30.10.06

Descobrir Manuel Figueira (e outras divagações).

Lembro-me que no dia em que telefonei a uma pessoa próxima a dizer que tinha um blog a primeira frase que ouvi foi “isso é uma responsabilidade!” e quando indaguei a razão respondeu “não podes fazer um blog durante uns tempos e depois abandona-lo… tens que estar sempre a pôr coisas novas!”. Para rematar, alguns dias depois, mandou-me um email, á laia de incentivo onde pude ler “… e não descambes para esses blogs auto louvor (…) povoadas de fantasmas. Se puderes acrescentar algo que dê para formar/informar aos visitantes despertarás muito interesse.” De Maio a esta parte houve dias e às vezes semanas em que não tive vontade de escrever mas, surpresa agradável, temas nunca faltaram. Tenho aprendido muito sobre Cabo Verde, as pessoas que fizeram estas ilhas, o lugar que ocupamos na história do ocidente devido à posição geo-estratégica etc. Tenho navegado por lugares que nunca imaginei… assuntos que puxam assuntos. Escrever e pôr em palavras o que desejo dizer tem sido um exercício de reflexão que me dá cada vez mais prazer. Isto...
... a propósito da fotografia do post anterior. Quando a "publiquei" não consegui escrever um comentario. Esta tarde pus-me a pensar numa frase que tinha lido num quadro de Manuel Figueira há muito tempo. O quadro esteve exposto no Café Lisboa… que dizia? Era uma interrogação meio perturbadora e em tudo semelhante à que eu lia no "olhar da menina do Maio". Daria uma boa legenda para a imagem (da qual eu perdi o link - as minhas desculpas ao fotógrafo). Já tinha até escrito algo e em em baixo a observação “inspirado na frase de um quadro de Manuel Figueira” quando resolvo procurar dados sobre o pintor para pôr como link. Encontrei um site com informações sobre o percurso de Manuel Figueira, encontrarei o tal quadro (!!) e muitos outros. Descubram vocês também... mais não teclo (mesmo porque este deve ser o texto mais doido que já postei).

27.10.06

A interrogação...

...no olhar de uma menina da Ilha do Maio.

21.10.06

Operação Felix e o Bisavô Alexandre

“Operação Félix” foi o nome dado à directiva dirigida aos oficiais de topo do Führer e na qual estavam delineadas as orientações para a invasão e conquista do Estreito de Gibraltar e, consequentemente, a tomada das ilhas Canárias e Cabo Verde. Datada de 12 de Novembro de 1940, contudo nunca foi concretizada, em parte porque Espanha se recusou a juntar ao Áxis (aliança formada pela Alemanha Nazi, Itália Fascista, Império do Japão). Na altura, a Espanha saía de uma terrível guerra civil (1936-39), estando o país devastado e muitas cidades transformadas em ruínas. Lendo a Directiva nº 18 compreendemos a importância geo-estratégica das ilhas atlânticas para os Ingleses e a Alemanha. No documento assinado pelo próprio Hitler, os seus oficiais são informados que “medidas politicas foram tomadas para persuadir a Espanha a entrar rapidamente na guerra (…) sendo o objectivo principal da intervenção da Alemanha na Península Ibérica (nome de código Félix) correr com os ingleses do Mediterrâneo Ocidental.” (tradução livre). Os planos para a invasão de Gibraltar são traçados (batalhas navais, campais e aéreas) e com o sucesso da operação, dá as seguintes indicações: “As ilhas Atlânticas (particularmente as Canárias e Cabo Verde) ganharão, com o resultado da operação Gibraltar, uma importância acrescida para a boa performance dos Ingleses no mar e também para as nossas operações navais. Os Altos Comandantes da Marinha e da “Luftwaffe” (aviação) deverão estudar, como defesa das Canárias a Espanha e como as ilhas de Cabo Verde poderão ser ocupadas. (…) Por motivos de segurança, medidas especiais devem ser tomadas para limitar o acesso do número de pessoas trabalhando nestes planos. Isso aplica-se particularmente (…) aos planos relacionados com as ilhas atlânticas.” (tradução livre). Assina Adolf Hitler.
...
Não me vou por a adivinhar o que poderia ter sido e se seríamos diferentes hoje, caso a ocupação se tivesse concretizado, nada disso… Vou somente pensar no meu Bisavô Alexandre, um descendente de indianos (segundo a família) nascido em São Nicolau e que em Maio de 1918, já na ilha do Fogo, teima em chamar o filho primogénito de Lindorff, apesar deste ter sido registado Carlos (o armistício é assinado somente a 11 de Novembro de 1918). Dois anos depois, quando é pai de uma menina, Ana, trata-a carinhosamente por Iguetth. Os “nominhas” ficaram para a vida e o meu bisavô nunca se livrou da fama de Germanófilo… Só não sei se com a II Guerra terá continuado a pensar da mesma maneira.

16.10.06

Zorro em Cabo Verde... a caminho da América!

Acabei de ler o livro Zorro, o Começo da Lenda, onde Isabel Allende, a autora, lhe “fabrica” um passado extraordinário, explicando de onde e como surge o herói. É uma obra de ficção, que tem como pano de fundo o que aconteceu no mundo (América e Europa) entre 1790 e 1815. Para os amantes da escritora, de história e fãs incondicionais de Zorro (a raposa) e suas aventuras, recomendo. Agora, que me desculpem pirataria, mas não resisti a copiar um pouco da pagina 310 do livro… é a parte que toca a Cabo Verde. Passa-se em 1815 e vamos encontrar Diego de la Vega, Zorro, a caminho da América, Baja Califórnia, depois de ter passado cinco anos em Espanha, consolidando a sua educação de futuro Don.
“(…) Impulsionado pelas correntes oceânicas e pelos ditames do vento, o Madre de Dios dirigiu-se para sul bordejando Africa, passou frente às ilhas Canárias sem parar e chegou a Cabo Verde para se abastecer de agua e alimentos frescos, antes de iniciar a travessia do Atlântico, que podia durar mais três semanas, dependendo do vento. Ali souberam que Napoleão tinha fugido do seu exílio na ilha de Elba e entrara triunfalmente em França, onde as tropas, enviadas para lhe barrar o caminho até Paris, se haviam passado para o seu lado. Recuperara o poder sem disparar um único tiro, enquanto a corte do rei Luís VXIII se refugiava em Gant, e dispunha-se a reiniciar a conquista da Europa. Em Cabo Verde os viajantes foram recebidos pelas autoridades, que ofereceram um baile em honra das filhas do comandante, como as meninas De Romeu foram apresentadas. Muitos funcionários administrativos eram casados com belas mulheres africanas, altas e orgulhosas, que se apresentaram na festa vestidas com um luxo espectacular. Em comparação, Isabel assemelhava-se a um cão lãzudo e até a própria Juliana quase parecia insignificante. Essa primeira impressão mudou por completo quando Juliana, pressionada por Diego, aceitou tocar harpa. Havia uma orquestra completa, mas, mal ela feriu as cordas, fez-se um silêncio no grande salão. Um par de baladas antigas bastou-lhe para seduzir todos os presentes. Durante o resto do serão, Diego teve de se pôr em fila com os restantes cavalheiros para dançar com ela.
Pouco depois, o Madre de Dios desfraldou as velas, deixando para trás a ilha. (…)”
...
Sem dúvida um CaboVerde alternativo e/ou de ficção… ou não? Vamos verificar?

9.10.06

Observação

Agora que voltei de ferias, estava aqui a admirar a fotografia do post anterior e a “matar” saudades! Interessante… só agora reparei que a imagem já é testemunho, um documento histórico. Com efeito, os antigos armazéns da EMPA (e posteriormente local onde funcionou o celebre Porão) já não existem. Hoje há Praça D. Luís… Contudo fiquei com a impressão que os Mindelenses ainda não abraçaram o novo espaço mesmo em frente á baía… Será pela falta de sombra e outras coisas mais? Para ver mais detalhes e só clicar na imagem.

14.9.06

Baía do Porto Grande - São Vicente

A minha próxima paragem… dentro de dias.
Volto em princípios de Outubro.

13.9.06

Port Praya, Cape Verde 1838


Acreditem ou não, só reparei que as duas imagens eram iguais depois de as colocar uma em cima da outra. Contudo, a primeira é um desenho a tinta (fabuloso tom de sépia que ganhou com os anos) e a segunda é uma gravura (detalhes mais claros) feita a partir do desenho. A autoria é atribuída a Charles Wilkes e a data é 1838.

Charles Wilkes foi o homem que comandou uma expedição de seis navios dos Estados Unidos que, em Agosto de 1838 deixaram Norfolk, na Virgínia para uma expedição no Pacifico Sul. A missão era para explorar as ilhas dessa região, investigar o potencial em termos de comércio e enfatizar o poder da América. Passaram por estas ilhas logo no início da viagem. Para descobrir mais é só clicar no título do post.

11.9.06

Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cuja sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Jorge Barbosa

7.9.06

Mapas Antigos de Cabo Verde


É interessante reparar como ao longo dos séculos a percepção da distribuição das ilhas foi evoluindo. Para mais detalhes sobre os mapas é só clicar em comentário.

6.9.06

Mindelo há cinco anos - II

Transcrevo outro texto de "Clara Vales" porque penso que é um tema actual. O meu único reparo vai para o tamanho da crónica. Se fosse hoje diria tudo com metade das palavras.

Nem capitães nem segurança

Há dias, dois meninos da “praia d’bote” surripiaram-me o porta moedas. Nada de mais a acrescentar, apenas mais um que foi à vida. O problema, propriamente dito, não está no roubo, o busílis da questão esta no facto de, os piratinhas terem sabido como agir. Enquanto um me distraía, esmolando para um pão, o outro subtraia-me a carteira. Pois é, temos bando, temos organização e temos esquema!
Uma senhora que, no local, presenciou a minha estupefacção, confidenciou-me que os dois fazem parte de um grupo conhecido, cerca de dez, que ciclicamente, percorrem a Rua da Praia, fazendo pequenos furtos, desaparecendo estrategicamente até ao dia seguinte. Informou-me que são conhecidos da Policia e aconselhou-me a pedir-lhes auxílio.
Esperançosa, dirigi-me ao Comando, onde fui prontamente ouvida com todo o profissionalismo. Os polícias presentes, estiveram atentos até ao momento em que perceberam que a minha “estória” era apenas mais uma a acrescentar a tantas outras, se calhar, ouvidas quotidianamente. Pacientemente, fui convidada, por um dos agentes, a ver uma série de fotografias a preto e branco, guardadas cuidadosamente, dentro de uma pequena caixa de papelão, e proceder à identificação do par.
Examinei cerca de cinquenta fotos, divididas, basicamente, em três idades. A dos adolescentes, com olhar revoltado e queixo tenso, a dos “aborrecentes”, fazendo cara de não me importa e a dos mais pequenos, em poses ingénuas e semblante malandro. Reconheci imediatamente quatro ou cinco rapazes, do bando que ronda as imediações de um supermercado que frequento e onde, na maior parte das vezes, pedem uma moeda a troco de nada. Quase todas as fotografias estavam manuscritas no verso com um ou dois nomes, apelidos de pai e mãe e os respectivos nominhas, como “Springuintin” ou “Coxim”.
No meio dessas fotos, mais parecendo pertencer a uma caixa de uma década anterior, havia uma “carinha” muito particular. A fotografia, bastante amarelada, exibia um homem que fixava a câmara passivamente e cujo penteado “black” aliado a um sulco que lhe dividia copiosamente a melena, quase me fez sorrir. No verso lia-se “Rob d’ Jula” a duas letras e tintas distintas. Alguma mão mais ciosa corrigira após a primeira identificação, o nome mal escrito, pois que um A despudorado cobria o IA feito pelo primeiro punho e dois EE tinham sido mascarados por uma borracha de tinta. Nada de enganos, Rob d’ Jula e não Robe de Júlia! O que faria essa figura “lendária” no meio das outras? Deduzi que talvez, alguém menos atento, no momento de a guardar novamente, após alguma identificação apressada, se tivesse enganado na caixa. Não acredito que tenha pensado que bandidos são bandidos, e piratinhas serão ladrões, pelo que o melhor é estarem bem acompanhados e terem no meio deles uma figura mais paterna, mesmo que, isso signifique acabar por confundi-los a todos e aos seus crimes, pois quem de pequeno, faz furto, quando crescer, cometerá roubos, arrombamentos, desvios e violações, que isto de crimes é sempre a subir.
Acabei por identificar apenas um dos rapazes, mas ainda assim com pouca certeza, afinal, não me tinha dado ao trabalho de fixar os traços do meu “pedinte”. Segui o conselho do agente, fui-me embora, ficando de regressar no fim do expediente para saber como estava o andamento do caso.
De regresso à minha rotina habitual, se sem saber como, veio-me à mente o livro “Capitães de Areia”. As hipóteses de recuperar o porta moedas eram quase nulas e deve ter sido essa a forma que o meu inconsciente encontrou para, tranquilamente, pôr uma pedra sobre o assunto, e fugir às implicações reais do acontecido.
Mas confesso… não Há Jorge Amado ou actos vistos à luz de um prisma mais poético que mascare o atordoamento que ainda sinto quando recordo o meu regresso ao Comando da POP.
Devido ao adiantado da hora, foi na rua que falei com o agente à paisana encarregue do meu caso. O policia, ao volante do carro das diligências e, ao mesmo tempo que ia fazendo mil e um malabarismos para estacionar, mesmo colado à parede lateral do comando, com o fito de barrar o acesso de uma das portas da viatura com o vidro escangalhado, informava-me que não, não havia novidades, que regressasse amanhã porque eles, quando roubavam, subiam a Ribeira Bote de onde não desciam até terem comido, bebido e fumado todo o dinheiro. Eu, sem nenhuma esperança no que toca a porta moedas mas, ainda assim, admirada com tanta perícia, perguntei o porquê de tantas manobras, se ele não era policia, se não estávamos nas imediações do Comando da ilha, ao que o agente respondeu a meio tom… “mais ou menos”.
Se a policia que é Policia, tem de defender o património com que trabalha, neste caso, um carro sovado e maltratado, como nos pode defender a nós, cidadãos que procuramos e esperamos protecção em situações idênticas?
Quem responde por esses menores que, pela lei, não podem ser responsabilizados pelos actos que cometem? Se eles têm nomes e apelidos, foram registados, têm pai e mãe. Os pais ou encarregados de educação que sejam responsabilizados. É fácil cair no erro de os transformar em Capitães da Praia de Bote, mas o que é certo é que eles vão crescer.
Quanto a mim, tenho-me esforçado, mas até agora, não me vem à memória nenhum livro de Jorge Amado ou outro autor, que me faça pôr uma pedra sobre o assunto e dormir tranquila com a visão romântica de bandos de Rob d’ Jula a pulular estas ilhas.
Clara Vales
Outubro de 2001

Pois é… eles cresceram e já não há poesia ou desprendimento que aguente tanta afronta!

4.9.06

Pedra di Lume - Sal

Fotografia de Aguinaldo Vera-Cruz.
Djô Martins comentou:
"Toca-me sobretudo por reproduzir a quietude do local (...)."
Um grande fotógrafo. Descobrir aqui.

1.9.06

Salah Matteos

Não há dia em que eu não faça uma pesquisa na net que não descortine coisas interessantes. Sobre o mundo, sobre Cabo Verde e, principalmente, sobre a visão que as pessoas têm sobre determinados assuntos. Nem sempre concordo, mas é absolutamente fascinante descobrir essas opiniões. Hoje encontrei este site: http://www.multiculturas.com/vb-salah.htm e deparei-me com Mr. Salah Matteos. Um americano descendente de caboverdeanos com um percurso de vida extraordinário. A ler e a reflectir, concordando-se ou não. Deixo aqui um pequeno trecho, a título de curiosidade e também, para lançar uma acha à fogueira.

“I would like to bring something else to your attention; one of the ancient names of the archipelago called Cabo Verde was called by many of the elders AZIJAH that is in part African Arab tongue. AZIJAH means the mighty Power of God. The prefix Aziz means Power or the Precious of God. The Djah or Jah or Dia means God or Allah or Deus all are the same. Jah is the suffix. The two words together form AZIJAH, which again is to say The Mighty Power Of God or the PRECIOUS of God. The Creole (pidgin) is Guinea Arab Africa, Portuguese and other variables in terms of other languages. For example the late Dr. Amílcar Lopes Cabral (aka) was ABEL-Djassi or Djhassi, which meant the servant or God, Abel meaning servant and Jah in its variables meaning God or Deus or Allah as you wish.”

29.8.06

Mindelo há cinco anos

O ano de 2001 era para ser o ano em que eu me tornaria empresária! Bom… dona de butik para ser mais exacta. Deu tudo errado! Claro que, para quem me conhece bem, isso não foi novidade nenhuma. Na altura, apesar dos avisos resolvi embarcar na aventura. Para cúmulo dos cúmulos, abri o Balão Mágico, loja de roupas infantis, quando o boom das lojas chinesas estava a rebentar em São Vicente. Resumindo… pouca venda e falência em 11 meses! No fim restou-me a consolação de saber que não nasci para ser dona de butik. Na mesma altura, e sob o nome de Clara Vales, assinei, durante uns poucos meses, uma coluna no Jornal Terra Nova. É uma dessas pequenas crónicas que vou aqui transcrever. Penso que, apesar de se terem passado cinco anos, o tema é actual e, ao mesmo tempo, fala dessa cidade onde eu vivi muitos anos, o Mindelo. A crónica chamava-se…

Desenrascado ou Desonesto?
Sol a pique. O homem está atrasado. Dou-lhe desconto, é hora da ponta. No alcatrão da Baltazar Lopes da Silva, carros cruzam-se em situação de semi tráfego. Condutores e acompanhantes, olham-me com curiosidade fugidia, enquanto rumam a casa, à hora do almoço. Na esquina, aguento mais cinco minutos, antes de agarrar o telemóvel e saber o motivo do atraso. Do outro lado, a senhora explica que se esqueceu de o avisar, mas que fique tranquila, ele já se encontra a caminho. Preparo-me para mais um quarto de hora de espera e aproveito para observar o movimento dos estabelecimentos debaixo do calor do meio dia. Mesmo em frente, uma das inúmeras lojas chinesas (…) mostra sinal de muita movimentação, nas outras lojas, nem por isso. Contudo, todos os estabelecimentos tem algo em comum, grades nas portas e janelas. Infelizmente, é esse o Mindelo dos nossos dias. Grades e mais grades, umas mais discretas, de ferro fino e bem pintadas, outras com ar de terem sido postas à pressa, sem pintura e mal soldadas, devido, talvez, a algum assalto inesperado e outras com desenhos quase barrocos de tão rebuscadas. Mas todas com a mesma intenção, barrar “visitas” indesejáveis. O homem, responsável pela execução das protecções aproxima-se e dirigimo-nos ao estabelecimento vazio. Fico a saber que existem dois tipos de maneiras de fixar grades, “chumbando-as”, ou seja, incrustando-as nas paredes do local, método mais seguro, uma vez que a outra alternativa, com parafusos, não oferece tanta segurança, porque os ladrões fazem o obvio, desaparafusam-nas. Mas há mais, aprendo que a desonestidade, infelizmente, pode estar a tomar lugar do “desenrascar” a vida, algo até há pouco tempo, muito característico desta cidade. No embalo da troca de impressões, pergunto se o prazo de entrega, segunda-feira, pode ser mantido, apesar da pequena modificação solicitada no local e ele responde que não sabe como podem dar um prazo de cinco dias, pois está cheio de outros trabalhos para terminar. Digo-lhe que a pessoa que me atendeu, na empresa, me assegurou que o prazo se cumpriria, tendo sido esse o motivo porque não procurei outras alternativas ou sequer discuti preços. O homem rebate que será bastante difícil e acrescenta que se fosse ele, na sua oficina particular, trabalharia durante o fim de semana e cumpriria o prazo, mas sendo assim, não garante nada, respondo-lhe, quase exaltada, que não garante ele, mas garante a empresa. Segundos de silêncio acontecem, enquanto tento perceber o que se está a passar. Para evitar qualquer tipo de pressão, adianto-lhe que já paguei cinquenta por cento do valor e que me certificarei que o prazo é cumprido. O homem, mais ponderado, ainda pergunta se não estou interessada em fazer prateleiras ou outros moveis interiores, respondo-lhe que só desejo as grades, mas ele insiste e consegue que eu escreva o contacto dele num talão de supermercado, se, por acaso, mudar de ideias. Despedimo-nos friamente e afasto-me reflectindo se será verdade o que se passou ou se terei exagerado a dimensão do facto, depois de tanto sol e espera. Por via das duvidas, telefono para a empresa onde me asseguram que o dia de entrega se mantém, não tendo o operário em questão, nada a haver com o cumprimento de prazos.
Clara Vales
Mindelo, 16 de Novembro de 2001

Obs: As grades estiveram prontas nessa segunda feira, mas a esquadria foi mal feita. Não encaixaram. Devolvi-as, pedi os cinquenta por cento de volta e contactei um particular, não esse, outro.

28.8.06

Chafariz

Ribeira da Barca de Santiago.
Um pouco de cor nesta segunda feira!

27.8.06

Mulher Esqueleto

Há dias, por puro acaso, dei de caras, uma vez mais, com a Skeleton Woman, a Mulher Esqueleto. Conhecia o mito e desta vez deveria saber como agir mas, em vez de sorrir de contentamento, assustei-me tanto que, uma vez mais, só consegui correr. Não lhe dei as boas vindas, não tentei ver para além dos ossos, não a libertei da linha de pesca. Quando devia estar alegre e toca-la para lhe dar forma, fugi, como o pescador da história. Não senti alegria, senti antes o medo. Sequer tentei humaniza-la, apenas corri e quando percebi que ela teimava em seguir-me, cortei o fio que nos unia. Deixei-a só, um amontoado de ossos, largada ao vento, sem ninguém para aconchega-la, sem a carne e a lágrima sonhada. Sem vida… Mas chega de divagações, vou contar-vos, de forma resumida a história da Mulher Esqueleto, um mito Inuit que explica a descoberta do bem-querer, perante nós e perante o outro, e do susto que se leva, do medo que se sente, da coragem, da confiança ou da falta de ambas. Espero que consigam agir melhor que eu, da próxima vez que a Mulher Esqueleto aparecer nas vossas vidas. Talvez sim ou talvez não...

“Há muitos anos um pescador esquimó, longe de casa, chegou a uma baía assombrada pela Mulher Esqueleto. Ela tinha sido atirada ao mar por ter feito algo que ninguém mais se lembrava. Os peixes comeram-lhe a carne, os olhos e ela ia flutuando ao sabor das correntes da baia. A linha que o pescador atirou foi prender-se num dos ossos das costelas dela e ele logo pensou que tinha apanhado um grande peixe. Ele lutava lá cima para ver o tinha apanhado e ela debatia-se lá baixo para se desembaraçar. Quanto mais se combatiam, mais a linha ficava embaraçada nos ossos. O kayak balançava e ele fez um último esforço e ela veio á superfície… Aaaah! Gritou quando a viu, meio dentro do barco. Aaah! Quando percebeu os dentes alvos naquele crânio de marfim… e remou para a margem, apavorado. Ela, presa á linha de pesca seguia-o, ainda meio dentro de água. Quando chegou á praia, o pescador apenas se lembrou de apanhar os seus apetrechos e correr feito louco. Mas ela continuou a seguia-lo, presa que estava á linha de pesca… e quanto mais ele fugia mais ela corria atrás dele. Correu as rochas da colina e superfície gelada da grande tundra e quando chegou ao íglo onde morava, arrastou-se pelo canal escuro com o coração disparado e então conseguiu sentir-se seguro. Foi somente quando acendeu a lamparina que deu de caras com ela, um amontoado de ossos, no chão de neve. Mas… talvez tenha sido a luz fraca que lhe suavizou a alvura dos ossos ou talvez tenha sido o pelo facto de ele ser um homem muito solitário… a verdade é que sentiu uma onda bondade e quando finalmente recuperou a respiração e sentiu o coração acalmar, estendeu as mãos e com ternura, ao mesmo tempo que lhe ninava foi desatando os nós da linha embaraçada. Com cuidado ajeitou-lhe os ossos que ganharam a forma humana e embrulhou-a num retalho de peles a manter aconchegada. O pescador, preparou-se para dormir e ela não se atreveu a dizer palavra, com medo de amedronta-lo. Debaixo das peles, sozinho, ele adormeceu e depressa partiu para o mundo dos sonhos. Às vezes, quando as pessoas dormem, uma lágrima desce pela face de quem está a sonhar, nunca sabemos que tipo de sonho causa isso, mas sabemos que tanto pode ser uma lágrima de tristeza ou solidão e foi o que aconteceu ao pescador. A Mulher Esqueleto viu essa pequena lágrima a brilhar à luz da lamparina e sentiu sede… muita sede. Chegou-se ao pé do pescador adormecido e encostou a boca sem labios á lágrima. Essa única lágrima tornou-se num rio e ela bebeu até a sede de muitos anos ficar saciada. Depois, sentou-se ao lado dele, estendeu a mão descarnada e arrancou-lhe o coração que… bum! Bum! bum… soava como um tambor. Foi então que começou a cantar alto: Carne, carne carne! Carne Carne Carne! E quanto mais cantava mais o corpo dela se ia enchendo de matéria, de carne e músculos. Ela cantou por olhos bons, boas mãos e por cabelos. E cantou também pela fenda da vida entre as pernas, pelos seios grandes e mornos e tudo mais que uma mulher necessita. Quando terminou, ela cantou as roupas do pescador, para que desaparecessem e deitou-se com ele. Pele a pele. Retornou o grande tambor, o coração, ao peito do pescador e enlaçou-se nele. E foi assim que acordaram, embrulhados um no outro, já de outra forma… na forma mais feliz e duradoura que existe.”

Às vezes é necessário perder o medo e chorar essa lágrima paixão e compaixão, não tanto pelo outro, mas por nós, mas acima de tudo, por nós. Assim é o ciclo da vida/morte/vida.

Obs: versão original e explicação mais aprofundada deste mito
aqui.