o ano de 1460 ao ano de 1996. Muito resumido e interessante. Vale a pena ler!
1.7.06
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