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1.4.08

Historia de la Noche

A lo largo de sus generaciones los hombres erigieron la noche. En el principio era ceguera y sueño y espinas que laceran el pie desnudo y temor de los lobos. Nunca sabremos quién forjó la palabra para el intervalo de la sombra que divide los dos crepúsculos; nunca sabremos en qué siglo fue cifra del espacio de las estrellas. Otros engendraron el mito. La hicieron madre de las Parcas tranquilas que tejen el destino y le sacrificaban ovejas negras y el gallo que perseguía su fin. Doce casas le dieron los caldeos; infinitos mundos, el Pórtico. Hexámetros latinos la modelaron y el terror de Pascal. Luis de León vio en ella la patria de su alma estremecida. Ahora la sentimos inagotable como un antiguo vino y nadie puede contemplarla sin vértigo y el tiempo la ha cargado de eternidad.
Y pensar que no existiría sin esos tenues instrumentos, los ojos.

26.3.08

Ainda do Jardim das Hespérides e do Lagarto Gigante que afinal só media 17 cm...

Muitos mitos povoam e povoaram estas ilhas... um dos mais cómicos terá sido aquele que foi apelidado por Estela Guedes, Directora do TriploV, como a maior fraude da Zoologia. O fabuloso Lagarto Gigante, o Macroscincus coctei ou o Lagarto da Atlântida. O réptil começou por medir um metro e meio e, ao longo dos anos acabou nuns meros 17 cm! Dados daqui.
No
último post... viu-se como no princípio do século passado os poetas destas ilhas evocavam o mito hesperitano, algo muito próprio do espírito da época e, se calhar, podem ter ido buscar motivos à zoologia.
É que dizia-se então que o Lagarto Gigante destas ilhas (supostamente habitante do Raso, do Branco e Santa Luzia) era o último sobrevivente do que foi outrora a Atlântida. Grandes homens da ciência da altura foram ao ponto de afirmar que o dito só se alimentava de maças - lembram-se daquelas que o dragão do mito do Jardim das Hespérides guardava? - ainda que nestas ilhas só houvesse gramíneas.
Baltasar Osório (dizia que o lagarto) se alimentava de toda a espécie de frutos polposos. Peracca (que afirmou ter trabalhado com 40 desses lagartos muitos deles vivos) foi peremptório: o alimento preferido do Macroscincus coctei eram as maçãs.”! (Dados e citações daqui).
Segundo registos, figuras das ilhas e não só, como Francisco Newton, procuraram pelos lagartos, chegando a enviar inúmeros exemplares para Lisboa e Paris. - A carta ao lado, de F. Frederico Hoppfer a Barbosa du Bocage, dá conta do envio de 2 remessas de repteis, sendo a primeira do ilhéu Branco e a segunda do Branco - Contudo, parece que os últimos exemplares, confinados que estavam ao ilheu Raso, vieram a desaparecer, quando
uns pescadores de Santo Antão, em 1915, soltaram por lá cães... De modo que até hoje nem fumo nem mandado e nem ossos do Lagarto Gigante.
Este post e antepenúltimo foram baseados no imenso material escrito por Estela Guedes, disponivel nos diversos links do index do TriploV - CaboVerde
e são assuntos que devem ser desenvolvidos por quem esta mais capacitado. O que é certo é que é estória do Lagarto Gigante é das mais engraçadas e mirabolantes que já li. Fica o convite para visitarem o site, tirarem as vossas conclusões e corrigir algum erro meu. Imagens: aqui e aqui.
Entretanto... sobre este mesmo assunto gostaria de convida-los a ler o post intitulado "Maior fraude da Zoologia, ou a superficialidade da má-fé" do Professor Jorge Sousa Brito, autor do blog O outro lado do Eu. Afinal parece que que a estória, se a houve, pode não ter sido bem assim...

15.3.08

Estas iIhas e o Mito Hesperitano

No seguimento do último parágrafo do post anterior recomendo o artigo de Ricardo Riso intitulado: Mito Hesperitano, Pasargadismo, Insularidade: momentos de construção da poesia cabo-verdiana no século XX. Destaco... "No início do século XX, os poetas tentam criar uma história, um passado para o arquipélago diferenciando-o do português colonizador, o pai, e que valorizasse a mãe-terra crioula, a mátria. Entretanto, os escritores ainda recorrem a referências européias na busca de um passado heróico para sua pátria e, assim, chegam ao mito hesperitano. As origens do mito são descritas por Simone Caputo: Aqui pontuamos um topos interessante do percurso de busca de identidade crioula: o recurso ao mito arsanário ou hesperitano como origem (associado à idéia de pátria). As obras de José Lopes e de Pedro Cardoso, já nos seus títulos (Hesperitanas, 1928, e Hespérides, 1929; Jardim das Hespérides, 1926, e Hespéridas, 1930, respectivamente) interpretam a origem como: ilhas do velho Hespério – pai das Hespéridas – que abrigavam jardins repletos de pomos de oiro, guardados pelo dragão de cem cabeças, morto por Hércules. As “ilhas perdidas no meio do mar”, destacadas por Jorge Barbosa em seu antológico Arquipélago, 1935, já eram identificadas por Camões, em Os lusíadas (canto V, VII, VIII, IX) como Cabo Verde (Cabo Arsinário ou Estrabão)." - Imagem daqui e fotografia da Caboindex

27.8.06

Mulher Esqueleto

Há dias, por puro acaso, dei de caras, uma vez mais, com a Skeleton Woman, a Mulher Esqueleto. Conhecia o mito e desta vez deveria saber como agir mas, em vez de sorrir de contentamento, assustei-me tanto que, uma vez mais, só consegui correr. Não lhe dei as boas vindas, não tentei ver para além dos ossos, não a libertei da linha de pesca. Quando devia estar alegre e toca-la para lhe dar forma, fugi, como o pescador da história. Não senti alegria, senti antes o medo. Sequer tentei humaniza-la, apenas corri e quando percebi que ela teimava em seguir-me, cortei o fio que nos unia. Deixei-a só, um amontoado de ossos, largada ao vento, sem ninguém para aconchega-la, sem a carne e a lágrima sonhada. Sem vida… Mas chega de divagações, vou contar-vos, de forma resumida a história da Mulher Esqueleto, um mito Inuit que explica a descoberta do bem-querer, perante nós e perante o outro, e do susto que se leva, do medo que se sente, da coragem, da confiança ou da falta de ambas. Espero que consigam agir melhor que eu, da próxima vez que a Mulher Esqueleto aparecer nas vossas vidas. Talvez sim ou talvez não...

“Há muitos anos um pescador esquimó, longe de casa, chegou a uma baía assombrada pela Mulher Esqueleto. Ela tinha sido atirada ao mar por ter feito algo que ninguém mais se lembrava. Os peixes comeram-lhe a carne, os olhos e ela ia flutuando ao sabor das correntes da baia. A linha que o pescador atirou foi prender-se num dos ossos das costelas dela e ele logo pensou que tinha apanhado um grande peixe. Ele lutava lá cima para ver o tinha apanhado e ela debatia-se lá baixo para se desembaraçar. Quanto mais se combatiam, mais a linha ficava embaraçada nos ossos. O kayak balançava e ele fez um último esforço e ela veio á superfície… Aaaah! Gritou quando a viu, meio dentro do barco. Aaah! Quando percebeu os dentes alvos naquele crânio de marfim… e remou para a margem, apavorado. Ela, presa á linha de pesca seguia-o, ainda meio dentro de água. Quando chegou á praia, o pescador apenas se lembrou de apanhar os seus apetrechos e correr feito louco. Mas ela continuou a seguia-lo, presa que estava á linha de pesca… e quanto mais ele fugia mais ela corria atrás dele. Correu as rochas da colina e superfície gelada da grande tundra e quando chegou ao íglo onde morava, arrastou-se pelo canal escuro com o coração disparado e então conseguiu sentir-se seguro. Foi somente quando acendeu a lamparina que deu de caras com ela, um amontoado de ossos, no chão de neve. Mas… talvez tenha sido a luz fraca que lhe suavizou a alvura dos ossos ou talvez tenha sido o pelo facto de ele ser um homem muito solitário… a verdade é que sentiu uma onda bondade e quando finalmente recuperou a respiração e sentiu o coração acalmar, estendeu as mãos e com ternura, ao mesmo tempo que lhe ninava foi desatando os nós da linha embaraçada. Com cuidado ajeitou-lhe os ossos que ganharam a forma humana e embrulhou-a num retalho de peles a manter aconchegada. O pescador, preparou-se para dormir e ela não se atreveu a dizer palavra, com medo de amedronta-lo. Debaixo das peles, sozinho, ele adormeceu e depressa partiu para o mundo dos sonhos. Às vezes, quando as pessoas dormem, uma lágrima desce pela face de quem está a sonhar, nunca sabemos que tipo de sonho causa isso, mas sabemos que tanto pode ser uma lágrima de tristeza ou solidão e foi o que aconteceu ao pescador. A Mulher Esqueleto viu essa pequena lágrima a brilhar à luz da lamparina e sentiu sede… muita sede. Chegou-se ao pé do pescador adormecido e encostou a boca sem labios á lágrima. Essa única lágrima tornou-se num rio e ela bebeu até a sede de muitos anos ficar saciada. Depois, sentou-se ao lado dele, estendeu a mão descarnada e arrancou-lhe o coração que… bum! Bum! bum… soava como um tambor. Foi então que começou a cantar alto: Carne, carne carne! Carne Carne Carne! E quanto mais cantava mais o corpo dela se ia enchendo de matéria, de carne e músculos. Ela cantou por olhos bons, boas mãos e por cabelos. E cantou também pela fenda da vida entre as pernas, pelos seios grandes e mornos e tudo mais que uma mulher necessita. Quando terminou, ela cantou as roupas do pescador, para que desaparecessem e deitou-se com ele. Pele a pele. Retornou o grande tambor, o coração, ao peito do pescador e enlaçou-se nele. E foi assim que acordaram, embrulhados um no outro, já de outra forma… na forma mais feliz e duradoura que existe.”

Às vezes é necessário perder o medo e chorar essa lágrima paixão e compaixão, não tanto pelo outro, mas por nós, mas acima de tudo, por nós. Assim é o ciclo da vida/morte/vida.

Obs: versão original e explicação mais aprofundada deste mito
aqui.

15.6.06

Catchorrona e La Llorona

A primeira vez que ouvi falar de Catchorrona foi pela boca de um Santantonense. O Senhor Maurício, homem nascido e criado lá na “Mon pa Trás”, contou-me como foi que numa madrugada deu de caras com uma enorme Catchorrona. Disse-me que tudo aconteceu depois de um baile, para as bandas do Paúl, quando ele, o irmão e o primo faziam a pé o caminho de casa. No meio das palhaçarias de juventude, ele, Maurício, deu-se conta de um enorme vulto cabeludo debruçado numas pedras na “órela” de mar. Quando percebeu que era uma “Catchorrona” por pouco não cuspiu o coração… Felizmente teve o sangue frio de agir em conformidade, perante uma assombração dessa natureza. Sem dizer nada aos companheiros, incentivou-os a cantarem o resto do percurso enquanto que lhes desviava a atenção do local onde a bicha estava. Chegaram a casa inteiros, mesmo porque ele fez questão de não tornar olhar a Catchorrona pelo que ela também não lhes ligou, ocupada que estava a lavar os meninos “trôd”. Se bem me lembro, a versão do Senhor Maurício era que em vida, a Catchorrona tinha sido uma mulher muito bonita e leviana, pelo que foi amaldiçoada com a praga de não encontrar paz eterna enquanto os meninos que tinha abortado não tivessem vingado. Ela tinha particular gosto pelas horas minguadas, aproveitando as águas da rebentação para lavar as crianças e as suas próprias feridas. Foi somente na manhã seguinte, com o sol crã, que ele contou da Carchorrana ao irmão, pois o melhor a fazer quando se cruza com essa maldição é ignora-la, desviando o espírito para sentimentos alegres ou ela encontrará o caminho até á pessoa que a viu, através da tristeza e do medo.
(…)
Uns tempos depois ofereceram-me o “Women Who Run With the Wolves: Myths & Stories About the Wild Woman Archetype” de Clarissa Pinkola Estes (um livro recomendado tanto a "mulheres que correm com os lobos como aos homens que se atrevem a correr com as mulheres que correm com os lobos”) e foi então que fiz uma descoberta interessante… A estória da Catchorrona também existe na América Latina. São tão similares as versões, que chega a ser impressionante. No México, para alem de fazer parte do folclore nacional, ela tem a aparência de uma mulher normal e é (pré)sentida perto de lagos, rios ou lugares ermos. O nome dela é “La Llorona” (a chorona). http://www.lallorona.com/La_index.html é um site, de entre muitos que encontrei na net, que lhe é dedicado. As conclusões e investigações ficam ao vosso critério. Às vezes o que pensamos ser muito nosso, muito nacional… não é!