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3.3.08

As Linhas de Força e os Tesouros do Youtube

Encontrei novamente a fotografia que ilustra o post intitulado “O Significado do Peixe”. Informo que o autor é Pedro Loureiro e por este pequeno texto subentendi que a fotografia foi tirada em 2005 na Baia das Gatas – São Vicente.
A imagem fez-me regressar no tempo mais uma vez. Vi-me lá no fundo da sala de Teoria do Design a ouvir Setôr Sardinha a falar da importância das linhas de força de uma fotografia e de como se deve tirar partido delas para vincar melhor o sentimento/ideia do que se pretende retratar...
Na altura, há uns 20 anos, frequentava a António Arroio e nos estudos, a aprendizagem e a pesquisa eram feitas nos moldes de então, nada de internet, DVD's, câmaras digitais, etc. Por exemplo... os grandes clássicos dos primórdios do cinema eram analisados à luz do que os Setôres nos falavam, em manuais, criticas, fotogramas ou, muito esporadicamente, através de gravações em VHS. Foi assim que nomes como Fritz Lang, Eisenstein, Murnau, Griffith, Bunuel, o incrível Méliès, passaram a ser meus conhecidos sem, muitas vezes, ter visto um filme deles, por mais hilário ou surreal que possa parecer agora. Logo, foi um
grande prazer "descobrir”, há tempos, todos esses tesouros acessíveis no Youtube. Metropolis, O Couraçado Potemkin, Ivan o Terrivel, Nosferatu, M Matou, Birth of a Nation, Un Chien Andalou, Le voyage dans la lune e muitos mais. Só posso deixar o convite. Hoje em dia, com a net, só não aprende quem não quer.

4.12.07

Na tarde do dia 30 de Julho de 1967...

A maioria das pessoas - pelo menos até à minha geração - que viveu na Praia, nas décadas de oitenta e noventa, conhece ou já ouviu falar do Senhor Hilário Brito. Num tempo em que não havia parabólicas e/ou outras opções, o sinal que a antena dele emitia era a alternativa certa sintonizada em muitas televisões desta cidade. Uma grande figura da Praia sem dúvida.
Clicar no nome do post para descobrir mais.

10.9.07

Bijagós - Memórias de um pai

Após a separação dos meus pais, aí por volta dos meus dez anos, passei a fazer parte do espólio do meu velho. Ele, aos 33 anos, com o fim do casamento, reinventara-se marinheiro errante e pescador, desventurado que estava com o início da guerra que o impedia do de circular pelas estradas da Guiné. Já lhe estava na matriz de ilhéu o destino de ser um deambulante incansável e, na altura, a pretexto de uma fuga imaginária, transferiu a sua sanha de aventuras para a descoberta um arquipélago desconhecido, onde poderia livremente saltar de uma ilha para outra. Um lugar onde as lágrimas que foi vertendo, certamente a olhar para lá das ilhas de Caravela e de Unhocomo, se foram diluindo na mistura baça resultante do encontro das águas do Rio Geba e do Atlântico. O horizonte longínquo que em algumas ocasiões pairava no seu olhar perdido foi-me decifrado numa manhã solarenga, de mar prateado, com vento de través, no canal entre as ilhas de Uno e Orango, quando murmurou, agarrado à cana do leme que aquela canoa, a sua “Ave do Paraíso” como carinhosamente a apelidava, certamente que aguentaria ir até à ilha de Santiago em Cabo Verde. Mal sabíamos os dois que, quase 40 anos depois, milhares de africanos, a fugir da miséria e instabilidade, desafiariam o destino e as intempéries nessas frágeis embarcações para chegarem tanto às ilhas de Canárias como às ilhas creolas.
O desterro voluntário do velho, por longos períodos, tinha sido a encantadora ilha de Sogá no arquipélago dos Bijagós. E eu, orgulhosamente só em Bissau. Os meus outros dois irmãos mais novos, o Rui e o Djoi, tinham acabado por regressar à protecção e segurança do lar materno. Lá ia aguentando menos-mal a casa da madrasta onde nunca me integrei.
Tornei-me também, junto de outros companheiros de mais idade do Bissau Velho um aventureiro incorrigível de caça, dos banhos e pesca de bentaninhas e bagres nas bolanhas próximas da segunda ponte, lá para os lados de Bulola. Nadávamos em grande algazarra e descontraidamente junto de grandes saltões, de sapos, de lagartixas, de garças, de raras linguanas e de cobras que por vezes se entremeavam, de cabeça erguida, no nosso meio à procura de sossego ou da outra margem, sem contar com os crocodilos que, sempre que alguém gritava lagarto saltávamos em debandada para fora da água. Apesar de alguns terem dito que lhes viam, ali na segunda ponte, nunca os vi. Inventávamos os saltos mais arrojados para a água em especial o “arratchacoco” que repetíamos vezes sem conta em cima dos mais incautos.
Outras vezes, num grupo mais pequeno embarcávamos na lancha “Barreiro” ou no pequeno “Gouveia 16” e íamos para o ilhéu do Rei com os operários da fábrica de óleo de amendoim. Esta aventura era somente para os mais destemidos e que aguentavam fome. Ali não havia árvores de fruto ou quem se condoesse connosco. Voltávamos cedo e durante dias sentíamos o odor do óleo de mancarra para onde fossemos. Por vezes, caminhávamos bem mais longe. Até vermos Cumeré do outro lado de um pequeno rio lodoso, o Impernal. Outras vezes ainda caminhávamos alegres, nus ou semi nus, com a roupa enrodilhada na cabeça, cana de pesca no ombro e a indispensável fisga ao pescoço, sempre em bicha de pirilau, através dos diques das bolanhas e canaviais, através de grandes extensões de terra alagada, até sairmos atrás do quartel de Santa Luzia e entrarmos na Granja do Pessubé. Aqui, num jogo de esconde-esconde com os guardas, surripiávamos fruta e nos banhávamos, se possível, no tanque que apelidávamos de piscina. Depois, ao anoitecer, era o regresso ao Bissau Velho sem sapatos ou algumas peças de roupa, arrependidos e com promessas repetidas de que nunca mais faríamos a pirraça de faltar às aulas. A entrada no Bissau Velho despertava em todos o receio das cintadas ou da palmatória de cinco buracos. Dividíamos no Zé da Amura para não dar nas vistas.
Pai fora e madrasta ocupada com afazeres profissionais. Vida boa. O que mais poderia almejar naquela idade? A vontade de continuar livre foi tanta que após um bom final de exame do segundo grau disse orgulhoso a uma vizinha da minha Mãe, perante um olhar dela de comiseração e surpresa, que não tencionava mais voltar à escola porque o meu Pai tinha dito que para ser pescador não era preciso mais que a quarta classe. Ainda acabei, por alguns meses, como aprendiz de mecânico, nas oficinas navais.
Mas antes, num certo dia, numa das inúmeras passagens pelo porto do Pidjiguiti, após as aulas, soube que a canoa a motor de cerca de nove metros a flutuar desajeitadamente a uns metros, para além da cabeça de ponte, era do meu velho e que se prestava a sair com a vazante, de regresso aos Bijagós. Não hesitei e arranjei forma de embarcar. Ninguém mais conseguiu de lá me tirar por mais argumentos que me fossem apresentados.
Época das chuvas, com uma brisa irregular do Sudoeste, horizonte escuro lá para os lados de Tite e de Enxudé a avisar da aproximação de um tornado e mar algo encapelado lá fomos, meia força avante, apontando, num fim de tarde triste, para a embocadura desse largo rio de onde por vezes não se via a outra margem.
Uma hora depois, resguardado, por uma manta fortuita do arrais Nhô André, compadre do meu velho, fascinou-me ver a água fosforescente a deslizar para trás, as luzes de Bissau a desaparecerem e um farol, o Pedro Álvares, muito ao longe pela proa, por vezes, a piscar. O bater compassado do esporão da canoa nhôminca a cortar as ondas altas, as inclinações laterais e a chuva miudinha pouco me amedrontaram. Sentia-me o herói de uma aventura da banda desenhada do Príncipe Perfeito e do Simbad.
Mesmo assim, lá para as nove, já com a lua a iluminar o rastro deixado pela canoa, após ter tentado imitar os outros, mijei em equilíbrio precário para sotavento, mastiguei a custo um pão duro e bebi, por um dos orifícios, quase meia lata de leite condensado que me deram. Adormeci depois todo enrolado e a tiritar em cima de uma prancha, logo a seguir à arca de gelo.
Uma avaria inesperada no único motor, ao largo da ilhas das Galinhas, faria com que continuássemos, a custo por causa da enchente, à vela e a remos até ao nascer do sol. Lá pelas nove, já com a força da maré de vazante, desembarcamos, perante a fuga de mais de uma dezena de macacos e debandada ocasional dos habituais caqres, numa praia da lindíssima ilha de Rubane. O meu primeiro desembarque de muitas outras paragens pela maioria das mais de 60 ilhas e ilhotas. Achei que aquela paisagem deslumbrante seria a tradução do que deveria ser o paraíso. E nunca me arrependi desse juízo. A viagem continuou ainda para uma outra ilha (Canhabaque) algumas milhas adiante, para recolher o meu Pai, que um dia quase que se tornava um nobre desse pequeno reino dos Bijagós. Muito certamente o primeiro espaço da África negra a sofrer um bombardeamento aéreo na guerra dos Bijagós de Canhabaque contra os poderes coloniais por volta da década de 20 do século passado. Só seriam considerados completamente pacificados após sucessivas campanhas que terminaram em 1936.
Mas, depois contar-te-ei com mais detalhes e também do meu encontro com um pai assustado até dizer chega, por ver a loucura que eu tinha feito e naquelas condições de tempo. O meu receio de poder levar uma valente sova quando ele me visse e as ilhas que percorremos, numa breve semana, até retornar, a toque de caixa, a bordo do lento e estafado “Ametite”, à enfadonha turma da quarta classe da Escola Oliveira Salazar, em Bissau. Poucos dos colegas acreditaram que tinha feito tamanha proeza por ser dos mais novos, franzino e não passar de um brancucinho, que apesar de brigador e rápido, jogava desajeitadamente à bola e que até ia para a escola de tchacual. Ainda hoje, julgo que partilho da mesma praga que tombou sobre Cassandra.
Até aos meus 21 anos nunca mais lá deixei de ir sempre que podia. Aprendi com vários arrais, sem cartas e ou outros instrumentos, a não ser a bússola, a navegar no arquipélago, aproveitando as estrelas à noite e o pulsar regular das marés, por entre aquelas ilhas e canais, ao ponto de, aos 13 anos, levar o “LP3” de Bissau a Bubaque e regresso, sem supervisão do arrais, sem encalhar e demorar mais tempo. Surpreendia-me sempre o Arrais Avião, cego de um olho, que me instruía assim “segue paralelo à Sogá, passa o canal de Bubaque, até veres a ponta mais afastada de Rubane, aproas à ponta e deixas a popa na extremidade norte de Sogá até estares dentro do canal. Atenção ao descaimento provocado pela enchente e na vazante à malhadeira na ponta de Bubaque à entrada do canal”. Um autêntico desafio seguir estas instruções na roda do leme. Umas vezes de canoa a remo ou à vela ou outras vezes no barco de pesca e navios de passageiros fui conhecendo o último paraíso desta costa africana que até há pouco tempo ainda detinha resquícios de uma sociedade matriarcal.
O site dar-te-á o alumbramento do que pude ver pela primeira vez. O encanto das ilhas, suas gentes, flora e fauna nunca se perderam dos meus olhos apesar de ter percorrido mais de meio mundo e visitado lugares exóticos. Vê e diz-me se não é mesmo um paraíso o que descobri ainda na infância
.

17.8.06

O colo da Senhora

Eu sempre acreditei que o Tio Tuca morreria de velhinho. Tão velhinho que voltaria a ser a criança de 3 anos que um dia se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de onde saiu. Foi-se ainda não tinha 50 anos e teve a morte mais triste que existe... morreu só sem que ninguém desse por isso. Descobriram-no dias depois estendido no chão da sala desarrumada, no apartamento de uma Luanda tão decadente como a vida que teimou em levar. Mal o conheci, mas as recordações que tenho do Tio Tuca têm um sabor doce e amargo ao mesmo tempo. Numa das poucas vezes em que estivemos juntos, teimou comigo em como seria a ultima vez, eu na altura ainda acreditava que ele morreria com cerca de 100 anos disse-lhe "O tio vai morrer de pura velhice e só não tem a vida eterna porque a carne apodrece.... Está condenado a isso desde que se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de água na Guiné." Ele riu-se sem responder. Quando soube que tinha falecido fiquei admirada apesar de saber que teimava em levar a vida como se não houvesse amanhã... luandou, parodiou e bebeu. Não morreu quando lhe extirparam a ulcera e três quartos do estômago, ainda jovem, não morreu numa segunda operação quando, desenganado de vez, o ti’Tio o trouxe quase cadáver para a Praia para se finar junto dos seus, apenas para se vir a descobrir que afinal tinha uma compressa muito bem guardada debaixo do pâncreas. Assim que se pôs bom, rumou de novo a Angola, para junto dos filhos e amigos e da terra que adoptou depois lá ter combatido contra os “carcamanos no Sul e zairenses em Kinfangondo” e continuou a beber. Nunca foi ferido na guerra, mas foi assaltado algumas vezes nos becos e vielas da Luanda que adorava, também não morreu de sova de puta num saguão de hotel de Dakar por pura caturrice, apenas não queria pagar o "capote". Tinha tanta sorte com a porra da vida dele, que pouco importância lhe dava e levou-me a acreditar que estava sempre bem acompanhado. Dizia sempre que ainda não tinha esgotado as suas sete vidas. Que a Senhora do fundo do poço olhava por ele... mas não. Morreu triste, só, o meu Tio Tuca. Hoje, acho que a felicidade que conheceu, sentado no colo Dela, no fundo daquele poço escuro, enquanto esperava que os gritos do pai, da mãe e dos vizinhos amainassem e o fossem buscar, deve ter sido tanta que a vida que ainda tinha a viver pouco lhe importou. Não acho que fossem tendências suicidas, apenas pouco lhe importava. A mãe dele diz que não, que ele foi um bebé que chorou na barriga e que isso é sinal de infelicidade na vida, mas eu continuo a visualizar a estória que me contaram. Que ele devia ter morrido no início dos anos cinquenta, no fundo daquele poço no quintal da casa de Bolama, aos três anos de idade. Que foram buscar um anjinho e viram assomar pelas mãos do Arsénio um menino feliz de sorriso aberto que dizia ter estado sentado no colo de uma senhora... Bendita Senhora! Devias ter morrido bem velhinho tio Tuca… ou será que viveste em dobro?

1.8.06

Flôr da Revolução

Costumo dizer que nada como um bom “sgrovêt” na net para se aprender e descobrir (a minha vénia aos motores de busca… a meu ver, uma das maiores invenções desta era). Gosto de historia e gosto ainda mais de descobrir e saber sobre Cabo Verde. Eu não nasci cá assim como os meus pais. Mas os meus avós são destas ilhas, saíram do Fogo, da Praia e São Vicente no fim da década de quarenta. O meu regresso a casa e ao passado tem sido feito desde 1990, ano em que vim morar para Cabo Verde, e acreditem, não tenho parado de chegar… Eu sou da Guine Bissau, nasci “papel” e aos cinco anos aprendi que era uma flor da nossa revolução. Andei no Jardim Nhima Sanhá onde a professora Júlia me ensinou que os tugas pretos mataram Cabral, para resmunguice do meu avô Lindorff e risota dos meus pais. Ensinaram-me as doidas doidas doidas andam as galinhas ao mesmo tempo que aprendia a desenhar o P, o A, o I, o G e o C. Picotei muito sapo verde e bandeira de Guiné Cabo Verde em papel de lustro. Só comecei a sentir que alguma coisa não estava bem quando, depois do golpe de 1980, me disseram “brumedju ríba bu téra”. Que terra? Foi somente aí que compreendi que afinal éramos caboverdeanos… Eu que comi muito doce Titina Silá, bebi leite Blufo, eu que visitei a Cicer, a Granja e gritava Nhaeee quando os citroen passavam, afinal eu não era de lá! Apesar do esmero da minha educação revolucionária (á medida da Guiné de setenta) conforme os anos foram passando eu fui desconfiando… alguma coisa não batia. Passei a adolescência em Portugal, sempre desenraizada e quando cheguei a Cabo Verde... foi uma descoberta! Havia uma nova revolução, o homem novo dava lugar ao homem democrático ao mesmo tempo que eu me apercebia que havia toda uma história de um povo que existia para lá do ano de 1975… e desde aí não tenho parado de perguntar e perguntar. Afinal há muitas gerações que deixamos de ser descendentes de escravos e da arraia europeia. Tornamo-nos caboverdeanos nas secas, quando as classes compreenderam que não sobreviveriam nestas ilhas perdidas no meio do mar sem entreajuda... e estamos só de passagem, outras gerações virão.

17.7.06

Abóboras quentes e Doce d’Jam

Ainda estou a dever o "fim de Daddy Grace” mas... enquanto isso cá vão duas estorias pequeninas de São Cente.

Conheci a Nha T. ainda na Praia, mas foi em São Vicente que com ela privei e aprendi muito sobre o Mindelo de antigamente, especialmente a vida das pessoas mais humildes. Numa dessas conversas de fim de domingo ela contou-me como é que matavam os tubarões que, de vez em quando, resolviam dar o ar de sua graça na Baia… Quando assim acontecia, era dado o alarme e logo um barco partia para o largo, levando a bordo um bidão de água a ferver com umas tantas abóboras lá dentro. Primeiro atraíam os bichos com uma isca ensanguentada e depois deitavam ao mar as abóboras que quando engolidas pelos tubarões os punham a zunir dali para fora com as tripas semi cozinhadas...UI!
Um dia ela falou-me dos produtos ingleses que existiam… talcos, colónias, as pastilhas digestivas, o chocolate Cadbury, o doce d’jam...

- Doce de Jam?- perguntei logo
-Sim! Doce d’jam. Era um doce mut sáb…
- Não Nhá T.… era geleia! Jam na inglês ê géleia, bocê crê dzê géleia…
- Não senhor – respondeu zangada – Doce d’jam ê doce d’jam. Mim conchê geleia mut bem e n’era geleia, era doce d’jam!
“Bem feito pelo atrevimento. Afinal quem me mandou contrariá-la?” pensei condescendente. Mas a Nha T. tinha razão… em inglês geleia diz-se “jelly”. "Jam" será equivalente ao nosso doce tradicional. Quanto muito seria doce d’doce?!? Será? Nesse caso como é que se diz compota? N´tâ lost na translation...

28.6.06

Decada de Noventa na Praia

Estava aqui a lembrar-me do início da década de noventa na Praia. Sabem… quando não havia Internet, telemóveis e até um simples telefonema para São Vicente nos tirava tara… Naquele tempo, não existia RTP ou RDP Africa, para não falar em TV por satélite. Não havia SporTV e não se assistia facilmente os grandes jogos de futebol. Os CD’s começavam a ser de uso corrente, ter um discman… nem tanto e MP3 ou IPOD era coisa por inventar. O sistema operativo mais comum utilizado nos PC´s era o MSDos e as diskettes tinham que ser formatadas. O Palácio do Governo da Várzea ainda estava em construção, serviços eram concentrados no Plateau e toda a gente tinha o hábito de passar pela praça antes de ir para casa. Não existia o Palmarejo e o Meio da Achada era um caos, sem ruas calcetadas mas com muitas casas construídas. Não havia Chinês... Não havia lojas de chineses porta sim, porta sim e o Sucupira imperava. Existia rotura de stocks, a farinha acabava, o pão faltava e fruta importada era quase um “San Jon/Corp d’Deus”. Carro não era para todos, Starlets e Micras não rodavam nas estradas de paralelo. As festas ainda eram feitas com multas e “Zero Horas” era um sabura só! Não havia os Caçu Body mas lembro-me do bando dos terriveis “Netinhos da Vovó”.

Poderia dar outros exemplos, mas não quero cair em saudosismos e comparações com o tempo presente. Lembrava-me apenas porque senti uma pontada de nostalgia pela inocência que existia. Senti saudades do meu grupo de então e da Casa da Tia Nela na Achada de Santo António. Mas isso é matéria para um outro post, não é Betty?

21.6.06

Cabo Verde – Como éramos


Desde que me lembro que tenho um fascínio por fotografias antigas. Os daguerreótipos então impressionam-me com a qualidade excepcional da imagem, do brilho e a tonalidade. Tenho gravado na mente um retrato de uma tia-avó do meu avô Lindorff, que vi há uns anos atrás, em Lisboa… a expressão do olhar, a rigidez da pose, o penteado, a vestimenta elaborada e a nitidez do jardim que serviu de cenário. Um encanto! Gosto tanto de fotografias antigas e amarelecidas pelo tempo, que era para chamar a este blog “Sépia”. Acredito que até as nossas memórias com o tempo ganham essa matiz. Sempre que observo alguém fotografado há muitos anos, recordo-me da cena “Carpe Dien” do filme “Death Poets Society”. Os retratos falam-nos de um tempo que passou, que não volta. Até os nossos próprios retratos falam connosco…

No blog “Mindel na Coraçon” (ver nos meus Links) descobri um link incrível chamado “Colecção Traudi Coli” - http://eyeballs.net/verde/ , com fotografias e daguerreótipos de um Cabo Verde esquecido. São centenas de imagens destas ilhas, dos nossos antepassados e da comunidade cabo-verdiana emigrada nos Estados Unidos. Recomendo… e de passagem não deixem de “clickar” em http://www.ernestina.org , o site do Palhabote "Ernestina”.

(desculpem os 1001 adjectivos deste post… é que o entusiasmo é grande!)

29.5.06

"O Primo Constant" e outras recordações da Guiné

"O primo Constant morreu com os pés de fora da cama, de tão grande que foi. Vomitou, em soluços negros, o fígado liquefeito de alguma maleita misteriosa que ninguém da família soube pôr o nome mas que o jovem médico da tropa portuguesa chamou solenemente, ao fim de uma pequena indagação à sua vida passada, de “resquícios da acção do quinino num fígado combalido pelo consumo exacerbado de álcool”. Mas, para o avô Lindorff, o primo querido não poderia ter morrido do “diagnóstico disparatento desse doutorzinho de merda” e acabou que oficialmente e para os anais da família a razão do seu falecimento se deveu a mandioca crua que tinha ingerido horas antes de começar a bolsar uma gosma negra, qual criança acabada de mamar. Quando depois de meia hora e quatro águas gaseificadas percebeu que o refluxo apenas piorava, meteu-se na station e descondongou de Bafatá até Bissau, onde chegou ao anoitecer, com cor de sobra de baguitch bem pangado, pronto para se acabar de desfazer em suor e postas de sangue coagulado, tão perfeitinhas, que mais parecia que paria sanguessugas pela boca. Acabou-se no catre do Hospital Central, tão fino e mirrado que somente os pés desalmados fora da cama, testemunharam o que era seu a seu dono.
Em mil novecentos e setenta e oito, quando a avó Luzia me contou a “estoria” da morte pela mandioca, na cozinha da casa de Bissau, tentando evitar que eu abarbatasse bocadinhos do tubérculo assassino, com a lucidez dos meus sete anos, perguntei-lhe como podia ele, que comeu coisa branca, morrer vomitando coisa preta. Ela acabou por concluir em voz alta, reflectindo se calhar pela primeira vez no assunto, que o fígado do primo depois de viver anos alagado em bebida, ressecara como uma pedra que estala ao sol quente do meio-dia, iniciando daí uma viagem ao mundo exterior, para ver se cá fora, ainda se poderia afogar em vinho de palma. E a mandioca, perguntei de boca cheia, e a mandioca… e a mandioca… respondeu, e sem concluir a frase, enxotou-me para o quintal, onde ainda levei a boca, um último pedaço criminoso.
Mas agora, escrevendo sobre o assunto, ocorre-me que o vinho palma também é branco, enfim, loucuras da minha gente!"
Escrevi este texto em Março de 2004 e somente há tempos tive oportunidade de o dar a conhecer á minha avó Luzia que não perdoou o facto de eu não me ter esquecido da cena da cozinha... Se ela soubesse como as recordações que tenho da minha infância na Guiné me são queridas… Ainda me lembro da sensação de adormecer na carpete da nossa incrível sala de visitas, pintada a quatro cores, onde imperava a enorme estante de mogno cheia de readers digest dos anos 40 e 50 e de bibelots de ocasião, comprados ou nas visitas a Lisboa ou nos Armazéns do Povo. Num canto, entre a segunda janela e o cesto de revistas brasileiras, ficava a pata de elefante oca que eu, às escondidas, me divertia a calçar. Penduradas nas paredes, as cabeças de gazela empalhadas que o tio Carlos tinha mandado de Angola, muito tristes e carunchosas, com os seus olhos de contas de vidrinho e que ainda assim, velavam o meu sono nas horas quentes da sesta… Também não me esqueço dos sofás, de napa vermelha, muito ao estilo anos 50 e da ventoinha do tecto que era ligada quando havia visitas importantes. Vês avó? Se não me lembrar desses detalhes, então não serei eu…