Agora que voltei de ferias, estava aqui a admirar a fotografia do post anterior e a “matar” saudades! Interessante… só agora reparei que a imagem já é testemunho, um documento histórico. Com efeito, os antigos armazéns da EMPA (e posteriormente local onde funcionou o celebre Porão) já não existem. Hoje há Praça D. Luís… Contudo fiquei com a impressão que os Mindelenses ainda não abraçaram o novo espaço mesmo em frente á baía… Será pela falta de sombra e outras coisas mais? Para ver mais detalhes e só clicar na imagem.
9.10.06
13.9.06
Port Praya, Cape Verde 1838

Acreditem ou não, só reparei que as duas imagens eram iguais depois de as colocar uma em cima da outra. Contudo, a primeira é um desenho a tinta (fabuloso tom de sépia que ganhou com os anos) e a segunda é uma gravura (detalhes mais claros) feita a partir do desenho. A autoria é atribuída a Charles Wilkes e a data é 1838.Charles Wilkes foi o homem que comandou uma expedição de seis navios dos Estados Unidos que, em Agosto de 1838 deixaram Norfolk, na Virgínia para uma expedição no Pacifico Sul. A missão era para explorar as ilhas dessa região, investigar o potencial em termos de comércio e enfatizar o poder da América. Passaram por estas ilhas logo no início da viagem. Para descobrir mais é só clicar no título do post.
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11.9.06
Prelúdio
Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.
Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.
E a vegetação
cuja sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.
Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada
e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.
Jorge Barbosa
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.
Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.
E a vegetação
cuja sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.
Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada
e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.
Jorge Barbosa
7.9.06
Mapas Antigos de Cabo Verde
É interessante reparar como ao longo dos séculos a percepção da distribuição das ilhas foi evoluindo. Para mais detalhes sobre os mapas é só clicar em comentário.
6.9.06
Mindelo há cinco anos - II
Transcrevo outro texto de "Clara Vales" porque penso que é um tema actual. O meu único reparo vai para o tamanho da crónica. Se fosse hoje diria tudo com metade das palavras.
Nem capitães nem segurança
Nem capitães nem segurança
Há dias, dois meninos da “praia d’bote” surripiaram-me o porta moedas. Nada de mais a acrescentar, apenas mais um que foi à vida. O problema, propriamente dito, não está no roubo, o busílis da questão esta no facto de, os piratinhas terem sabido como agir. Enquanto um me distraía, esmolando para um pão, o outro subtraia-me a carteira. Pois é, temos bando, temos organização e temos esquema!
Uma senhora que, no local, presenciou a minha estupefacção, confidenciou-me que os dois fazem parte de um grupo conhecido, cerca de dez, que ciclicamente, percorrem a Rua da Praia, fazendo pequenos furtos, desaparecendo estrategicamente até ao dia seguinte. Informou-me que são conhecidos da Policia e aconselhou-me a pedir-lhes auxílio.
Esperançosa, dirigi-me ao Comando, onde fui prontamente ouvida com todo o profissionalismo. Os polícias presentes, estiveram atentos até ao momento em que perceberam que a minha “estória” era apenas mais uma a acrescentar a tantas outras, se calhar, ouvidas quotidianamente. Pacientemente, fui convidada, por um dos agentes, a ver uma série de fotografias a preto e branco, guardadas cuidadosamente, dentro de uma pequena caixa de papelão, e proceder à identificação do par.
Examinei cerca de cinquenta fotos, divididas, basicamente, em três idades. A dos adolescentes, com olhar revoltado e queixo tenso, a dos “aborrecentes”, fazendo cara de não me importa e a dos mais pequenos, em poses ingénuas e semblante malandro. Reconheci imediatamente quatro ou cinco rapazes, do bando que ronda as imediações de um supermercado que frequento e onde, na maior parte das vezes, pedem uma moeda a troco de nada. Quase todas as fotografias estavam manuscritas no verso com um ou dois nomes, apelidos de pai e mãe e os respectivos nominhas, como “Springuintin” ou “Coxim”.
No meio dessas fotos, mais parecendo pertencer a uma caixa de uma década anterior, havia uma “carinha” muito particular. A fotografia, bastante amarelada, exibia um homem que fixava a câmara passivamente e cujo penteado “black” aliado a um sulco que lhe dividia copiosamente a melena, quase me fez sorrir. No verso lia-se “Rob d’ Jula” a duas letras e tintas distintas. Alguma mão mais ciosa corrigira após a primeira identificação, o nome mal escrito, pois que um A despudorado cobria o IA feito pelo primeiro punho e dois EE tinham sido mascarados por uma borracha de tinta. Nada de enganos, Rob d’ Jula e não Robe de Júlia! O que faria essa figura “lendária” no meio das outras? Deduzi que talvez, alguém menos atento, no momento de a guardar novamente, após alguma identificação apressada, se tivesse enganado na caixa. Não acredito que tenha pensado que bandidos são bandidos, e piratinhas serão ladrões, pelo que o melhor é estarem bem acompanhados e terem no meio deles uma figura mais paterna, mesmo que, isso signifique acabar por confundi-los a todos e aos seus crimes, pois quem de pequeno, faz furto, quando crescer, cometerá roubos, arrombamentos, desvios e violações, que isto de crimes é sempre a subir.
Acabei por identificar apenas um dos rapazes, mas ainda assim com pouca certeza, afinal, não me tinha dado ao trabalho de fixar os traços do meu “pedinte”. Segui o conselho do agente, fui-me embora, ficando de regressar no fim do expediente para saber como estava o andamento do caso.
De regresso à minha rotina habitual, se sem saber como, veio-me à mente o livro “Capitães de Areia”. As hipóteses de recuperar o porta moedas eram quase nulas e deve ter sido essa a forma que o meu inconsciente encontrou para, tranquilamente, pôr uma pedra sobre o assunto, e fugir às implicações reais do acontecido.
Mas confesso… não Há Jorge Amado ou actos vistos à luz de um prisma mais poético que mascare o atordoamento que ainda sinto quando recordo o meu regresso ao Comando da POP.
Devido ao adiantado da hora, foi na rua que falei com o agente à paisana encarregue do meu caso. O policia, ao volante do carro das diligências e, ao mesmo tempo que ia fazendo mil e um malabarismos para estacionar, mesmo colado à parede lateral do comando, com o fito de barrar o acesso de uma das portas da viatura com o vidro escangalhado, informava-me que não, não havia novidades, que regressasse amanhã porque eles, quando roubavam, subiam a Ribeira Bote de onde não desciam até terem comido, bebido e fumado todo o dinheiro. Eu, sem nenhuma esperança no que toca a porta moedas mas, ainda assim, admirada com tanta perícia, perguntei o porquê de tantas manobras, se ele não era policia, se não estávamos nas imediações do Comando da ilha, ao que o agente respondeu a meio tom… “mais ou menos”.
Se a policia que é Policia, tem de defender o património com que trabalha, neste caso, um carro sovado e maltratado, como nos pode defender a nós, cidadãos que procuramos e esperamos protecção em situações idênticas?
Quem responde por esses menores que, pela lei, não podem ser responsabilizados pelos actos que cometem? Se eles têm nomes e apelidos, foram registados, têm pai e mãe. Os pais ou encarregados de educação que sejam responsabilizados. É fácil cair no erro de os transformar em Capitães da Praia de Bote, mas o que é certo é que eles vão crescer.
Quanto a mim, tenho-me esforçado, mas até agora, não me vem à memória nenhum livro de Jorge Amado ou outro autor, que me faça pôr uma pedra sobre o assunto e dormir tranquila com a visão romântica de bandos de Rob d’ Jula a pulular estas ilhas.
Clara Vales
Outubro de 2001
Pois é… eles cresceram e já não há poesia ou desprendimento que aguente tanta afronta!
4.9.06
1.9.06
Salah Matteos
Não há dia em que eu não faça uma pesquisa na net que não descortine coisas interessantes. Sobre o mundo, sobre Cabo Verde e, principalmente, sobre a visão que as pessoas têm sobre determinados assuntos. Nem sempre concordo, mas é absolutamente fascinante descobrir essas opiniões. Hoje encontrei este site: http://www.multiculturas.com/vb-salah.htm e deparei-me com Mr. Salah Matteos. Um americano descendente de caboverdeanos com um percurso de vida extraordinário. A ler e a reflectir, concordando-se ou não. Deixo aqui um pequeno trecho, a título de curiosidade e também, para lançar uma acha à fogueira.
“I would like to bring something else to your attention; one of the ancient names of the archipelago called Cabo Verde was called by many of the elders AZIJAH that is in part African Arab tongue. AZIJAH means the mighty Power of God. The prefix Aziz means Power or the Precious of God. The Djah or Jah or Dia means God or Allah or Deus all are the same. Jah is the suffix. The two words together form AZIJAH, which again is to say The Mighty Power Of God or the PRECIOUS of God. The Creole (pidgin) is Guinea Arab Africa, Portuguese and other variables in terms of other languages. For example the late Dr. Amílcar Lopes Cabral (aka) was ABEL-Djassi or Djhassi, which meant the servant or God, Abel meaning servant and Jah in its variables meaning God or Deus or Allah as you wish.”
“I would like to bring something else to your attention; one of the ancient names of the archipelago called Cabo Verde was called by many of the elders AZIJAH that is in part African Arab tongue. AZIJAH means the mighty Power of God. The prefix Aziz means Power or the Precious of God. The Djah or Jah or Dia means God or Allah or Deus all are the same. Jah is the suffix. The two words together form AZIJAH, which again is to say The Mighty Power Of God or the PRECIOUS of God. The Creole (pidgin) is Guinea Arab Africa, Portuguese and other variables in terms of other languages. For example the late Dr. Amílcar Lopes Cabral (aka) was ABEL-Djassi or Djhassi, which meant the servant or God, Abel meaning servant and Jah in its variables meaning God or Deus or Allah as you wish.”
29.8.06
Mindelo há cinco anos
O ano de 2001 era para ser o ano em que eu me tornaria empresária! Bom… dona de butik para ser mais exacta. Deu tudo errado! Claro que, para quem me conhece bem, isso não foi novidade nenhuma. Na altura, apesar dos avisos resolvi embarcar na aventura. Para cúmulo dos cúmulos, abri o Balão Mágico, loja de roupas infantis, quando o boom das lojas chinesas estava a rebentar em São Vicente. Resumindo… pouca venda e falência em 11 meses! No fim restou-me a consolação de saber que não nasci para ser dona de butik. Na mesma altura, e sob o nome de Clara Vales, assinei, durante uns poucos meses, uma coluna no Jornal Terra Nova. É uma dessas pequenas crónicas que vou aqui transcrever. Penso que, apesar de se terem passado cinco anos, o tema é actual e, ao mesmo tempo, fala dessa cidade onde eu vivi muitos anos, o Mindelo. A crónica chamava-se…
Desenrascado ou Desonesto?
Sol a pique. O homem está atrasado. Dou-lhe desconto, é hora da ponta. No alcatrão da Baltazar Lopes da Silva, carros cruzam-se em situação de semi tráfego. Condutores e acompanhantes, olham-me com curiosidade fugidia, enquanto rumam a casa, à hora do almoço. Na esquina, aguento mais cinco minutos, antes de agarrar o telemóvel e saber o motivo do atraso. Do outro lado, a senhora explica que se esqueceu de o avisar, mas que fique tranquila, ele já se encontra a caminho. Preparo-me para mais um quarto de hora de espera e aproveito para observar o movimento dos estabelecimentos debaixo do calor do meio dia. Mesmo em frente, uma das inúmeras lojas chinesas (…) mostra sinal de muita movimentação, nas outras lojas, nem por isso. Contudo, todos os estabelecimentos tem algo em comum, grades nas portas e janelas. Infelizmente, é esse o Mindelo dos nossos dias. Grades e mais grades, umas mais discretas, de ferro fino e bem pintadas, outras com ar de terem sido postas à pressa, sem pintura e mal soldadas, devido, talvez, a algum assalto inesperado e outras com desenhos quase barrocos de tão rebuscadas. Mas todas com a mesma intenção, barrar “visitas” indesejáveis. O homem, responsável pela execução das protecções aproxima-se e dirigimo-nos ao estabelecimento vazio. Fico a saber que existem dois tipos de maneiras de fixar grades, “chumbando-as”, ou seja, incrustando-as nas paredes do local, método mais seguro, uma vez que a outra alternativa, com parafusos, não oferece tanta segurança, porque os ladrões fazem o obvio, desaparafusam-nas. Mas há mais, aprendo que a desonestidade, infelizmente, pode estar a tomar lugar do “desenrascar” a vida, algo até há pouco tempo, muito característico desta cidade. No embalo da troca de impressões, pergunto se o prazo de entrega, segunda-feira, pode ser mantido, apesar da pequena modificação solicitada no local e ele responde que não sabe como podem dar um prazo de cinco dias, pois está cheio de outros trabalhos para terminar. Digo-lhe que a pessoa que me atendeu, na empresa, me assegurou que o prazo se cumpriria, tendo sido esse o motivo porque não procurei outras alternativas ou sequer discuti preços. O homem rebate que será bastante difícil e acrescenta que se fosse ele, na sua oficina particular, trabalharia durante o fim de semana e cumpriria o prazo, mas sendo assim, não garante nada, respondo-lhe, quase exaltada, que não garante ele, mas garante a empresa. Segundos de silêncio acontecem, enquanto tento perceber o que se está a passar. Para evitar qualquer tipo de pressão, adianto-lhe que já paguei cinquenta por cento do valor e que me certificarei que o prazo é cumprido. O homem, mais ponderado, ainda pergunta se não estou interessada em fazer prateleiras ou outros moveis interiores, respondo-lhe que só desejo as grades, mas ele insiste e consegue que eu escreva o contacto dele num talão de supermercado, se, por acaso, mudar de ideias. Despedimo-nos friamente e afasto-me reflectindo se será verdade o que se passou ou se terei exagerado a dimensão do facto, depois de tanto sol e espera. Por via das duvidas, telefono para a empresa onde me asseguram que o dia de entrega se mantém, não tendo o operário em questão, nada a haver com o cumprimento de prazos.
Clara Vales
Mindelo, 16 de Novembro de 2001
Obs: As grades estiveram prontas nessa segunda feira, mas a esquadria foi mal feita. Não encaixaram. Devolvi-as, pedi os cinquenta por cento de volta e contactei um particular, não esse, outro.
Desenrascado ou Desonesto?
Sol a pique. O homem está atrasado. Dou-lhe desconto, é hora da ponta. No alcatrão da Baltazar Lopes da Silva, carros cruzam-se em situação de semi tráfego. Condutores e acompanhantes, olham-me com curiosidade fugidia, enquanto rumam a casa, à hora do almoço. Na esquina, aguento mais cinco minutos, antes de agarrar o telemóvel e saber o motivo do atraso. Do outro lado, a senhora explica que se esqueceu de o avisar, mas que fique tranquila, ele já se encontra a caminho. Preparo-me para mais um quarto de hora de espera e aproveito para observar o movimento dos estabelecimentos debaixo do calor do meio dia. Mesmo em frente, uma das inúmeras lojas chinesas (…) mostra sinal de muita movimentação, nas outras lojas, nem por isso. Contudo, todos os estabelecimentos tem algo em comum, grades nas portas e janelas. Infelizmente, é esse o Mindelo dos nossos dias. Grades e mais grades, umas mais discretas, de ferro fino e bem pintadas, outras com ar de terem sido postas à pressa, sem pintura e mal soldadas, devido, talvez, a algum assalto inesperado e outras com desenhos quase barrocos de tão rebuscadas. Mas todas com a mesma intenção, barrar “visitas” indesejáveis. O homem, responsável pela execução das protecções aproxima-se e dirigimo-nos ao estabelecimento vazio. Fico a saber que existem dois tipos de maneiras de fixar grades, “chumbando-as”, ou seja, incrustando-as nas paredes do local, método mais seguro, uma vez que a outra alternativa, com parafusos, não oferece tanta segurança, porque os ladrões fazem o obvio, desaparafusam-nas. Mas há mais, aprendo que a desonestidade, infelizmente, pode estar a tomar lugar do “desenrascar” a vida, algo até há pouco tempo, muito característico desta cidade. No embalo da troca de impressões, pergunto se o prazo de entrega, segunda-feira, pode ser mantido, apesar da pequena modificação solicitada no local e ele responde que não sabe como podem dar um prazo de cinco dias, pois está cheio de outros trabalhos para terminar. Digo-lhe que a pessoa que me atendeu, na empresa, me assegurou que o prazo se cumpriria, tendo sido esse o motivo porque não procurei outras alternativas ou sequer discuti preços. O homem rebate que será bastante difícil e acrescenta que se fosse ele, na sua oficina particular, trabalharia durante o fim de semana e cumpriria o prazo, mas sendo assim, não garante nada, respondo-lhe, quase exaltada, que não garante ele, mas garante a empresa. Segundos de silêncio acontecem, enquanto tento perceber o que se está a passar. Para evitar qualquer tipo de pressão, adianto-lhe que já paguei cinquenta por cento do valor e que me certificarei que o prazo é cumprido. O homem, mais ponderado, ainda pergunta se não estou interessada em fazer prateleiras ou outros moveis interiores, respondo-lhe que só desejo as grades, mas ele insiste e consegue que eu escreva o contacto dele num talão de supermercado, se, por acaso, mudar de ideias. Despedimo-nos friamente e afasto-me reflectindo se será verdade o que se passou ou se terei exagerado a dimensão do facto, depois de tanto sol e espera. Por via das duvidas, telefono para a empresa onde me asseguram que o dia de entrega se mantém, não tendo o operário em questão, nada a haver com o cumprimento de prazos.
Clara Vales
Mindelo, 16 de Novembro de 2001
Obs: As grades estiveram prontas nessa segunda feira, mas a esquadria foi mal feita. Não encaixaram. Devolvi-as, pedi os cinquenta por cento de volta e contactei um particular, não esse, outro.
28.8.06
27.8.06
Mulher Esqueleto
Há dias, por puro acaso, dei de caras, uma vez mais, com a Skeleton Woman, a Mulher Esqueleto. Conhecia o mito e desta vez deveria saber como agir mas, em vez de sorrir de contentamento, assustei-me tanto que, uma vez mais, só consegui correr. Não lhe dei as boas vindas, não tentei ver para além dos ossos, não a libertei da linha de pesca. Quando devia estar alegre e toca-la para lhe dar forma, fugi, como o pescador da história. Não senti alegria, senti antes o medo. Sequer tentei humaniza-la, apenas corri e quando percebi que ela teimava em seguir-me, cortei o fio que nos unia. Deixei-a só, um amontoado de ossos, largada ao vento, sem ninguém para aconchega-la, sem a carne e a lágrima sonhada. Sem vida… Mas chega de divagações, vou contar-vos, de forma resumida a história da Mulher Esqueleto, um mito Inuit que explica a descoberta do bem-querer, perante nós e perante o outro, e do susto que se leva, do medo que se sente, da coragem, da confiança ou da falta de ambas. Espero que consigam agir melhor que eu, da próxima vez que a Mulher Esqueleto aparecer nas vossas vidas. Talvez sim ou talvez não...
“Há muitos anos um pescador esquimó, longe de casa, chegou a uma baía assombrada pela Mulher Esqueleto. Ela tinha sido atirada ao mar por ter feito algo que ninguém mais se lembrava. Os peixes comeram-lhe a carne, os olhos e ela ia flutuando ao sabor das correntes da baia. A linha que o pescador atirou foi prender-se num dos ossos das costelas dela e ele logo pensou que tinha apanhado um grande peixe. Ele lutava lá cima para ver o tinha apanhado e ela debatia-se lá baixo para se desembaraçar. Quanto mais se combatiam, mais a linha ficava embaraçada nos ossos. O kayak balançava e ele fez um último esforço e ela veio á superfície… Aaaah! Gritou quando a viu, meio dentro do barco. Aaah! Quando percebeu os dentes alvos naquele crânio de marfim… e remou para a margem, apavorado. Ela, presa á linha de pesca seguia-o, ainda meio dentro de água. Quando chegou á praia, o pescador apenas se lembrou de apanhar os seus apetrechos e correr feito louco. Mas ela continuou a seguia-lo, presa que estava á linha de pesca… e quanto mais ele fugia mais ela corria atrás dele. Correu as rochas da colina e superfície gelada da grande tundra e quando chegou ao íglo onde morava, arrastou-se pelo canal escuro com o coração disparado e então conseguiu sentir-se seguro. Foi somente quando acendeu a lamparina que deu de caras com ela, um amontoado de ossos, no chão de neve. Mas… talvez tenha sido a luz fraca que lhe suavizou a alvura dos ossos ou talvez tenha sido o pelo facto de ele ser um homem muito solitário… a verdade é que sentiu uma onda bondade e quando finalmente recuperou a respiração e sentiu o coração acalmar, estendeu as mãos e com ternura, ao mesmo tempo que lhe ninava foi desatando os nós da linha embaraçada. Com cuidado ajeitou-lhe os ossos que ganharam a forma humana e embrulhou-a num retalho de peles a manter aconchegada. O pescador, preparou-se para dormir e ela não se atreveu a dizer palavra, com medo de amedronta-lo. Debaixo das peles, sozinho, ele adormeceu e depressa partiu para o mundo dos sonhos. Às vezes, quando as pessoas dormem, uma lágrima desce pela face de quem está a sonhar, nunca sabemos que tipo de sonho causa isso, mas sabemos que tanto pode ser uma lágrima de tristeza ou solidão e foi o que aconteceu ao pescador. A Mulher Esqueleto viu essa pequena lágrima a brilhar à luz da lamparina e sentiu sede… muita sede. Chegou-se ao pé do pescador adormecido e encostou a boca sem labios á lágrima. Essa única lágrima tornou-se num rio e ela bebeu até a sede de muitos anos ficar saciada. Depois, sentou-se ao lado dele, estendeu a mão descarnada e arrancou-lhe o coração que… bum! Bum! bum… soava como um tambor. Foi então que começou a cantar alto: Carne, carne carne! Carne Carne Carne! E quanto mais cantava mais o corpo dela se ia enchendo de matéria, de carne e músculos. Ela cantou por olhos bons, boas mãos e por cabelos. E cantou também pela fenda da vida entre as pernas, pelos seios grandes e mornos e tudo mais que uma mulher necessita. Quando terminou, ela cantou as roupas do pescador, para que desaparecessem e deitou-se com ele. Pele a pele. Retornou o grande tambor, o coração, ao peito do pescador e enlaçou-se nele. E foi assim que acordaram, embrulhados um no outro, já de outra forma… na forma mais feliz e duradoura que existe.”
Às vezes é necessário perder o medo e chorar essa lágrima paixão e compaixão, não tanto pelo outro, mas por nós, mas acima de tudo, por nós. Assim é o ciclo da vida/morte/vida.
Obs: versão original e explicação mais aprofundada deste mito aqui.
“Há muitos anos um pescador esquimó, longe de casa, chegou a uma baía assombrada pela Mulher Esqueleto. Ela tinha sido atirada ao mar por ter feito algo que ninguém mais se lembrava. Os peixes comeram-lhe a carne, os olhos e ela ia flutuando ao sabor das correntes da baia. A linha que o pescador atirou foi prender-se num dos ossos das costelas dela e ele logo pensou que tinha apanhado um grande peixe. Ele lutava lá cima para ver o tinha apanhado e ela debatia-se lá baixo para se desembaraçar. Quanto mais se combatiam, mais a linha ficava embaraçada nos ossos. O kayak balançava e ele fez um último esforço e ela veio á superfície… Aaaah! Gritou quando a viu, meio dentro do barco. Aaah! Quando percebeu os dentes alvos naquele crânio de marfim… e remou para a margem, apavorado. Ela, presa á linha de pesca seguia-o, ainda meio dentro de água. Quando chegou á praia, o pescador apenas se lembrou de apanhar os seus apetrechos e correr feito louco. Mas ela continuou a seguia-lo, presa que estava á linha de pesca… e quanto mais ele fugia mais ela corria atrás dele. Correu as rochas da colina e superfície gelada da grande tundra e quando chegou ao íglo onde morava, arrastou-se pelo canal escuro com o coração disparado e então conseguiu sentir-se seguro. Foi somente quando acendeu a lamparina que deu de caras com ela, um amontoado de ossos, no chão de neve. Mas… talvez tenha sido a luz fraca que lhe suavizou a alvura dos ossos ou talvez tenha sido o pelo facto de ele ser um homem muito solitário… a verdade é que sentiu uma onda bondade e quando finalmente recuperou a respiração e sentiu o coração acalmar, estendeu as mãos e com ternura, ao mesmo tempo que lhe ninava foi desatando os nós da linha embaraçada. Com cuidado ajeitou-lhe os ossos que ganharam a forma humana e embrulhou-a num retalho de peles a manter aconchegada. O pescador, preparou-se para dormir e ela não se atreveu a dizer palavra, com medo de amedronta-lo. Debaixo das peles, sozinho, ele adormeceu e depressa partiu para o mundo dos sonhos. Às vezes, quando as pessoas dormem, uma lágrima desce pela face de quem está a sonhar, nunca sabemos que tipo de sonho causa isso, mas sabemos que tanto pode ser uma lágrima de tristeza ou solidão e foi o que aconteceu ao pescador. A Mulher Esqueleto viu essa pequena lágrima a brilhar à luz da lamparina e sentiu sede… muita sede. Chegou-se ao pé do pescador adormecido e encostou a boca sem labios á lágrima. Essa única lágrima tornou-se num rio e ela bebeu até a sede de muitos anos ficar saciada. Depois, sentou-se ao lado dele, estendeu a mão descarnada e arrancou-lhe o coração que… bum! Bum! bum… soava como um tambor. Foi então que começou a cantar alto: Carne, carne carne! Carne Carne Carne! E quanto mais cantava mais o corpo dela se ia enchendo de matéria, de carne e músculos. Ela cantou por olhos bons, boas mãos e por cabelos. E cantou também pela fenda da vida entre as pernas, pelos seios grandes e mornos e tudo mais que uma mulher necessita. Quando terminou, ela cantou as roupas do pescador, para que desaparecessem e deitou-se com ele. Pele a pele. Retornou o grande tambor, o coração, ao peito do pescador e enlaçou-se nele. E foi assim que acordaram, embrulhados um no outro, já de outra forma… na forma mais feliz e duradoura que existe.”
Às vezes é necessário perder o medo e chorar essa lágrima paixão e compaixão, não tanto pelo outro, mas por nós, mas acima de tudo, por nós. Assim é o ciclo da vida/morte/vida.
Obs: versão original e explicação mais aprofundada deste mito aqui.
25.8.06
23.8.06
Estória inspirada num Quadro de Paula Rego
…e foi então, depois do último esgar, daquele último esticão, que o olhar de raiva se extinguiu e ele voltou a ser o menino de oito anos. Ela fechou-lhe os olhos, limpou-lhe a baba que ainda escorria pelo canto da boca, ajeitou-lhe a cabeça nos lençóis empapados, desamarrou-lhe os pulsos e os tornozelos e permitiu-se suspirar. Só depois reconheceu nele o filho que acabava de falecer. Estavam os dois sozinhos no quarto, a humidade ou desespero eram tantos que lhe faltaram as forças. Apagou-se silenciosamente. Disse-me que entrou numa espécie limbo em que nada sentia, apenas estava sem saber se era ou não. Foi o barulho arranhando atrás da porta que a fez voltar a si. Os uivos do marido, o latir dos empregados e o silêncio das crianças… as crianças, foi esse o motivo que a fez levantar naquela manhã. Deu a volta à chave. Sentiu uma mudez tão grande que não gritou, não uivou, sequer ganiu, abriu a porta, ignorou todos e percorreu em tropeções o corredor escuro. Luz, desejava luz. Parou à entrada do quintal, sentiu o calor do sol e ante o espanto de todos, deixou-se cair numa de gargalhada de escárnio.
Um riso puro de hiena…uma gargalhada louca que se elevou no ar e pairou sobre a casa. Calou-se quando a acudiram e esteve assim, muda, apática até ao fim da tarde. Só tornaram a ouvi-la quando o empregado regressou do mato, trazendo dentro de um saco de farinha a carcaça do bicho que lhe tinha mordido o filho. Disse quem ouviu, que rosnou o mesmo rosnar de cão e só depois conseguiu chorar a dor...
Um riso puro de hiena…uma gargalhada louca que se elevou no ar e pairou sobre a casa. Calou-se quando a acudiram e esteve assim, muda, apática até ao fim da tarde. Só tornaram a ouvi-la quando o empregado regressou do mato, trazendo dentro de um saco de farinha a carcaça do bicho que lhe tinha mordido o filho. Disse quem ouviu, que rosnou o mesmo rosnar de cão e só depois conseguiu chorar a dor...
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22.8.06
Ilhéus di Brava
Na edição de 1911, a Enciclopédia Britânica informava, na página 255 do Volume V05, mais ou menos o seguinte: “A norte da Brava existe um grupo de ilhotas, do qual se destacam dois ilhéus (Ilhéus Seccos ou Ilhéus do Rombo). Estes ilhéus são normalmente conhecidos por Ilhéu de Dentro e Ilhéu de Fora. O primeiro é usado como abrigo, pelos navios de pesca da baleia e de pesca e também como local de pasto para os animais; o segundo como local de recolha de guano."
Obs: estive a consultar a palavra guano no site e não encontrei a palavra exacta em português, percebi no entanto que se trata de um fertilizante natural, derivado de excremento de pássaros, muito rico em fósforo e nitrogénio.
17.8.06
O colo da Senhora
Eu sempre acreditei que o Tio Tuca morreria de velhinho. Tão velhinho que voltaria a ser a criança de 3 anos que um dia se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de onde saiu. Foi-se ainda não tinha 50 anos e teve a morte mais triste que existe... morreu só sem que ninguém desse por isso. Descobriram-no dias depois estendido no chão da sala desarrumada, no apartamento de uma Luanda tão decadente como a vida que teimou em levar. Mal o conheci, mas as recordações que tenho do Tio Tuca têm um sabor doce e amargo ao mesmo tempo. Numa das poucas vezes em que estivemos juntos, teimou comigo em como seria a ultima vez, eu na altura ainda acreditava que ele morreria com cerca de 100 anos disse-lhe "O tio vai morrer de pura velhice e só não tem a vida eterna porque a carne apodrece.... Está condenado a isso desde que se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de água na Guiné." Ele riu-se sem responder. Quando soube que tinha falecido fiquei admirada apesar de saber que teimava em levar a vida como se não houvesse amanhã... luandou, parodiou e bebeu. Não morreu quando lhe extirparam a ulcera e três quartos do estômago, ainda jovem, não morreu numa segunda operação quando, desenganado de vez, o ti’Tio o trouxe quase cadáver para a Praia para se finar junto dos seus, apenas para se vir a descobrir que afinal tinha uma compressa muito bem guardada debaixo do pâncreas. Assim que se pôs bom, rumou de novo a Angola, para junto dos filhos e amigos e da terra que adoptou depois lá ter combatido contra os “carcamanos no Sul e zairenses em Kinfangondo” e continuou a beber. Nunca foi ferido na guerra, mas foi assaltado algumas vezes nos becos e vielas da Luanda que adorava, também não morreu de sova de puta num saguão de hotel de Dakar por pura caturrice, apenas não queria pagar o "capote". Tinha tanta sorte com a porra da vida dele, que pouco importância lhe dava e levou-me a acreditar que estava sempre bem acompanhado. Dizia sempre que ainda não tinha esgotado as suas sete vidas. Que a Senhora do fundo do poço olhava por ele... mas não. Morreu triste, só, o meu Tio Tuca. Hoje, acho que a felicidade que conheceu, sentado no colo Dela, no fundo daquele poço escuro, enquanto esperava que os gritos do pai, da mãe e dos vizinhos amainassem e o fossem buscar, deve ter sido tanta que a vida que ainda tinha a viver pouco lhe importou. Não acho que fossem tendências suicidas, apenas pouco lhe importava. A mãe dele diz que não, que ele foi um bebé que chorou na barriga e que isso é sinal de infelicidade na vida, mas eu continuo a visualizar a estória que me contaram. Que ele devia ter morrido no início dos anos cinquenta, no fundo daquele poço no quintal da casa de Bolama, aos três anos de idade. Que foram buscar um anjinho e viram assomar pelas mãos do Arsénio um menino feliz de sorriso aberto que dizia ter estado sentado no colo de uma senhora... Bendita Senhora! Devias ter morrido bem velhinho tio Tuca… ou será que viveste em dobro?
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