19.3.07

"Terra Estrangeira"

Encontrei! Este é o cartaz do filme de que falei no post anterior. Lembrava-me porque foi algo que me marcou. Escrevo de memória mas tenho a certeza que na altura, em entrevista à TNCV, alguem da equipa de rodagem (o realizador?) disse que o filme tinha sido feito muito por causa dessa imagem poderosa... o navio encalhado. Quem quiser saber mais pode ler a ficha tecnica ou uma das muitas análises que se encontram on line. Transcrevo 2 frases de uma crítica: “Um instante filosófico, repleto de poesia, paira na cena do velho navio encalhado no mar, impossibilitado de seguir ou retroceder, tal como os dois personagens que permaneceram estáticos dentro do contexto da marginalidade, numa vida reticente, envelhecida, como uma matéria bruta, ou como o velho navio enferrujado que não alcançou o seu destino.” O filme tem também "(...) imagens (que) trazem uma qualidade artística rara em filmes brasileiros, com efeitos de iluminação sofisticados, uma belíssima fotografia (…). Aliás, foi editado um livro, com fotografias tiradas directamente dos fotogramas do filme. Penso que serão 10, os anos que separam as duas imagens, a do poster (1994/5) e a da fotografia do Miguel Mealha.
Obs: Acho que saldei (um pouco) as minhas contas com a Boavista, agora falta o Maio.

16.3.07

O Santa Maria

Fotografia tirada na ilha da Boavista. Para chegar ao local "seguir para a Costa da Boa Esperança - um vasto areal que se estende até à Ponta Antónia - onde, em 1968, naufragou o cargueiro espanhol Cabo de Santa Maria (cujos destroços são lentamente devorados pelo mar)." Instruções daqui. Para sentir um pouco mais a ilha recomendo este excelente artigo. Se bem me lembro... há um filme que foi realizado por causa deste cenário. Depois confirmo os detalhes e informo. Bom Fim de Semana!

11.3.07

A chuva do dia 28 de Agosto de 2001

Caboverdeano que se preze e goste de escrever tem de "botar" algo sobre a chuva… É sina. Vem isto a propósito de me ter apanhado a pensar no que não daria por uma boa chuva, miudinha, para limpar este tempo feio di pó di terra que nos assombra faz meses. E lembrei-me de uma crónica que escrevi sobre o tema. Saiu no Terra Nova de Agosto/Setembro de 2001. Transcrevo pela "originalidade", por ser totalmente extemporâneo, porque os problemas persistem, pela ironia q.b. e porque não me estou a ver a escrever algo do tipo quando a chuva vier, se bem que... como diz a Marisa, "inda Agost câ dà!". Chamava-se…

Manhã de Azagua
Chove lá fora… a Azagua começou. Sinto-me contente até ao momento em que uma pontada de ansiedade me atinge. Santa Barbara! Este vai ser um daqueles dias. Vou estar meio perdida a conviver com pensamentos dúbios aliados aos velhos sentimentos “chuvais” que nós, cabo-verdianos, carinhosamente cultivamos e que, as vozes da comunicação social, melhor do que ninguém, dão alma.
Sintonizo, no rádio, o programa “… a voz da alma creola – directamente da cidade do planalto…”, onde mais uma revelação da nossa constelação musical canta “camponês ca bô tchora, ca bô desespera… qui um dia tchuba ta bem”. Um sentimento de medo invade-me. Começou… Eu sei que isto é maso, mas é o lado sado que vence. Questiono-me se o locutor vai ler outro texto fresco e campestre da, habitual colaboradora, Cláudia V., mas logo a seguir venho a mim, se só ontem, a crónica da passagem da Assomada a cidade foi lida, tenho ainda alguns dias de ansiosa espera.
Prosseguindo… a voz de Bius encanta, com mais um tema musical sobre chuva, quando, mentalmente, me preparo, para à noite, na televisão, ver as batidas e rebatidas imagens dos meninos brincando nas poças de agua lamacenta, correndo barquinhos, molhando os pezinhos, prontos para mais uma desinteriazinha, enquanto nós, telespectadores, assistimos, alegremente descansados, com tanta incongruenciazinha. Desta vez sim, o Mamãe Velha (...) será bem encaixado. Tenho a certeza que a TCV vais começar o Telejornal com o poema musicado. Não, não sou adivinha, é o que vem acontecendo ano após ano. (...)
Mas temos chuva. Não importa que nas encostas, todos os anos as águas corram para o mar, engolindo mais punhados de terra arável. Que nas cidades, ruas se tornem intransitáveis, casas sejam inundadas e transeuntes se façam acrobatas. Temos chuva!
Sentimo-nos aliviados. O camponês está feliz! Uma vez mais, cumprirá o ritual da monda, mesmo que, tal como anteriormente, este ano, também não adiante muito. Ritos são ritos, ad eternun! E nós pensamos, reconfortados, que até temos um bom motivo para faltar ao emprego, mas isso dura, apenas, até ao momento em que nos lembramos que as nossas empregadas também o farão. Mas relevamos, pelo menos por alguns dias, relevamos. Estamos todos unidos no sentimento de sermos 100% cabo-verdianos e vivermos num país de amor e solidariedade.
A emissão prossegue. O programa “Voz Solidária” leiloa percentagens simbólicas de historias de miséria, para que, no aconchego dos nossos gabinetes climatizados, nas nossas casas estanques ou mesmo na rua, abrigados nos nossos carros, falando no terceiro telemóvel em dois anos, tenhamos motivos para nos condoer e comprar, publicamente, uma fracção dessa desgraça de não poder e não ter. Mas, logo de seguida, todo o sentimento é varrido, A voz eufórica do locutor, até há momentos sensibilizada, anuncia que “os agricultores estão felizes e prontos para o trabalho, com a magnífica chuva que cai…” e nós, apaziguados, damos graças a Deus. É tempo de Azagua!
Clara Vales
Mindelo, 28.08.01

10.3.07

A espera...

7.3.07

New York Times, citação do dia

"The truth is what drives our judicial system. If people don't come forward and tell the truth, we have no hope of making the judicial system work." Patrick J. Fitzgerald. Obs: Um agradecimento especial ao primeiro Amante da Rosa pelo envio desta citação de teor universal, logo, extensível às nossas ilhas.

5.3.07

A Incrível Odisseia dos Tags

Sobrevivi à classificação e reclassificação dos posts. São estes os Tags/Marcadores que existem no blog: América, Angola, Boavista, Brasil, Brava, Clara Vales, Creolo, Crónica, Darwin, Descendentes de Caboverdeanos, Divagações, Diálogo, Emigração, Escravatura, Estórias, Expedições, Família, Fogo, Fotografia, Fotografias Antigas, Guiné, História, Ilhéus, Ilustrações Antigas, Ingleses, Judeus, Livros, Maio, Mapas Antigos, Meus Poemas, Mindelo, Minha Ficção, Minhas, Fotografias, Mitos, Morna, New Bedford, Nova Sintra, Palhabote Ernestina, Paula Rego, Poder, Poetas Caboverdeanos, Portfólio, Portugal, Praia, Quadros, Recordações, Ribeira da Barca, Ribeira Grande, Sal, Santiago, Santo Antão, Sweet Daddy Grace, São Nicolau, São Vicente, Telégrafo, TIC's e afins, Vulcão. Aceito sugestões. Os itens como História e Divagações podem vir a ser subdivididos. Até lá... que seja útil.

26.2.07

Interrogações semi loucas em forma de diálogo.

- Penso muito em Amaranta ultimamente. Interrogo-me do porquê. Porque agarra ela as brasas de carvão naquela manhã cintilante de Primavera?
- Para que a dor da própria carne lhe endureça o coração e na cegueira dos sentidos encontre a cura. O tacto… perde-o com as cicatrizes e o negro das ligaduras abafa o odor da memória. Acho que o grito ainda lhe percorre o corpo. Mantém-no preso. Acarinha-o. Tudo mais é lenda. O porquê da surdez do momento. A mortalha de linho branco ainda em forma de meada…
- Enganas-te! A poesia da tua resposta raia a patetice. Amaranta segura os tições por puro poder. Para que os que irão julga-la, como tu, leiam desespero. Ela assenhora-se do espectáculo. Tece com determinação até o momento da morte. Borda o destino. Vinga-se dos outros. Domina-os com a projecção poética que rodeia o acto. Diz-me… quem não teme uma mulher enlouquecida de amor? Percebes? Ela brinca. Mascara, expondo o clarão do poder, no breu com que envolve as mãos. Simplesmente pelo poder.
- Mas o reflexo do poder tem de ser necessariamente negro?
- Acho que sim… ainda que na maioria das vezes se dissimule com outras cores do espectro. A capacidade de mutação não lhe altera a natureza, nem quando se veste de luz e esperança.
- … e o desamor que levou à acção? E a velha fórmula “luz igual ausência de trevas”. Uma fantochada?
- Quase, mas não desse modo. O amor é mais parecido com a letra daquela música dos anos 80 “a ponte é uma passagem p’rá outra margem… a ponte é uma miragem.” Difícil se vislumbrar se se não se arrisca a entrar nas brumas e, uma vez nelas, a maior parte das vezes…
- …perdemo-nos.
- No princípio há o mistério, a descoberta, o encontro e depois… onde vai dar?
-À luta pelo poder sobre o outro?
- Voilà! Brigar para ser o dono dos fios invisíveis que condicionarão as acções do ou dos outros.
- É maquiavélico!
- Não… é humano e acontece todos os dias a todos os níveis. Percebes agora porque Amaranta faz o que faz?
- E quando há arrependimento?
- É uma merda! São detalhes desses que dão cabo da eficácia de muitas lutas.
– Então é por isso que, quase no fim da mortalha, ela descose todas as noites os bordados que fez durante o dia…
- Sim, o poder e o medo andam de mãos dadas.
.
Amaranta mora em Cem Anos de Solidão, livro de Gabriel Garcia Marquez. Não é bem esse motivo porque queima as mãos nas brasas do fogão da cozinha mas… pode ter sido. A música é da extinta banda “Jafumega” e eu gostaria de poder dizer que a leitura de “O Príncipe” não me subiu à cabeça durante este fim de semana… Buuu!

19.2.07

O meu sonho irá

"Levado pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.
(...) E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes. (...)
Eu sei que fico mas o meu sonho irá ... "
Poema de Aguinaldo Fonseca e fotografia daqui

11.2.07

"Vou Ser Senhor do Mundo"

"Vou falar com o Pássaro-Rei, vou-lhe pedir um favorzinho: vou ver se ele me dá emprestado sete penas brancas para eu voar e ir poisar no teto do mundo. Se ele disser que sim, estou garantido, porque Capotona-Preta prometeu virar-me dum passo para o outro, em senhor da terra, senhor das águas, senhor dos céus, senhor do Mundo. Mas é se eu voar com as sete penas brancas e for poisar no teto do Mundo. E porquê ele não me faz o favorzinho, se lhe levo um punhado de milho e se lhe digo: — Por favor?"
poema de Jorge Barbosa e fotografia daqui.

1.2.07

Esgrovêt na HI5

Eu, (nem sempre) humilde pecadora me confesso… caí na tentação do "esgrovêt" da vida alheia! Vasculhei barbaramente todos os nomes que me vieram à cabeça, quer simpatizasse ou não. Amigos, conhecidos e desconhecidos… varri tudo! Não adiantou nada e sequer fez de mim uma pessoa melhor, pelo contrário. No fim apenas conseguia questionar o porquê da existência do HI5. Ok, ok, como não sou uma pessoa de muitos amigos, é fácil, para quem me conhece minimamente, entender que pergunte - como é possível haver gente que consegue ter 100, 200 até 500 (!!!) amigos numa lista da internet em que todos podem ter acesso? Tudo chapadinho, com fotografias, informações e comentários. Muito do lindo e muito do público! Será que vale mesmo a pena ter uma página on line onde divulgamos os nossos dados, os retratos mais bonitos e exibimos os amigos, conhecidos e familiares desta forma? É realmente necessário tornar público os bons sentimentos que nutrimos pelos outros? Qual a verdadeira utilidade do HI5? Haverá mais pessoas a pensar como eu? Há! A coisa boa deste mundo globalizado é que quando julgamos estar na periferia da periferia do acontecimento eis que, mediante uma simples busca no google, com as palavras desvantagens vantagens hi5 surgem 307 links! Encontrei um texto muito engraçado do Nuno Markl, o autor do livro “O homem que mordeu o cão”, que recomendo. Entretanto, fica para uma proxima vez um post sobre vantagens desvantagens blogs.

29.1.07

Cabo Verde de Minas Gerais

Em Minas Gerais, no Brasil, há um município que se chama Cabo Verde. O motivo? Reza uma das lendas que "povoadores vindos do Arquipélago de Cabo Verde (...) encontrando (...) pedras semelhantes às da terra natal, quiseram homenageá-la, colocando o seu nome no novo descoberto". Mais aqui.

21.1.07

O Tratado das Rainhas


A 3 de Julho de 1842 é assinado em Lisboa, pelos Plenipotenciários das Rainhas Dª Maria II de Portugal e Victoria do Reino Unido, o "Tratado para a completa abolição do Tráfico de Escravatura". Eram jovens na altura... tinham ambas 23 anos. Duas mulheres com um percurso de vida que merece ser descoberto. Começar por aqui e aqui. O documento que ilustra o post está na site do Arquivo Histórico Nacional.

17.1.07

"Compelling portrait of two former slaves."

Entre a vontade cada vez maior de acabar com o blog e a pesquisa que ando a fazer sobre a escravatura... entrou-me pelo ecrã adentro este retrato. Fiquei siderada! São dois ex escravos (no dito outono ou inverno literário da vida) que nos olham lá dos confins do Texas do século passado. O link para descobrir mais sobre o assunto está título do post. Face a uma imagem destas... Como ficar de mau humor? Hum???

7.1.07

Ribeira Grande por Darwin

"In the course of an hour we arrived at Ribeira Grande, and were surprised at the sight of a large ruined fort and cathedral. This little town, before its harbour was filled up, was the principal place in the island: it now presents a melancholy, but very picturesque appearance".
Charles Darwin (The Voyage of the Beagle, 1839)
Clicar no título/link para mais informação.

2.1.07

E se plagiarmos sem saber?

A dúvida foi-me lançada por um amigo, a quem eu li o ultimo poema que "postei".
“- Gostaste?
- Sim, gostei… mas pareceu-me que já tinha lido algo parecido em qualquer lugar.
- Como???
- (silêncio indeciso de quem não sabe se diz ou não...)
- Como é possível? Eu escrevi isso ontem… Qual parte, diz? – insisti.
- … a parte dos sapatos vermelhos”.
Ainda pensei duas vezes antes de pôr o poema online, e, foi nessa sequência, que surgiu a ideia deste post. E se plagiamos sem querer, quero dizer, inconscientemente? E se vamos buscar ideias de textos ou palavras que já lemos e que ficam guardadas no nosso inconsciente até ao momento em que as resgatamos, pensando que tivemos um ataque de inspiração súbita? Se a mente prega partidas até bem piores porque não essa?
Lembrei-me de um texto que tinha lido sobre o assunto e parti á procura na net. Não encontrei, mas encontrei esta frase em O Plágio Criativo: “Carlos Drummond de Andrade ensinava, ironicamente, que o desenvolvimento da originalidade possui algumas etapas, a primeira das quais é imitar os modelos clássicos, e a última... imitar-se a si mesmo até a morte!”. Há diversos tipos de plágio, segundo a pesquisa que fiz, o plágio que é feito de propósito e com má fé, o plágio consciente, inspirado em algo concreto e o plágio inconsciente. Existem ainda diversos subgrupos que não vou mencionar. Pessoalmente, não acredito que algum deles seja desculpável e até o auto-plágio é feio. Resumindo, originalidade é difícil e dá trabalho! O melhor a fazer, segundo um artigo que li, é desconfiar das inspirações súbitas. É um tema vasto que merece ser pesquisado. Fica o convite. Já agora... se por acaso tiverem algo a acrescentar ao tema ou ao poema do dia 31 de Dezembro de 2006, vou querer “ouvir”. Bom 2007, com ou sem sapatos vermelhos!
Observações:
1. uma das coisas boas da escrita, é que ela nos ajuda a espantar os nossos proprios demónios (não é uma citação, é uma paráfrase a uma frase que a Dª F. B. me escreveu). Eu, depois do poema passei a noite de fim do ano em família! Afinal... para quê me acabar se já o tinha feito mentalmente?
2. há mais imagens/comparações semelhantes à que coloquei no post aqui.