24.11.06

Um olhar

Fogo Cape Verde
Lorentz Gullachsen - UK
Esta fotografia está no site thecolorawards.com e faz parte de um grupo que foi seleccionado para a categoria de Arquitectura. São imagens espectaculares e cheias de cor. Nada melhor para espantar um dia cinzento como o de hoje e determinadas inquietudes cheias de auto comiseração! Clicar aqui para ir directamente para a pagina dos nomeados e vencedores do concurso de 2006.

19.11.06

Pensamento

Inquietude
...
O pôr do Sol ontem foi tão triste.
Parecia que morria de mansinho.
Silencioso… Pálido no horizonte.
Foi escorregando desmaiado…
Já nem respirava. Afogou-se no
Mar com tanta delicadeza que me
Pôs inquieta. Juro… Cheguei a
Duvidar que voltasse a nascer!
...

17.11.06

Hiking em Santo Antão

Lagoa - Caibros- Boca de Ambas as Ribeiras
O que à partida parecia impossível foi realizado pelo quadriplégico Jean François, descobrir Santo Antão numa cadeira de rodas! A cadeira é construída para o efeito. Mesmo assim... é de se lhe tirar o chapéu. Para saber mais é só clicar aqui e aqui. Gostei muito do site http://www.bela-vista.net/ . Informações úteis e fotografias lindas.

14.11.06

O despertar de uma sesta, no fim do mundo dos anos 50, visto num quadro de Paulo Rego

Acordou alagada da sesta… maldita humidade. Abriu os olhos ainda tempo de ver o Irã que deslizava, entre uma trave e outra, no tecto do quarto, para desaparecer no escuro da telha enegrecida. Em que buraco se metia? Lembrou-se…
“- Matem a cobra!
- Não Senhora…
- Mata a cobra… Anselmo? Há uma cobra no tecto da casa!
- Senhora é o guardião… não.
- Guardião…?
- Sim Senhora, guarda a casa.
- Anselmo… É uma cobra branca.
- Não… É Irã Cego… é poderoso e vai protege-la a si e aos meninos.”
A humidade… nem sabia se estava acordada. Nunca a tinha visto assim… Gorda e branca. Ela… O Guardião. O Irã Cego. A cobra albina que vivia no telhado da casa. Foi regressando devagar daquela letargia do sono. Como foi que vim parar neste fim de mundo? O mato, os bichos, o raio das cobras e o bucho cheio ano sim ano… Não, nada de lástimas! Calor… parece que o diabo se entretêm a chupar ar. Ai Guine! Ai Mindelo... Irã Cego… as minhas crianças aqui em baixo deste tecto. Ninguém num raio de quilómetros e ele que se mete no mato dias a fio. Deve estar nalguma tabanka. Um banho... preciso de um banho. Mãe… e tu que nunca mais chegas. O Nhelas lá para o Sul sem conseguir fugir do contrato da roça... O Nando embarcado sabe-se lá onde. Os meus irmãos espalhados em tudo o que é fim de mundo. A onça… é preciso ver se os meninos estão cá dentro… a onça que quase leva o Canelito. Bendito cachorro... e ele ainda a gritar pelo pobre do bicho... sozinho em frente da casa. Isto é o fim do mundo. Irã… que me vale Deus aqui. Irã Cego! O guardião da casa que engole os ovos das galinhas é quem nos protege. E a minha terra lá tão longe. O vento… que falta faz o vento Mãe. Banho… aquele banho semanal que nos davas com a água que trazias de casa d’inglês. Anselmo… é preciso ir ao poço…. A onça que deve andar á caça… E ele que não chega metido nesse mato sem ninguém. Como foi… ah… Dava tudo para sentir aquele cheiro de colónia inglesa do Nana... Cheiro nauseabundo com que ele chega… Meu Nana… como fui acabar tudo com ele. Lembranças não levam a nada e o que foi foi… deve ser do calor, estás a enlouquecer Vinda. Valha-me a cobra para nos proteger e…
- Dona Vinda…? - o chamado urgente sacudiu-a
- Sim Anselmo...
- É o Irã... Irã Cego fugiu para o mato.
- …
- Senhora… não é bom.

12.11.06

Momento Selene

Li algures que um grande escritor da era vitoriana ganhava proporcionalmente ao número de palavras que escrevia e não em relação à obra no seu todo. Daí que as suas novelas fossem tão descritivas e tão cheias de… vocábulos! A bem da verdade não fui verificar e nem acredito muito mas... lembrei-me disso agora a propósito do poema “rebuscadinho” (e que me encheu as medidas) que escrevi há uns dias.

Desabafo
...
Pérola mais diáfana essa…
a que lhe ornamenta o manto
azul breu Senhora. Como é
descarada na luz que irradia.
Ensombra-lhe a beleza plácida e
deixa em desassossego os pobres
solitários que se disfarçam de poetas.
Maldita seja Senhora! Enlouquece…
a melodia vítrea que oiço reflectida nas vagas
do oceano. Canto embruxado esse… o que vem
raiado do céu Senhora. Hoje, sequer um véu translúcido
de nuvens lhe vela o semblante. Desejava somente
uma sombra para lhe atenuar o fulgor.
Resplandece tanto a descarada
que ensandece os libertinos de paixão e
desvaira os vagabundos de amor.
Zomba de mim nua na sua formosura e
persegue-me, iluminando os caminhos escusos
que queria apenas tactear. Senhora não vê como
lhe rouba o encanto? Até as estrelas cintilam acanhadas
em nada se assemelhando ao bordado de prata
de outras madrugadas. Lua insolente que está
no firmamento somente para me desafiar com a sua plenitude.
Vadia… Musa mais vagabunda e inconstante.
Abomino-a Senhora.

Obs: Não posso deixar de expressar os meus profundos agradecimentos à lua cheia maravilhosa que aconteceu na semana passada, ao programa Word, no auxílio precioso que ofereceu com os sinónimos (a descobrir!) e ao espírito de algum trovador do século XIX que entretanto já ascendeu bem alto...

2.11.06

Sob o olhar de Filippo Romano


Hotel Sôdade – Capo Verde é o nome dado um conjunto de 44 fotografias tiradas nestas ilhas entre 1999 e 2003. O autor, Filippo Romano, é dono de um portfolio inquietante. Nas fotos feitas cá encontrei pessoas reais em situações quotidianas. O dia e a noite são vistos de forma crua, sem idealismos… Muito diferente das imagens de Cabo Verde e suas gentes com que normalmente me deparo na net. Procurar em www.tangophoto.net/members/fromano.

30.10.06

Descobrir Manuel Figueira (e outras divagações).

Lembro-me que no dia em que telefonei a uma pessoa próxima a dizer que tinha um blog a primeira frase que ouvi foi “isso é uma responsabilidade!” e quando indaguei a razão respondeu “não podes fazer um blog durante uns tempos e depois abandona-lo… tens que estar sempre a pôr coisas novas!”. Para rematar, alguns dias depois, mandou-me um email, á laia de incentivo onde pude ler “… e não descambes para esses blogs auto louvor (…) povoadas de fantasmas. Se puderes acrescentar algo que dê para formar/informar aos visitantes despertarás muito interesse.” De Maio a esta parte houve dias e às vezes semanas em que não tive vontade de escrever mas, surpresa agradável, temas nunca faltaram. Tenho aprendido muito sobre Cabo Verde, as pessoas que fizeram estas ilhas, o lugar que ocupamos na história do ocidente devido à posição geo-estratégica etc. Tenho navegado por lugares que nunca imaginei… assuntos que puxam assuntos. Escrever e pôr em palavras o que desejo dizer tem sido um exercício de reflexão que me dá cada vez mais prazer. Isto...
... a propósito da fotografia do post anterior. Quando a "publiquei" não consegui escrever um comentario. Esta tarde pus-me a pensar numa frase que tinha lido num quadro de Manuel Figueira há muito tempo. O quadro esteve exposto no Café Lisboa… que dizia? Era uma interrogação meio perturbadora e em tudo semelhante à que eu lia no "olhar da menina do Maio". Daria uma boa legenda para a imagem (da qual eu perdi o link - as minhas desculpas ao fotógrafo). Já tinha até escrito algo e em em baixo a observação “inspirado na frase de um quadro de Manuel Figueira” quando resolvo procurar dados sobre o pintor para pôr como link. Encontrei um site com informações sobre o percurso de Manuel Figueira, encontrarei o tal quadro (!!) e muitos outros. Descubram vocês também... mais não teclo (mesmo porque este deve ser o texto mais doido que já postei).

27.10.06

A interrogação...

...no olhar de uma menina da Ilha do Maio.

21.10.06

Operação Felix e o Bisavô Alexandre

“Operação Félix” foi o nome dado à directiva dirigida aos oficiais de topo do Führer e na qual estavam delineadas as orientações para a invasão e conquista do Estreito de Gibraltar e, consequentemente, a tomada das ilhas Canárias e Cabo Verde. Datada de 12 de Novembro de 1940, contudo nunca foi concretizada, em parte porque Espanha se recusou a juntar ao Áxis (aliança formada pela Alemanha Nazi, Itália Fascista, Império do Japão). Na altura, a Espanha saía de uma terrível guerra civil (1936-39), estando o país devastado e muitas cidades transformadas em ruínas. Lendo a Directiva nº 18 compreendemos a importância geo-estratégica das ilhas atlânticas para os Ingleses e a Alemanha. No documento assinado pelo próprio Hitler, os seus oficiais são informados que “medidas politicas foram tomadas para persuadir a Espanha a entrar rapidamente na guerra (…) sendo o objectivo principal da intervenção da Alemanha na Península Ibérica (nome de código Félix) correr com os ingleses do Mediterrâneo Ocidental.” (tradução livre). Os planos para a invasão de Gibraltar são traçados (batalhas navais, campais e aéreas) e com o sucesso da operação, dá as seguintes indicações: “As ilhas Atlânticas (particularmente as Canárias e Cabo Verde) ganharão, com o resultado da operação Gibraltar, uma importância acrescida para a boa performance dos Ingleses no mar e também para as nossas operações navais. Os Altos Comandantes da Marinha e da “Luftwaffe” (aviação) deverão estudar, como defesa das Canárias a Espanha e como as ilhas de Cabo Verde poderão ser ocupadas. (…) Por motivos de segurança, medidas especiais devem ser tomadas para limitar o acesso do número de pessoas trabalhando nestes planos. Isso aplica-se particularmente (…) aos planos relacionados com as ilhas atlânticas.” (tradução livre). Assina Adolf Hitler.
...
Não me vou por a adivinhar o que poderia ter sido e se seríamos diferentes hoje, caso a ocupação se tivesse concretizado, nada disso… Vou somente pensar no meu Bisavô Alexandre, um descendente de indianos (segundo a família) nascido em São Nicolau e que em Maio de 1918, já na ilha do Fogo, teima em chamar o filho primogénito de Lindorff, apesar deste ter sido registado Carlos (o armistício é assinado somente a 11 de Novembro de 1918). Dois anos depois, quando é pai de uma menina, Ana, trata-a carinhosamente por Iguetth. Os “nominhas” ficaram para a vida e o meu bisavô nunca se livrou da fama de Germanófilo… Só não sei se com a II Guerra terá continuado a pensar da mesma maneira.

16.10.06

Zorro em Cabo Verde... a caminho da América!

Acabei de ler o livro Zorro, o Começo da Lenda, onde Isabel Allende, a autora, lhe “fabrica” um passado extraordinário, explicando de onde e como surge o herói. É uma obra de ficção, que tem como pano de fundo o que aconteceu no mundo (América e Europa) entre 1790 e 1815. Para os amantes da escritora, de história e fãs incondicionais de Zorro (a raposa) e suas aventuras, recomendo. Agora, que me desculpem pirataria, mas não resisti a copiar um pouco da pagina 310 do livro… é a parte que toca a Cabo Verde. Passa-se em 1815 e vamos encontrar Diego de la Vega, Zorro, a caminho da América, Baja Califórnia, depois de ter passado cinco anos em Espanha, consolidando a sua educação de futuro Don.
“(…) Impulsionado pelas correntes oceânicas e pelos ditames do vento, o Madre de Dios dirigiu-se para sul bordejando Africa, passou frente às ilhas Canárias sem parar e chegou a Cabo Verde para se abastecer de agua e alimentos frescos, antes de iniciar a travessia do Atlântico, que podia durar mais três semanas, dependendo do vento. Ali souberam que Napoleão tinha fugido do seu exílio na ilha de Elba e entrara triunfalmente em França, onde as tropas, enviadas para lhe barrar o caminho até Paris, se haviam passado para o seu lado. Recuperara o poder sem disparar um único tiro, enquanto a corte do rei Luís VXIII se refugiava em Gant, e dispunha-se a reiniciar a conquista da Europa. Em Cabo Verde os viajantes foram recebidos pelas autoridades, que ofereceram um baile em honra das filhas do comandante, como as meninas De Romeu foram apresentadas. Muitos funcionários administrativos eram casados com belas mulheres africanas, altas e orgulhosas, que se apresentaram na festa vestidas com um luxo espectacular. Em comparação, Isabel assemelhava-se a um cão lãzudo e até a própria Juliana quase parecia insignificante. Essa primeira impressão mudou por completo quando Juliana, pressionada por Diego, aceitou tocar harpa. Havia uma orquestra completa, mas, mal ela feriu as cordas, fez-se um silêncio no grande salão. Um par de baladas antigas bastou-lhe para seduzir todos os presentes. Durante o resto do serão, Diego teve de se pôr em fila com os restantes cavalheiros para dançar com ela.
Pouco depois, o Madre de Dios desfraldou as velas, deixando para trás a ilha. (…)”
...
Sem dúvida um CaboVerde alternativo e/ou de ficção… ou não? Vamos verificar?

9.10.06

Observação

Agora que voltei de ferias, estava aqui a admirar a fotografia do post anterior e a “matar” saudades! Interessante… só agora reparei que a imagem já é testemunho, um documento histórico. Com efeito, os antigos armazéns da EMPA (e posteriormente local onde funcionou o celebre Porão) já não existem. Hoje há Praça D. Luís… Contudo fiquei com a impressão que os Mindelenses ainda não abraçaram o novo espaço mesmo em frente á baía… Será pela falta de sombra e outras coisas mais? Para ver mais detalhes e só clicar na imagem.

14.9.06

Baía do Porto Grande - São Vicente

A minha próxima paragem… dentro de dias.
Volto em princípios de Outubro.

13.9.06

Port Praya, Cape Verde 1838


Acreditem ou não, só reparei que as duas imagens eram iguais depois de as colocar uma em cima da outra. Contudo, a primeira é um desenho a tinta (fabuloso tom de sépia que ganhou com os anos) e a segunda é uma gravura (detalhes mais claros) feita a partir do desenho. A autoria é atribuída a Charles Wilkes e a data é 1838.

Charles Wilkes foi o homem que comandou uma expedição de seis navios dos Estados Unidos que, em Agosto de 1838 deixaram Norfolk, na Virgínia para uma expedição no Pacifico Sul. A missão era para explorar as ilhas dessa região, investigar o potencial em termos de comércio e enfatizar o poder da América. Passaram por estas ilhas logo no início da viagem. Para descobrir mais é só clicar no título do post.

11.9.06

Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cuja sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Jorge Barbosa

7.9.06

Mapas Antigos de Cabo Verde


É interessante reparar como ao longo dos séculos a percepção da distribuição das ilhas foi evoluindo. Para mais detalhes sobre os mapas é só clicar em comentário.