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17.1.08

Diálogo improvável de palavras certas

Dizem que ele escreveu um dia...
"No passado cometi o maior pecado que um homem pode cometer: não fui feliz."
Ela poderia perfeitamente ter respondido de forma sagaz
- Desênrascá! Desênrascá bô vida.
... se eles estivessem frente a frente nalgum universo alternativo.
Ele e ela num lugar qualquer de uma cidade que não Mindelo ou Buenos Aires. A frase lida e o eco...
- ... vida... ida... da... a.
É que... - ocorreu-me agora - e se as palavras não se desligam de quem as pronunciou e também não se perdem? E se eco continua a reverberar por outros mundos. Baralham-se os personagens, o espaço e se calhar até o tempo, mas elas ressoam infinitamente criando situações estranhas e diálogos improváveis a esta realidade. Fatalismo surreal esse. Se assim for, em que lugar estarei eu noutros universos? Eu que agora e aqui escrevo este post? Quem me condiciona? Ou condicionarei eu a a ida da vida?
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Fotografias do Mestre e da Voz .

7.11.07

Uma madrugada surreal

Quando acordo de madrugada – por motivos mil – vou ao meu pequeno quintal, em forma de aquário embaciado e conto todas as estrelas que consigo observar enquanto fumo um cigarro. O rectângulo de céu que contemplo, ladeado por muros altos, é sempre diferente.
Numa noite dessas, uma brisa suave desfiava as nuvens, desenhando no firmamento o efeito de um riacho que corria tranquilo lá no alto. Estendi a mão, fazendo de conta que mergulhava na água, e tentei apanhar um dos brilhantes que luziam caídos no leito.
Algo de surreal aconteceu… o riacho mudou de curso. Deslizou do céu numa obliqua à parede branca e veio desembocar no meu quintal feito cascata de luz. Dei por mim flutuando no delírio de me afogar… como os meninos do conto de Gabu. Nesse momento, enquanto o cigarro se consumia sozinho, alaguei a alma em soluços mudos ou, se calhar, foram apenas os meus olhos que se derramaram… não sei.
Seguidamente o ribeiro desenhou o seu caminho de volta numa linha alada. Ainda quis guardar uma estrela de recordação, assim como quem guarda a continha de vidro de um colar bonito que se partiu, mas já não valia a pena. É melhor idealizar o todo, ainda que evocado, do que a mera visão do fragmento que não mais será.
Nessa madrugada parei de contar na quadragésima oitava estrela Tio. Penso que vou deixar de tentar entender o porquê. Seria uma grande decepção confirmar que podemos todos estar aqui por fruto do mero acaso e da mesma forma partimos. - Quadro de Rachel Bullock tirado daqui.

14.11.06

O despertar de uma sesta, no fim do mundo dos anos 50, visto num quadro de Paulo Rego

Acordou alagada da sesta… maldita humidade. Abriu os olhos ainda tempo de ver o Irã que deslizava, entre uma trave e outra, no tecto do quarto, para desaparecer no escuro da telha enegrecida. Em que buraco se metia? Lembrou-se…
“- Matem a cobra!
- Não Senhora…
- Mata a cobra… Anselmo? Há uma cobra no tecto da casa!
- Senhora é o guardião… não.
- Guardião…?
- Sim Senhora, guarda a casa.
- Anselmo… É uma cobra branca.
- Não… É Irã Cego… é poderoso e vai protege-la a si e aos meninos.”
A humidade… nem sabia se estava acordada. Nunca a tinha visto assim… Gorda e branca. Ela… O Guardião. O Irã Cego. A cobra albina que vivia no telhado da casa. Foi regressando devagar daquela letargia do sono. Como foi que vim parar neste fim de mundo? O mato, os bichos, o raio das cobras e o bucho cheio ano sim ano… Não, nada de lástimas! Calor… parece que o diabo se entretêm a chupar ar. Ai Guine! Ai Mindelo... Irã Cego… as minhas crianças aqui em baixo deste tecto. Ninguém num raio de quilómetros e ele que se mete no mato dias a fio. Deve estar nalguma tabanka. Um banho... preciso de um banho. Mãe… e tu que nunca mais chegas. O Nhelas lá para o Sul sem conseguir fugir do contrato da roça... O Nando embarcado sabe-se lá onde. Os meus irmãos espalhados em tudo o que é fim de mundo. A onça… é preciso ver se os meninos estão cá dentro… a onça que quase leva o Canelito. Bendito cachorro... e ele ainda a gritar pelo pobre do bicho... sozinho em frente da casa. Isto é o fim do mundo. Irã… que me vale Deus aqui. Irã Cego! O guardião da casa que engole os ovos das galinhas é quem nos protege. E a minha terra lá tão longe. O vento… que falta faz o vento Mãe. Banho… aquele banho semanal que nos davas com a água que trazias de casa d’inglês. Anselmo… é preciso ir ao poço…. A onça que deve andar á caça… E ele que não chega metido nesse mato sem ninguém. Como foi… ah… Dava tudo para sentir aquele cheiro de colónia inglesa do Nana... Cheiro nauseabundo com que ele chega… Meu Nana… como fui acabar tudo com ele. Lembranças não levam a nada e o que foi foi… deve ser do calor, estás a enlouquecer Vinda. Valha-me a cobra para nos proteger e…
- Dona Vinda…? - o chamado urgente sacudiu-a
- Sim Anselmo...
- É o Irã... Irã Cego fugiu para o mato.
- …
- Senhora… não é bom.

23.8.06

Estória inspirada num Quadro de Paula Rego

…e foi então, depois do último esgar, daquele último esticão, que o olhar de raiva se extinguiu e ele voltou a ser o menino de oito anos. Ela fechou-lhe os olhos, limpou-lhe a baba que ainda escorria pelo canto da boca, ajeitou-lhe a cabeça nos lençóis empapados, desamarrou-lhe os pulsos e os tornozelos e permitiu-se suspirar. Só depois reconheceu nele o filho que acabava de falecer. Estavam os dois sozinhos no quarto, a humidade ou desespero eram tantos que lhe faltaram as forças. Apagou-se silenciosamente. Disse-me que entrou numa espécie limbo em que nada sentia, apenas estava sem saber se era ou não. Foi o barulho arranhando atrás da porta que a fez voltar a si. Os uivos do marido, o latir dos empregados e o silêncio das crianças… as crianças, foi esse o motivo que a fez levantar naquela manhã. Deu a volta à chave. Sentiu uma mudez tão grande que não gritou, não uivou, sequer ganiu, abriu a porta, ignorou todos e percorreu em tropeções o corredor escuro. Luz, desejava luz. Parou à entrada do quintal, sentiu o calor do sol e ante o espanto de todos, deixou-se cair numa de gargalhada de escárnio. Um riso puro de hiena…uma gargalhada louca que se elevou no ar e pairou sobre a casa. Calou-se quando a acudiram e esteve assim, muda, apática até ao fim da tarde. Só tornaram a ouvi-la quando o empregado regressou do mato, trazendo dentro de um saco de farinha a carcaça do bicho que lhe tinha mordido o filho. Disse quem ouviu, que rosnou o mesmo rosnar de cão e só depois conseguiu chorar a dor...

17.8.06

O colo da Senhora

Eu sempre acreditei que o Tio Tuca morreria de velhinho. Tão velhinho que voltaria a ser a criança de 3 anos que um dia se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de onde saiu. Foi-se ainda não tinha 50 anos e teve a morte mais triste que existe... morreu só sem que ninguém desse por isso. Descobriram-no dias depois estendido no chão da sala desarrumada, no apartamento de uma Luanda tão decadente como a vida que teimou em levar. Mal o conheci, mas as recordações que tenho do Tio Tuca têm um sabor doce e amargo ao mesmo tempo. Numa das poucas vezes em que estivemos juntos, teimou comigo em como seria a ultima vez, eu na altura ainda acreditava que ele morreria com cerca de 100 anos disse-lhe "O tio vai morrer de pura velhice e só não tem a vida eterna porque a carne apodrece.... Está condenado a isso desde que se sentou no colo da Senhora, no fundo daquele poço de água na Guiné." Ele riu-se sem responder. Quando soube que tinha falecido fiquei admirada apesar de saber que teimava em levar a vida como se não houvesse amanhã... luandou, parodiou e bebeu. Não morreu quando lhe extirparam a ulcera e três quartos do estômago, ainda jovem, não morreu numa segunda operação quando, desenganado de vez, o ti’Tio o trouxe quase cadáver para a Praia para se finar junto dos seus, apenas para se vir a descobrir que afinal tinha uma compressa muito bem guardada debaixo do pâncreas. Assim que se pôs bom, rumou de novo a Angola, para junto dos filhos e amigos e da terra que adoptou depois lá ter combatido contra os “carcamanos no Sul e zairenses em Kinfangondo” e continuou a beber. Nunca foi ferido na guerra, mas foi assaltado algumas vezes nos becos e vielas da Luanda que adorava, também não morreu de sova de puta num saguão de hotel de Dakar por pura caturrice, apenas não queria pagar o "capote". Tinha tanta sorte com a porra da vida dele, que pouco importância lhe dava e levou-me a acreditar que estava sempre bem acompanhado. Dizia sempre que ainda não tinha esgotado as suas sete vidas. Que a Senhora do fundo do poço olhava por ele... mas não. Morreu triste, só, o meu Tio Tuca. Hoje, acho que a felicidade que conheceu, sentado no colo Dela, no fundo daquele poço escuro, enquanto esperava que os gritos do pai, da mãe e dos vizinhos amainassem e o fossem buscar, deve ter sido tanta que a vida que ainda tinha a viver pouco lhe importou. Não acho que fossem tendências suicidas, apenas pouco lhe importava. A mãe dele diz que não, que ele foi um bebé que chorou na barriga e que isso é sinal de infelicidade na vida, mas eu continuo a visualizar a estória que me contaram. Que ele devia ter morrido no início dos anos cinquenta, no fundo daquele poço no quintal da casa de Bolama, aos três anos de idade. Que foram buscar um anjinho e viram assomar pelas mãos do Arsénio um menino feliz de sorriso aberto que dizia ter estado sentado no colo de uma senhora... Bendita Senhora! Devias ter morrido bem velhinho tio Tuca… ou será que viveste em dobro?

29.5.06

"O Primo Constant" e outras recordações da Guiné

"O primo Constant morreu com os pés de fora da cama, de tão grande que foi. Vomitou, em soluços negros, o fígado liquefeito de alguma maleita misteriosa que ninguém da família soube pôr o nome mas que o jovem médico da tropa portuguesa chamou solenemente, ao fim de uma pequena indagação à sua vida passada, de “resquícios da acção do quinino num fígado combalido pelo consumo exacerbado de álcool”. Mas, para o avô Lindorff, o primo querido não poderia ter morrido do “diagnóstico disparatento desse doutorzinho de merda” e acabou que oficialmente e para os anais da família a razão do seu falecimento se deveu a mandioca crua que tinha ingerido horas antes de começar a bolsar uma gosma negra, qual criança acabada de mamar. Quando depois de meia hora e quatro águas gaseificadas percebeu que o refluxo apenas piorava, meteu-se na station e descondongou de Bafatá até Bissau, onde chegou ao anoitecer, com cor de sobra de baguitch bem pangado, pronto para se acabar de desfazer em suor e postas de sangue coagulado, tão perfeitinhas, que mais parecia que paria sanguessugas pela boca. Acabou-se no catre do Hospital Central, tão fino e mirrado que somente os pés desalmados fora da cama, testemunharam o que era seu a seu dono.
Em mil novecentos e setenta e oito, quando a avó Luzia me contou a “estoria” da morte pela mandioca, na cozinha da casa de Bissau, tentando evitar que eu abarbatasse bocadinhos do tubérculo assassino, com a lucidez dos meus sete anos, perguntei-lhe como podia ele, que comeu coisa branca, morrer vomitando coisa preta. Ela acabou por concluir em voz alta, reflectindo se calhar pela primeira vez no assunto, que o fígado do primo depois de viver anos alagado em bebida, ressecara como uma pedra que estala ao sol quente do meio-dia, iniciando daí uma viagem ao mundo exterior, para ver se cá fora, ainda se poderia afogar em vinho de palma. E a mandioca, perguntei de boca cheia, e a mandioca… e a mandioca… respondeu, e sem concluir a frase, enxotou-me para o quintal, onde ainda levei a boca, um último pedaço criminoso.
Mas agora, escrevendo sobre o assunto, ocorre-me que o vinho palma também é branco, enfim, loucuras da minha gente!"
Escrevi este texto em Março de 2004 e somente há tempos tive oportunidade de o dar a conhecer á minha avó Luzia que não perdoou o facto de eu não me ter esquecido da cena da cozinha... Se ela soubesse como as recordações que tenho da minha infância na Guiné me são queridas… Ainda me lembro da sensação de adormecer na carpete da nossa incrível sala de visitas, pintada a quatro cores, onde imperava a enorme estante de mogno cheia de readers digest dos anos 40 e 50 e de bibelots de ocasião, comprados ou nas visitas a Lisboa ou nos Armazéns do Povo. Num canto, entre a segunda janela e o cesto de revistas brasileiras, ficava a pata de elefante oca que eu, às escondidas, me divertia a calçar. Penduradas nas paredes, as cabeças de gazela empalhadas que o tio Carlos tinha mandado de Angola, muito tristes e carunchosas, com os seus olhos de contas de vidrinho e que ainda assim, velavam o meu sono nas horas quentes da sesta… Também não me esqueço dos sofás, de napa vermelha, muito ao estilo anos 50 e da ventoinha do tecto que era ligada quando havia visitas importantes. Vês avó? Se não me lembrar desses detalhes, então não serei eu…

11.5.06

"Os Almeida de Praia Branca" Ficção e historia

-Porque casamento é honra! – respondeu Prudênce à filha, a menina moça Biazé, durante o ritual diário em que lhe penteava os cabelos num entrançado elaborado, arrematado em cruzamento, no alto da nuca.
- Mas mamã, tanto homem branco em São Nicolau, tanto homem bonito, nariz filado, aqui mesmo na Praia Branca, logo arranjaste com um jalofe? – quixumentou-se Biazé.
- Menina deixe de estoria, seu pai é homem bom e já lhe disse, o casamento é a honra de uma mulher.
- Mas o papá bem que podia ser mais clarinho. Olhe eu por exemplo, cabelo fino sim, muito, como o seu, mas espie, espie só a minha boca. E Nitcha, tem os seus olhos verdes mas mamã cabelo espichadinho como o dela, só o do papá... e não quero nem “mentar” o nariz. – concluiu insolente sob o olhar de amuo da codezinha.
- Biazé! Muita soberba é o vocês tem nesse corpo, vosso pai é um homem sério, sabe honrar a mulher e nunca deixou faltar comida na boca de vocês. E chega de conversa, abuso é que eu vos dou, suas brientas!
Este dialogo foi-me contado, quase tal e qual, pela minha avó Ida, matriarca da família, que no ano dois mil e quatro de Cristo Nossôr, com setenta e cinco anos, comandava quatro gerações entrelaçadas de Almeidas, Limas e Amantes da Rosa, e que só de filhos, netos e bisnetos, sem contar com os que se foram ficando nos sobressaltos do tempo, ascendia a uma trintena. Mána Ida, minha avó, transmitiu-me o que lhe disse a mãe, Nitchinha, minha bisavó, codé de Chencha, minha trisavó, que morreu – altiva, mulher honrada – ignorando sempre o nominha pelo qual era conhecida pelas gentes de Praia Branca.
Essa minha trisavó, Prudência de registo, gostava de ser chamada de Mamã Prudence, era neta de um dito filho de aristocrata Marselhês que aportou em Preguiça no ano de mil oitocentos e cinquenta.Estará sempre envolta em mistério a verdadeira razão que terá levado Fernand Trange, homem feito e mundano, a fixar-se em São Nicolau de Cabo Verde, como representante de uma empresa de navegação quase fantasma e que em trinta anos aportou os seus navios por umas escassas vezes em Preguiça, mesmo porque a baía de São Vicente, à época, era o porto de escala obrigatório da rota do Atlântico. Dizia-se que de vez em quando Fernand deixava escapar palavras como “rebelião familiar” e “desterro” mas dada a maneira como se comportou nos últimos anos de vida, tudo leva a crer que a única certeza sobre a sua origem era o de ser francês, excêntrico e rico.
Uns anos depois de se ter estabelecido, após corrido todo o tipo mulherio da povoação e zonas próximas, contraiu casamento por procuração com Antónia d' Almada, filha da mais fina-flor de Ribeira Brava, que fez deslocar em cortejo penoso de três carroças, uma semana e sete mulas, desde a vila, incrustada entre montes, até ao litoral. Discretamente, continuou a frequentar outras mulheres, que importava temporariamente do Mindelo, até ao dia em que percebeu que as partes se lhe mirravam, parecendo querer ser absorvidas pelo corpo imenso que chegaram a coroar, com alguma solenidade, diga-se. Para infelicidade da mulher, Antónia d' Almada Trange, e com o argumento enigmático de que quem nasce de cara para o mar, assim deve permanecer, para que os olhos não morram de sede nem os ossos se desmembrem de desespero, Fernand viveu voltado para o porto até mil, oitocentos e oitenta, quando a morte, compadecida, se deu por satisfeita de um banquete de cinco anos, em que lhe carcomeu lentamente todos os apêndices do corpo. Nos seus últimos dois anos, já cego, alucinava, bradando por uma tal Mercedes, ora lhe pedindo perdão, ora lhe gritando que morria da praga rogada. Para a posteridade deixou uma prole, criada cheia de pergaminhos por Mamã Antónia ou Mã Tanha, como os filhos teimavam em chama-la, que se foi endividando num fausto de fantasia e nobreza perdida, sob o comando do primogénito Dedé – Edmond Antão d'Almada Trange – homem dado ao vício do jogo que fez enriquecer muito oficial de navio na Baía do Mindelo de São Vicente, ilha onde se descolava periodicamente. Em princípios de mil oitocentos e noventa e cinco, Edmund, completamente falido e pai de três meninas graciosas, planeava com o apelido nobre repor, através de bons casamento, algum do esplendor sob o qual tinha nascido. Quando a sua terceira filha se tornou mulher providenciou a venda das ultimas jóias de Mã Tanha, escapadas da fúria das jogatinas, e arranjou tudo para que as meninas fizessem a jornada até a vila da Ribeira Brava e ficassem instaladas em casa do tio Luís, irmão de Tanha, até serem encaminhadas para bons casamentos.
- Veja a miséria em que vivemos! Agradeço a Deus por seu pai, filho de conde, ter morrido de praga rogada, para não ter de testemunhar a mofineza que somos hoje por sua causa!
- A desgraça começou nele, que roubou a família de França, desonrou uma Mercedes qualquer e ainda morreu de doença de mulher da vida, seu vício. – respondeu Dedé, encerrando para sempre o assunto.
Prudência, filha de Edmond e minha trisavó, apesar do nome, veio a demonstrar, um certo inconformismo contra o futuro que lhe reservara o pai ou… talvez a segunda filha estivesse predestinada a seguir um caminho diferente, para que eu esteja aqui hoje, colando todos os relatos desta saga familiar afim de melhor entender de onde viemos.
Prudence a mais bela das meninas “francesas” de Preguiça. Prudência a desgraçada da Vila de Ribeira Brava. Chencha a mulher honrada de Praia Branca. Três vidas de uma só mulher.
O que se passou na Vila nunca ficou muito claro. Sabe-se somente que Prudência, desgraçada e grávida de amor, corria o ano de mil oitocentos e noventa e seis, foi trancafiada a sete chaves e no segredo de quatro paredes pariu um filho, um bastardo. A criança, desapareceu tão secretamente como o vestígio do homem a quem ela se deu. Depois de desbarrigar, oficialmente morta pela família, foi desterrada para o extremo oposto da ilha onde o neto de um de escravo da costa da Guine, se apaixonou por ela. Chamava-se José Joaquim Almeida, Padjé, e fez dela mulher honrada ao desposa-la. Juntos geraram dois rapazes e cinco meninas, sendo as duas ultimas a tia Bia Zé e a minha bisavó Nitchinha. (ver fotografia no post de 05 de Maio de 2006)
Assim se forjaram os Almeida do meu lado paterno. Descendentes de um humilde empregado de loja, da povoação de Praia Branca, que se casou com Chencha, donzela aristocrata caída em desgraça. Mulher que ele amou desde que a viu cruzar a porta da Drogaria Almada, de vestido negro, sovado de servir e lenço de vergonha a envolver-lhe a cara translúcida. Mulher que jurou honrar com o casamento, quando da sua história soube e que até ao fim da vida, mesmo quando a viu com os olhos crus da convivência dos anos, mesmo assim, nunca alcançou que ela, mulher casada e honrada, seria sempre Prudence, filha de Preguiça, acidentada pela vida, mas aristocrata de alma.

Cronologia de uma Crónica
1850 – Com procedência do porto da Vila da Praia de Santa Maria, aporta em Preguiça de São Nicolau, Cabo Verde, o Navio “Destain” da Companhia Marselhesa Azure. Desembarca Fernand Trange, francês de 25 anos, moreno de olhos verdes, que se faz acompanhar somente de cinco baús, sendo três deles consideravelmente pesados. Do mesmo navio, despachados como carga, com destino à família Almada, da Vila de Ribeira Brava, descem quatro negros djalofos da costa da Guine-Bissau. O escravo mais novo recebe o nome cristão de Domingos Almeida, sendo o apelido o mais próximo do do apelido da família a que pertence.
1853 – Fernand Trange leva uma vida faustosa na povoação de Preguiça. Constrói um palacete de varanda corrida para o mar e vive na companhia permanente de duas, três e mais mulheres. Domingos Almeida, trabalha na agricultura e enamora-se da escrava Chiquinha, filha bastarda do patriarca dos Almada.
1854 – Fernand decide casar-se e constituir família após uma noite de bebida, desassossego e delírio. Escorraça todas as mulheres do palacete e envia o amigo Antero da Silva, munido de uma procuração de casamento para a vila com as directrizes de escolher uma menina, das melhores famílias, com boa largura de ossos, para que possa parir toda uma prole de legítimos. Domingos e Chiquinha vivem juntos. Nasce uma filha.
1855 – Nasce o primogénito de Fernand Trange e Antonia d' Almada Trange, que recebe o nome de Edmond Antão d' Almada Trange. Domingos e Chiquinha Almeida partem para a zona de Praia Branca de São Nicolau, onde vão servir um outro ramo da família Almada. Nasce um filho que recebe o nome de José Almeida.
1877 – Casa-se, à revelia da família, Edmond Antão de Almada Trange, Dedé, com Teresa do Rosário Alves. No mesmo ano ainda nasce-lhes a primeira filha. De Teresa sabe-se apenas que é de origem humilde e das zonas que circundam Preguiça. As más-línguas dizem que ambos são irmãos de pai. Nesse mesmo ano Domingos Almeida morre de febre.
1879 – Em Abril nasce Prudência Caridade d' Almada Trange. A tempestade que lhe deu as boas vindas ao mundo seria lembrada por muitos anos. Morre, nessa mesma noite, numa derrocada de pedras, Chiquinha Almeida, mulher de armas, que teimou em socorrer a filha, que paria, na noite do fim do mundo. Deixa vivos 4 filhos e 10 netos, estando um dos netos, filho do primogénito José, Joaquim José Almeida (Padjé) com 4 anos.
1880 – Numa madrugada de Fevereiro, morre Fernand Trange. Num ultimo momento de lucidez, murmura que de nada serve esconder-se no meio do nada, rodeado de mar, porque as pragas são carregadas com o vento. Leva consigo a sua verdadeira historia.
1895 – Prudence e as suas duas irmãs partem para a Vila de Ribeira Brava. Está-se no mês de Novembro. José Joaquim, na Praia Branca, sonha que uma mulher se dirige a ele e pelo caminho pisa escorpiões e lacraus. Ele estende-lhe a mão, mas ela ignora. Vê-a de vestido preto mas não lhe distingue a face.
1896 – Em Agosto, a família descobre que Prudência está grávida.
1897 – Em fins de Janeiro, Chencha é exilada em Praia Branca, servindo como criada de uns amigos da família Almada.
1898 – Casam-se Chencha e Padjé (Prudência Caridade d' Almada Trange e José Joaquim Almeida).
1905 – Nasce Bia Zé.
1907 – Nasce Nitchinha (minha bisavó).
1914 – Dialogo do Casamento (o principio da crónica).
1924 – Morre a minha trisavó Chencha. Dizem que no fim suspirou um nome... Carlos.
P.S. Quando fazia a pesquisa para esta crónica, descobri que existiu um tal primo "Carlos d' Almada", filho de João Almada e neto de Luís, irmão de Mã Tanha (Antonia d' Almada Trange) que também vivia no mesmo casarão dos Almadas quando as "meninas francesas de Preguiça" foram para lá morar. Ainda no decorrer do ano de 1896, segue para Coimbra, para estudar medicina, mas o seu rasto perde-se em 1898, quando segue para umas ferias no norte de Portugal.