16.10.07

O Tempo e o...

Ser Tigre
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O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
Não soa,
porque não respira.
É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.
Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
Porém existe,
por isso espera.
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será
quando for tempo disso.
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Nueva refutación del tiempo
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El tiempo es la sustancia de la que estoy hecho.
El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río;
es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre;
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego.
El mundo, desgraciadamente es real; yo desgraciadamente soy Borges.

15.10.07

Guiné... Do Séc. XIII a princípios do Séc. XX

O texto e as ilustrações que seguem são a primeira parte de um post que se encontra no blog Guiné, Ir e Voltar.

"No século XIII, chegam a esta região da costa ocidental de África os povos naulu e landurna, na sequência do declínio do império do Ghana. É já no século XIV que esta zona passa a integrar o vasto império do Mali, vindo os primeiros navegadores portugueses a estabelecer contacto com ela em 1446-47.Inicia-se então um longo processo de implantação do monopólio comercial na região, incluindo ouro e escravos, o qual vai ser, durante muito tempo, frequentemente e sobretudo contestado por corsários e traficantes franceses, holandeses e ingleses. Em 1588 os portugueses fundam, junto à costa, em Cacheu, a primeira povoação criada de raiz, a qual será sede dos capitães-mores, nomeados pelo rei de Portugal, embora sob jurisdição de Cabo Verde. Seguir-se-á a criação da localidade de Geba, bem no interior do continente. Em 1642, os portugueses fundam Farim e Ziguinchor, a partir da deslocação de habitantes de Geba, dando início a uma ocupação das margens dos rios Casamança, Cacheu, Geba e Buba, a qual se torna efectiva em 1700, passando então a zona a ser designada por Rios da Guiné. Amura, século XIV (Travassos Valdez, África Ocidental).
Entre 1753 e 1775 inicia-se a construção da fortaleza de Bissau, a partir do trabalho de cabo-verdianos vindos especialmente das Ilhas de Cabo Verde para o efeito. Em 1800 a Inglaterra começa a fazer sentir a sua influência na Guiné, iniciando a sua reivindicação pela tutela da ilha de Bolama, arquipélago dos Bijagós, Buba e todo o litoral em frente. Com a abolição da escravatura no século XIX, sobrevém uma crise económica que tem como consequência o início da produção de novas culturas, como a mancarra (amendoim) e a borracha. Em 1870, por arbitragem do presidente dos EUA, Ulysses Grant, a Inglaterra desiste das suas pretensões sobre Bolama e zonas adjacentes. Com a vitória militar dos felupes de Djufunco, em 1879, no que ficou a ser conhecido na história como o “desastre de Bolol”, onde os militares portugueses sofreram a mais dura derrota no confronto com as populações locais, a coroa portuguesa decide a separação administrativa de Cabo Verde e a criação da “Província da Guiné Portuguesa”, com capital em Bolama. Numa tentativa de afirmação da soberania portuguesa, verifica-se então o início de acções militares punitivas contra os papeis em Bissau e no Biombo (1882-84), os balantas em Nhacra (1882-84), os manjacos em Caió (1883) e os beafadas em Djabadá (1882). A estratégia colonial passa igualmente por uma segunda vertente: o apoio sistemático com tropas e armamento a uma das partes dos conflitos indígenas. É o que se passa em 1881-82, com o apoio aos fulas-pretos do Forreá na sua luta com os fulas-forros. Os focos de contestação e a rebelião permanente e consequente dos diversos grupos étnicos fez com que o poder colonial se limitasse ao controlo de algumas praças e presídios (Bissau, Bolama, Cacheu Farim e Geba). Paralelamente, começa a instalação de propriedade de colonos ou de luso-africanos, em várias explorações agrícolas de grande dimensão (pontas) inicialmente dedicadas ao cultivo da mancarra. Em Maio de 1886, são delimitadas as fronteiras entre a Guiné Portuguesa e a África Ocidental Francesa, passando a região de Casamança para o controlo da França, por troca com a região de Quitafine (Cacine), no sul do país. A população desencadeia a partir do final do século XIX uma decidida vaga insurreccional em Oio (1897 e 1902), no Chão dos Felupes (1905), Badora e Cuor (1907-08) e a Guerra de Bissau (1908) que juntou Papeis e Balantas do Cumeré.
Fotografia em cima: Estatua de Ulisses Grant em Bafatá.
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O resumo continua... A meio desta página do Tantas Vidas está a parte que diz respeito à Historia da Guiné-Bissau no Séc. XX

11.10.07

A proposito da Guiné... Didinho.Org

Tenho evitado falar da Guiné porque penso que as memórias que tenho dela são idealizadas e retorcidas. Daí que não queira traduzir nenhum tipo de saudade passadista. Posso dizer, apesar de todas as vicissitudes, que a minha infância foi mágica e feliz (e um dia escreverei sobre isso). Claro que, generalizando, todos pensam o mesmo da meninice. Infelizmente a Guiné de hoje apresenta um cenário triste e um futuro sombrio. E, tenho que o expressar, acho que os muitos caboverdeanos que lá nasceram, cresceram e se fizeram adultos, a abandonaram. É a própria História a confirmar essa premissa quando, em 1980, com o Golpe de Estado, o C do “Dôs Corpu um Corçon” se liberta, com um grande alívio, do G. Em Cabo Verde, às vezes, fico com a sensação que a única herança que restou, para quem lá viveu, são as comidas típicas como o tchabéu, o caldo de mancarra ou outras, que se degustam, sem remorso ou amargo de boca, em grandes almoçaradas. Nessas ocasiões há o ritual de recordar a infância e vida na altura, com um saudosismo quase idiota, sendo a presente conjuntura, a maior parte das vezes, higienicamente ignorada. Raros são os que sequer lá voltaram. Aquele país deu muito aos caboverdeanos, incluindo uma Independência sem sofrimentos, sem viúvas e/ou órfãos, sem traumas e mutilados. Muitos dirão que a vida continua. É verdade, mas a mim, confesso, faz-me falta esse pedaço, o lugar da minha mininéça. Imagino o que não faltará aos outros...
Há muitos sites com o objectivo de divulgar o que acontece, presentemente, na Guiné-Bissau e Didinho.Org é um deles. A descobrir porque as palavras e as ideias ainda podem ajudar a mudar o mundo. Obs: Fotografia de Hugo Delgado

6.10.07

Recordar Travadinha em "Maria Barba"

De seu nome verdadeiro, António Vicente Lopes, o violinista Antoninho Travadinha foi um dos maiores músicos autodidactas de Cabo Verde, originário da ilha de Ilha de Santo Antão. Começou a tocar nos bailes populares quando tinha apenas nove anos, mas só alcançou a fama já nos seus quarenta anos, quando empreendeu uma tournée por Portugal. Para além do violino, Travadinha tocava também maravilhosamente bem viola (guitarra de 12 cordas), cavaquinho e violão. Travadinha interpretava géneros musicais tradicionais de Cabo Verde, tais como mornas e coladeiras. Faleceu em 1987 no auge da popularidade. Foi, sem qualquer dúvida, um dos mais talentosos violinistas (tocadores de rabeca) de Cabo Verde. Nasceu numa família de músicos. O seu pai também era violinista e os seus sete irmãos tocavam violão. Com que mais poderia brincar uma criança que com os instrumentos musicais que encontrava pela casa? Aos nove anos, e apesar do pai o proibir de tocar, ele já animava bailes locais com a sua rabeca. Devido à sua humilde condição social o seu reconhecimento não foi fácil: Travadinha teve que esperar até aos seus 40 anos para começar a tornar-se conhecido como músico, particularmente depois de, em 1981, ter realizado uma série de actuações em Portugal. Da wikipedia.org. "Entre 1981 e 1986, Travadinha deslocou-se duas vezes a Portugal, ocasiões em que gravou os seus dois discos existentes no mercado: o primeiro, ao vivo, resultante de um concerto no Hot Clube em 1982; o segundo, “Feiticeira de Cor Morena”, em 1986. Ambos produzidos pelo fotógrafo e investigador português João Freire. Em Novembro deste ano o violinista de Janela, Santo Antão, completaria 70 anos. Também este ano, completam-se duas décadas do seu falecimento." Na Semanaonline.

1.10.07

Desvendando "O Segredo"

A Marisa emprestou-me o “The Secret”. O livro vem de um filme que, ao que parece, provocou uma autêntica revolução por este mundo fora. Pelo menos assim se lê em centenas de páginas na net. O mote? “The Secret Gives You All”. E afinal qual é Segredo? A Lei da Atracção. No primeiro momento, li algumas páginas na diagonal, e pensei que fosse mais uma dessas teorias New Age ou esses livros de Self Improvement que existem. Até é… mas a ideia geral acaba por pertinente, provocadora e engraçada. Somos e possuimos o que projectamos com os nossos pensamentos. Os negativos e os positivos. No fundo os pensamentos têm um determinado cumprimento de onda e quando pensamos em algo (acho que me estou a explicar bem) esse pensamento vai à procura de algo com idêntico cumprimento de onda para cumprir o nosso desejo. Mais, devemos pensar em nós como antenas emissoras de sinais e ter em atenção os pensamento negativos. Resumindo, atitudes pessimistas só trazem mais coisas más à vida das pessoas. E as atitudes positivas, o tal pensamento positivo, resulta. É só querer. Pois "(...) o que acontece dentro de nós é que vai criar o que acontece fora. Existe uma realidade física que é absolutamente sólida mas só começa a existir quando colide com outro pedaço de realidade física." (daqui). Eu ainda não acabei de ler O Segredo. Estou na parte em que se aprende a utilizá-Lo (me aguardem!) e quis partilhar. O You Tube tem os primeiros 24 minutos do filme que deu origem ao livro. Se me atrapalhei na explicação (acredito que sim) o site oficial é: http://thesecret.tv/home.html.

24.9.07

Descobrir: João da Silva Feijó

O Ceará está hoje tão perto de Cabo Verde… Essa ligação trouxe-me à memória o percurso de vida do naturalista João da Silva Feijó (1760-1824) que descobri, há uns tempos, num dos muitos “sgrôvets” pela net.
João da Silva Feijó foi um naturalista luso-brasileiro comissionado pela Coroa portuguesa, na transição entre os séculos XVIII e XIX, para fazer investigações em história natural. Foi enviado para as ilhas de Cabo Verde (1783-1797) e para a capitania do Ceará, no Brasil (1799) (daqui).
O interessa por Cabo Verde, na época, era "sobretudo estratégico nas rotas dos navios que sulcavam o Atlântico. Não tendo muito mais para dar além da urzela, os produtos que o ministro reclamava a Feijó eram o salitre nativo e o enxofre. O enxofre, por constituir os alicerces da indústria química; o salitre, que então se importava manufacturado do estrangeiro, para baixar assim os custos da pólvora. Não os encontrará em Cabo Verde, entre as lavas expelidas pelo vulcão, pelo menos em quantidade que justificasse extraí-los. Mas muitos anos depois, já de regresso ao Brasil, fundará no Ceará um laboratório para extracção do salitre da Mina de Tatajuba, descoberta por ele." (daqui)
Deixou várias publicações, sobre o Ceará - "Memória sobre a Capitania do Ceará, 1814" - e estas ilhas. Sobre as últimas destaco: Memória sobre a fábrica real de anil da Ilha de Santo Antão, 1789; Memória sobre a urzella de Cabo Verde, 1815; Memória sobre a última erupção vulcânica do Pico da Ilha do Fogo, sucedida em 14 de Janeiro do ano de 1785, observada e escrita, etc..., 1814; Itinerário Filosófico que contem a relação das ilhas de Cabo Verde, disposta pelo método epistolar, 1783. (capa como ilustração do post). Ficou a vontade de descobrir, on line, alguns desses documentos...
Vale a pena ler sobre a vida e obra de João da Silva Feijó. Para além de outras informações espalhadas pela net, esta página contem três artigos que dão uma ideia geral de quem ele foi e o que deixou escrito. Não deixar de passar os olhos pelas as cartas, onde ele descreve as ilhas Brava e Fogo. Por último, segundo Magnus R. de M. Pereira, em Cabo Verde, o então jovem João da Silva Feijó foi um naturalista num ninho de cobras... Para quem tiver mais tempo, está tudo aqui.

22.9.07

Ismael Lo - Tajabone

Lembras-te?

20.9.07

Descobrir: Mail Art

Mail art réalisé par Christine Le Roy sur la terrasse du
Mindel Hotel notre Quartier Général à Mindelo, Cap Vert.

18.9.07

Ao 100º Post...

É nova... esta sensação de repouso que a folha de papel virtual me vem transmitindo através do ecrã do PC. Não há ansiedade provocada pela tristeza ou palavras enegrecidas de melancolia. Não há pensamentos tumultuosos, vontade de compartilhar factos interessantes ou divagações loucas. Não há inspiração. Não há nada. Há paz... É curioso.

10.9.07

Bijagós - Memórias de um pai

Após a separação dos meus pais, aí por volta dos meus dez anos, passei a fazer parte do espólio do meu velho. Ele, aos 33 anos, com o fim do casamento, reinventara-se marinheiro errante e pescador, desventurado que estava com o início da guerra que o impedia do de circular pelas estradas da Guiné. Já lhe estava na matriz de ilhéu o destino de ser um deambulante incansável e, na altura, a pretexto de uma fuga imaginária, transferiu a sua sanha de aventuras para a descoberta um arquipélago desconhecido, onde poderia livremente saltar de uma ilha para outra. Um lugar onde as lágrimas que foi vertendo, certamente a olhar para lá das ilhas de Caravela e de Unhocomo, se foram diluindo na mistura baça resultante do encontro das águas do Rio Geba e do Atlântico. O horizonte longínquo que em algumas ocasiões pairava no seu olhar perdido foi-me decifrado numa manhã solarenga, de mar prateado, com vento de través, no canal entre as ilhas de Uno e Orango, quando murmurou, agarrado à cana do leme que aquela canoa, a sua “Ave do Paraíso” como carinhosamente a apelidava, certamente que aguentaria ir até à ilha de Santiago em Cabo Verde. Mal sabíamos os dois que, quase 40 anos depois, milhares de africanos, a fugir da miséria e instabilidade, desafiariam o destino e as intempéries nessas frágeis embarcações para chegarem tanto às ilhas de Canárias como às ilhas creolas.
O desterro voluntário do velho, por longos períodos, tinha sido a encantadora ilha de Sogá no arquipélago dos Bijagós. E eu, orgulhosamente só em Bissau. Os meus outros dois irmãos mais novos, o Rui e o Djoi, tinham acabado por regressar à protecção e segurança do lar materno. Lá ia aguentando menos-mal a casa da madrasta onde nunca me integrei.
Tornei-me também, junto de outros companheiros de mais idade do Bissau Velho um aventureiro incorrigível de caça, dos banhos e pesca de bentaninhas e bagres nas bolanhas próximas da segunda ponte, lá para os lados de Bulola. Nadávamos em grande algazarra e descontraidamente junto de grandes saltões, de sapos, de lagartixas, de garças, de raras linguanas e de cobras que por vezes se entremeavam, de cabeça erguida, no nosso meio à procura de sossego ou da outra margem, sem contar com os crocodilos que, sempre que alguém gritava lagarto saltávamos em debandada para fora da água. Apesar de alguns terem dito que lhes viam, ali na segunda ponte, nunca os vi. Inventávamos os saltos mais arrojados para a água em especial o “arratchacoco” que repetíamos vezes sem conta em cima dos mais incautos.
Outras vezes, num grupo mais pequeno embarcávamos na lancha “Barreiro” ou no pequeno “Gouveia 16” e íamos para o ilhéu do Rei com os operários da fábrica de óleo de amendoim. Esta aventura era somente para os mais destemidos e que aguentavam fome. Ali não havia árvores de fruto ou quem se condoesse connosco. Voltávamos cedo e durante dias sentíamos o odor do óleo de mancarra para onde fossemos. Por vezes, caminhávamos bem mais longe. Até vermos Cumeré do outro lado de um pequeno rio lodoso, o Impernal. Outras vezes ainda caminhávamos alegres, nus ou semi nus, com a roupa enrodilhada na cabeça, cana de pesca no ombro e a indispensável fisga ao pescoço, sempre em bicha de pirilau, através dos diques das bolanhas e canaviais, através de grandes extensões de terra alagada, até sairmos atrás do quartel de Santa Luzia e entrarmos na Granja do Pessubé. Aqui, num jogo de esconde-esconde com os guardas, surripiávamos fruta e nos banhávamos, se possível, no tanque que apelidávamos de piscina. Depois, ao anoitecer, era o regresso ao Bissau Velho sem sapatos ou algumas peças de roupa, arrependidos e com promessas repetidas de que nunca mais faríamos a pirraça de faltar às aulas. A entrada no Bissau Velho despertava em todos o receio das cintadas ou da palmatória de cinco buracos. Dividíamos no Zé da Amura para não dar nas vistas.
Pai fora e madrasta ocupada com afazeres profissionais. Vida boa. O que mais poderia almejar naquela idade? A vontade de continuar livre foi tanta que após um bom final de exame do segundo grau disse orgulhoso a uma vizinha da minha Mãe, perante um olhar dela de comiseração e surpresa, que não tencionava mais voltar à escola porque o meu Pai tinha dito que para ser pescador não era preciso mais que a quarta classe. Ainda acabei, por alguns meses, como aprendiz de mecânico, nas oficinas navais.
Mas antes, num certo dia, numa das inúmeras passagens pelo porto do Pidjiguiti, após as aulas, soube que a canoa a motor de cerca de nove metros a flutuar desajeitadamente a uns metros, para além da cabeça de ponte, era do meu velho e que se prestava a sair com a vazante, de regresso aos Bijagós. Não hesitei e arranjei forma de embarcar. Ninguém mais conseguiu de lá me tirar por mais argumentos que me fossem apresentados.
Época das chuvas, com uma brisa irregular do Sudoeste, horizonte escuro lá para os lados de Tite e de Enxudé a avisar da aproximação de um tornado e mar algo encapelado lá fomos, meia força avante, apontando, num fim de tarde triste, para a embocadura desse largo rio de onde por vezes não se via a outra margem.
Uma hora depois, resguardado, por uma manta fortuita do arrais Nhô André, compadre do meu velho, fascinou-me ver a água fosforescente a deslizar para trás, as luzes de Bissau a desaparecerem e um farol, o Pedro Álvares, muito ao longe pela proa, por vezes, a piscar. O bater compassado do esporão da canoa nhôminca a cortar as ondas altas, as inclinações laterais e a chuva miudinha pouco me amedrontaram. Sentia-me o herói de uma aventura da banda desenhada do Príncipe Perfeito e do Simbad.
Mesmo assim, lá para as nove, já com a lua a iluminar o rastro deixado pela canoa, após ter tentado imitar os outros, mijei em equilíbrio precário para sotavento, mastiguei a custo um pão duro e bebi, por um dos orifícios, quase meia lata de leite condensado que me deram. Adormeci depois todo enrolado e a tiritar em cima de uma prancha, logo a seguir à arca de gelo.
Uma avaria inesperada no único motor, ao largo da ilhas das Galinhas, faria com que continuássemos, a custo por causa da enchente, à vela e a remos até ao nascer do sol. Lá pelas nove, já com a força da maré de vazante, desembarcamos, perante a fuga de mais de uma dezena de macacos e debandada ocasional dos habituais caqres, numa praia da lindíssima ilha de Rubane. O meu primeiro desembarque de muitas outras paragens pela maioria das mais de 60 ilhas e ilhotas. Achei que aquela paisagem deslumbrante seria a tradução do que deveria ser o paraíso. E nunca me arrependi desse juízo. A viagem continuou ainda para uma outra ilha (Canhabaque) algumas milhas adiante, para recolher o meu Pai, que um dia quase que se tornava um nobre desse pequeno reino dos Bijagós. Muito certamente o primeiro espaço da África negra a sofrer um bombardeamento aéreo na guerra dos Bijagós de Canhabaque contra os poderes coloniais por volta da década de 20 do século passado. Só seriam considerados completamente pacificados após sucessivas campanhas que terminaram em 1936.
Mas, depois contar-te-ei com mais detalhes e também do meu encontro com um pai assustado até dizer chega, por ver a loucura que eu tinha feito e naquelas condições de tempo. O meu receio de poder levar uma valente sova quando ele me visse e as ilhas que percorremos, numa breve semana, até retornar, a toque de caixa, a bordo do lento e estafado “Ametite”, à enfadonha turma da quarta classe da Escola Oliveira Salazar, em Bissau. Poucos dos colegas acreditaram que tinha feito tamanha proeza por ser dos mais novos, franzino e não passar de um brancucinho, que apesar de brigador e rápido, jogava desajeitadamente à bola e que até ia para a escola de tchacual. Ainda hoje, julgo que partilho da mesma praga que tombou sobre Cassandra.
Até aos meus 21 anos nunca mais lá deixei de ir sempre que podia. Aprendi com vários arrais, sem cartas e ou outros instrumentos, a não ser a bússola, a navegar no arquipélago, aproveitando as estrelas à noite e o pulsar regular das marés, por entre aquelas ilhas e canais, ao ponto de, aos 13 anos, levar o “LP3” de Bissau a Bubaque e regresso, sem supervisão do arrais, sem encalhar e demorar mais tempo. Surpreendia-me sempre o Arrais Avião, cego de um olho, que me instruía assim “segue paralelo à Sogá, passa o canal de Bubaque, até veres a ponta mais afastada de Rubane, aproas à ponta e deixas a popa na extremidade norte de Sogá até estares dentro do canal. Atenção ao descaimento provocado pela enchente e na vazante à malhadeira na ponta de Bubaque à entrada do canal”. Um autêntico desafio seguir estas instruções na roda do leme. Umas vezes de canoa a remo ou à vela ou outras vezes no barco de pesca e navios de passageiros fui conhecendo o último paraíso desta costa africana que até há pouco tempo ainda detinha resquícios de uma sociedade matriarcal.
O site dar-te-á o alumbramento do que pude ver pela primeira vez. O encanto das ilhas, suas gentes, flora e fauna nunca se perderam dos meus olhos apesar de ter percorrido mais de meio mundo e visitado lugares exóticos. Vê e diz-me se não é mesmo um paraíso o que descobri ainda na infância
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9.9.07

Texto plexo sem nexo

Ouves o esvoaçar da Borboleta Negra? Aquela que abre as asas na madrugada do teu sonho, te roça a face no repouso mais profundo e cresce cresce amadurece. Sufocas o pressentimento, mudas de posição e quando por fim entreabres os olhos… lá esta ela feita o caos da tua vida. - Voa voa borboleta… sussurras quase inconsciente. É então que te recordas daquela vez em que a viste, ainda menina, no vão escuro da escada. A humidade sufocava, o silêncio do meio-dia ardia. Tocaste-lhe. Ela espreguiçou o tempo nas asas aveludadas de negro e voou… .............Fotografia de Jayne Hinds Bidaut

31.8.07

Curtas, Ideias e Neuras

Regressei ao trabalho, silenciosamente, desde o início da semana.
Ferias na Praia em pleno mês de Agosto… calor, falta de água, falta de luz e sei lá mais o quê. Já foi tudo dito. Para contrabalançar ficou a observação do Guilherme que “Praça d’ Praia (Cruz do Papa) é más sáb! Ten baloiço, ten scorrega. Praça de Soncent ten só tanque! …e baziu”, rematou a Andreia sabiamente. Eu bem que desconfiava... eh eh!
Mudando de assunto…
Ocorreu-me que poderia contar o porquê do apelido (e do nome do blog) Amante da Rosa. É uma estória engraçada. O meu pai também me ofereceu um texto interessante sobre as memórias dele das ilhas dos Bijagós (Guiné Bissau). Falta somente formatar e acrescentar imagens. Outras ideias surgiram e apagaram-se com a mesma velocidade.
Entretanto…
Acho que todos os que têm um blog já sentiram, alguma vez, aquela vontade de deletar tudo muito pura simplesmente (e pronto e mais nada!). Desde ontem que ando assim. Motivos? Mil e um. Falta de inspiração, porque chove e a cidade está caótica, porque é tempo de despedidas, porque... porque... Tenho é uma graça muito grande de explodir no ar, assim como no poema:

"Era Verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar."
Eugénio de Andrade
Obs: Fotografia daqui.

3.8.07

Harry Potter, Socrates, o Amor e a Imortalidade

Adoro a série do Harry Potter. Adoro! e mal posso esperar que me chegue às mãos o último livro, ainda que com muito tristeza, pois, oficialmente, a saga termina no sétimo número. Procurando algo sobre o livro, encontrei este texto que gostei muito e do qual destaco este trecho:
“A visão que Sócrates tem do Amor é a seguinte: considera o Amor um intermediário entre os deuses e os homens – um dáimon -, que origina no homem o desejo de ser mais que mero animal, mais que matéria. O Amor nos situa entre o mundo físico e o mundo espiritual (ou mundo das ideias, como Platão gostaria). Este dáimon, filho da Penúria e do Engenho, faz a ponte entre o mundo ideal e o mundo material, o qual Platão considera uma consolação ridícula, uma cópia mal feita do mundo das ideias puras. Para Platão, esta proximidade dos mortais para com os deuses –que nos consola a penúria da condição biológica - é alcançada através do Belo e do Bom. Quanto mais ideal, mais virtuoso for o objecto do amor de um homem, mais próximo dos deuses ele estará. E mais próximo ainda de alcançar o que todo homem almeja: felicidade (eudaimonia). O Belo, por sua vez, podemos amar numa pessoa, ou na ideia de Beleza, pura e simples. Platão prefere a última, por ser mais filosófica (e o filósofo, para Platão, nada mais é que um dáimon entre os homens, a encarnação do Amor pelo conhecimento(...). Assim, movidos pelo amor, geramos algo no Belo, utilizando o engenho que o Amor herdou de seu pai. Este engenho pode ser chamado de inspiração poética, de bravura, de inteligência, perspicácia, rapidez. O amor por trás de todos estes aprimoramentos do ser humano é o verdadeiro protagonista da série (Harry Potter). O Amor, resumindo bastante, nada mais é que o tónico que nos impele a ser imortais. Só que esta imortalidade não é construída por Horcruxes ou coisitas do género. A imortalidade socrática é a imortalidade da substituição: geramos no Belo. Filhos, poemas, leis e grandes obras, de modo a “gravar” em matéria a Beleza e a Bondade que o homem conquistou em vida. Gerar algo novo para ficar no lugar do velho (de si mesmo), que perece, vira pó. Assim, gera-se a imortalidade dos grandes poetas, dos grandes homens e mulheres.”
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Bem hajam e até daqui três semanas… vou de ferias.

30.7.07

Elza Soares e Jorge Aragão


Para agitar esta Segunda Feira de chove não molha... Vamos lá!!

22.7.07

Linhas Férreas em Cabo Verde - por Salomão Vieira - Parte II

2. Outras vias férreas em Cabo Verde
Nenhuma outra ilha de Cabo Verde teve caminhos-de-ferro do tipo dos caminhos-de-ferro salineiros construídos na ilha do Sal.
Porém na ilha de S. Vicente, no Porto Grande, Mindelo, diversas pequenas vias férreas existiram desde cedo (desde 1853) para o transporte do carvão dos depósitos para os navios.
Em 1925 as 3 casas carvoeiras existentes – Miller & Corys, Co, Wilson e S. Vicente Coaling, Lda, tinham todas as suas linhas férras; a St Vicente Coaling usando sistemas já mais complexos (4 vias férreas de bitola larga e muitas wagonetes nos seus depósitos de carvão, segundo uma fotografia da época).
Grandiosos projectos da casa Blandy em 1912 com 2 vias férreas que saíam do porto, e outros em 1925 que incluíam 12 km de linhas férreas, diversas zorras e também 2 carruagens automotoras para transporte de passageiros e 2 carruagens mistas para passageiros e cargas não tiveram qualquer concretização.
Também na ilha de Santiago, no porto da Cidade da Praia se vêem, em postais da época, duas pequenas vias férreas na ponte de desembarque.
Nunca, porém, que conste, se utilizou nelas outra tracção que não a humana, mesmo quando modernos sistemas de tracção estavam já em uso nos guindastes dos portos.
Referências entre os anos de 1913 e 1915 no Jornal do Comércio e das Colónias, de Lisboa, sobre projectos de caminhos-de-ferro, funiculares e aéreos, na ilha de Santo Antão não passaram de equívocos a propósito da construção de um túnel para estrada.
3. Algumas citações sobre as salinas e os caminhos-de-ferro da ilha do Sal
Em “A ILHA DO SAL DE CABO VERDE”, por Joaquim Vieira Botelho da Costa – Boletim da Sociedade de Geografia nº 11 de 1882: “Com o espírito arrojado que possuía (o Conselheiro Martins) nesse ano de 1836 fez assentar o referido caminho-de-ferro, de cerca de 1,5 Km que saindo da salina vinha entestar no lugar de embarque. E foi essa a primeira via férrea assente em território português, bem, como foi o primeiro o túnel por ele mandado abrir no monte da Pedra Lume. Por aquele caminho-de-ferro era conduzido o sal em wagonetes ... que, puxados a muares, o levavam aos depósitos donde em balaios era embarcado à cabeça de mulheres. Se o vento estava de feição, isto é, de NE, supriam as velas, que adaptavam aos carros, ... vindo então os carros da salina puxados pelo vento, e retirando (descarregados), impelidos a braços.”
Em “DESCRIÇÃO DA ILHA DO SAL” por Sócrates da Costa - Revista Colonial, números de Outubro e Novembro de 1888: “Foi o Conselheiro Martins que ali construiu (na ilha do Sal) para o tráfego das salinas o primeiro caminho-de-ferro que houve em toda a monarquia portuguesa.”
4. Bibliografia consultada
Imprensa da época: O Século, Jornal do Comércio e das Colónias, Boletim da Agência Geral das Colónias, Revista das Colónias, Revista de Obras Públicas, Bol. da Sociedade de Geografia, Portugal em África, O Futuro de Cº Verde, A Voz de Cº Verde, Bol. Oficial de Cº Verde. Obras e artigos: “A Ilha do Sal de Cabo Verde”, por Joaquim Botelho Pereira da Costa, Cabo Verde, 1882. “Considerações sobre Cº Verde”, Antº Alfredo Barjona de Freitas – Livrª Férin, Lisboa, 1905. “Subsídios para a História de Cº Verde e Guiné”, Crisóstomo J. de Sena Barcelos, Lisboa, 1911.
“Subsídios para a Indústria de Cabo Verde”, por Augusto Barros, S. Vicente, Cabo Verde, 1916.
Obs: 1ª e 2ª Ilustrações aqui e a 3ª aqui.